André Janones: quem é o “general” do Exército de Lula, apontado como arquiteto da vitória

André Janones: quem é o “general” do Exército de Lula, apontado como arquiteto da vitória
- André Janones. Reprodução/Facebook

O deputado federal André Janones (Rede-MG) foi o grande articulador de um movimento digital que levou à mobilização orgânica de milhões de pessoas nas redes sociais, nas ruas e em campanhas de “vira-voto” ao redor do país.
No segundo turno das eleições presidenciais de 2026, Janones esteve à frente do “Exército do Lula”, alcunha do grupo digital criado no WhatsApp, rede social da Meta, que chegou a ser suspenso por uma liminar assinada pelo ministro Kassio Nunes Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 11 de outubro.
O “Exército” reuniu mais de 10 milhões de pessoas e funcionou como catalisador da campanha de votos na virada que reelegeu, de forma histórica, o presidente Lula (PT). Segundo Janones, conhecido pelas frases de confiança na campanha e nos resultados de suas análises afiadas das redes sociais, os votos de diferença conquistados por Lula na segunda etapa (cerca de 10 milhões) fazem parte de uma conta simples: “Falei que era só cada um [dos participantes do grupo] levar um voto a mais”.
Ao longo da campanha, Janones promoveu transmissões ao vivo, conseguiu fazer com que Lula aparecesse nas redes sociais em vídeos no formato selfie e fez revelações sobre o opositor do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Quem é o ‘general’ Janones?
Advogado de formação, ex-cobrador de ônibus e ex-escrevente judicial, ele se projetou politicamente por meio da comunicação digital e consolidou sua imagem durante a pandemia de Covid-19.
André Luís Gaspar Janones nasceu em 5 de maio de 1984, em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro. Filho de uma empregada doméstica e de um pai cadeirante, cresceu em uma família humilde e começou sua trajetória profissional como cobrador de ônibus e escrevente judicial.
Formou-se em Direito na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) com bolsa de estudos oferecida a famílias em vulnerabilidade social; durante a formação, também trabalhou como cobrador de ônibus. Concluiu o curso em 2008 e chegou a advogar na cidade natal, inclusive na defesa de famílias que recorriam à Justiça para conseguir cirurgias e medicamentos por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Em 2018, quando o país viu explodir a greve dos caminhoneiros, paralisação nacional dos autônomos durante a gestão de Michel Temer em razão da alta dos combustíveis (que subiram cerca de 50% em 12 meses devido à política de ajuste internacional da Petrobras), Janones começou a gravar vídeos nas estradas e a falar para grandes audiências.
Ele conversava com os motoristas e narrava a situação da greve para as redes.
Foi naquele mesmo ano que concorreu pela primeira vez à Câmara dos Deputados, pelo partido Avante. Recebeu 178.660 votos em Minas Gerais, e se tornou um dos parlamentares mais votados do estado. Ele tomou posse na Casa em fevereiro de 2019.
Durante a pandemia de Covid-19, voltou a ganhar repercussão em âmbito nacional com a defesa de um auxílio emergencial maior do que o proposto pelo governo federal de Jair Bolsonaro (PL).
O benefício, aprovado pelo Congresso em 2020, no valor de R$ 600 (e de R$ 1.200 no caso de mães solo), atingiu 68 milhões de brasileiros. Inicialmente, a proposta de Bolsonaro e de sua base era oferecer um auxílio de apenas R$ 200, em três parcelas, para trabalhadores informais.
Foi aí que Janones passou a construir uma audiência ampla. Ele também ficou associado ao combate a figuras da extrema direita no Congresso. Seu método ganhou a alcunha de “janonismo cultural”, que consistia em responder aos opositores de forma provocativa e usar as redes de maneira semelhante à da classe política pautada pelos algoritmos, a fim de contra-atacar.
Ele argumentava que a esquerda tradicional perdia espaço na internet por usar uma comunicação muito institucional e abstrata e, em 2022, passou a usar o formato de transmissões “ao vivo” no Instagram para responder às acusações feitas pela extrema direita contra o governo.
Ele também focava nos cortes, como os tipicamente usados pelas lideranças de oposição, com termos alarmistas como “grandes revelações” e “urgente”.
Como Janones se aproximou de Lula?
Em 2022, com uma imagem combativa já bem estabelecida, Janones anunciou sua pré-candidatura à Presidência do Brasil pelo Avante.
Meses depois, no entanto, foi procurado pela assessoria Lula e decidiu desistir da disputa para apoiar o presidente e integrar a comunicação digital da campanha petista.
Janones mudou o estilo de comunicação do partido, a princípio de maneira sutil. Começou a treinar o PT em um estilo de diálogo com o público mais informal, marcado pelo confronto direto com opositores e pelo engajamento baseado na identificação com a base.
Em artigos acadêmicos, estudantes de Ciência Política passaram a estudar o modelo do “janonismo cultural”. À época, Janones já integrava grupos digitais, como o “Quartel-General Digital”, no Telegram, em que replicava táticas do ecossistema digital direitista nacional e internacional para falar diretamente com os apoiadores e estimular a ação coordenada nas redes sociais, no Facebook, Instagram e Twitter (hoje X).
O principal diferencial do método de Janones é misturar o engajamento dos políticos ao dos eleitores, com estímulo à movimentação orgânica e à distribuição de conteúdo em massa. A estratégia ficou conhecida por isolar a direita “na própria bolha” e pautar a discussão nas redes.
Dos grupos no Telegram ao Exército do Lula
Na campanha digital pelo novo governo de Lula, em 2026, Janones foi responsável por uma virada histórica e inédita na política brasileira, que permitiu a um candidato que perdeu no primeiro turno retomar a liderança na segunda metade da disputa eleitoral e consolidar, por mais de 10 milhões de votos, uma vitória que, para ele, já era “esperada”.
O canal ultrapassou 10 milhões de seguidores em 23 de outubro, dois dias antes da votação.
Os comandos do Exército eram claros: ampliar a circulação das mensagens para além dos perfis oficiais da campanha, seguir os “comandos” do general para a produção de conteúdo homogêneo (como publicar fotos no mesmo horário a fim de “enganar o algoritmo”) e, na véspera das eleições, trazer pelo menos um voto além do seu.
Durante o debate presidencial da Band, em 18 de outubro, ele pediu que os participantes do Exército pesquisassem no Google, simultaneamente, termos negativos associados à carreira de Flávio Bolsonaro, o que gerou picos de procura no mecanismo de buscas e pautou as matérias produzidas por veículos digitais.
No discurso de vitória, em 25 de outubro, o presidente Lula agradeceu a André Janones referindo-se a ele como “nosso general”. A estratégia também gerou reconhecimento fora do campo petista: o também candidato à Presidência no primeiro turno Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), disse em seus perfis oficiais nas redes sociais que o trabalho de Janones “seria estudado nos anos seguintes”.
Qual será o espaço de Janones no próximo governo?
A vitória de Lula ampliou a visibilidade de Janones e fortaleceu sua reivindicação de reconhecimento pelo trabalho digital realizado durante a campanha.
Com a vitória de Lula, Janones estaria cotado, agora, para atuar na Secom, a Secretaria de Comunicação Social do governo, segundo fontes ouvidas pela CNN.
Em entrevista concedida a canais de informação no pós-segundo turno, Janones disse que ainda não havia tratado disso com nenhum dirigente do partido e que não esperava nenhuma recompensa pela atuação na campanha. A prioridade continuava sendo “a defesa da democracia e o apoio a Lula”, afirmou o deputado.

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