O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) passou a acompanhar denúncias de irregularidades que marcaram o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). As apurações envolvem o chamado “golpe do ônibus”, com a retenção de veículos e a redução do transporte público em cinco estados, além da ação de policiais militares que atingiram um motociclista durante as comemorações da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Florianópolis (SC).
A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar possíveis crimes eleitorais relacionados à restrição do transporte de eleitores. A corporação acompanha os problemas de mobilidade registrados em São Paulo, Bahia, Alagoas, Piauí e Sergipe.
O diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da PF, Dennis Cali, afirmou que os investigadores procuram esclarecer se houve ações destinadas a impedir ou dificultar o exercício do voto, incluindo a ocultação de meios de transporte.
“São fatos que ainda estão em apuração”, declarou Cali. Segundo ele, a PF trabalha em conjunto com os tribunais regionais eleitorais, o Ministério Público Eleitoral e as demais forças policiais. Depoimentos de pessoas envolvidas na operação dos transportes já estão sendo colhidos.
Golpe do ônibus: veículos retidos em garagens na Bahia
Um dos episódios mais graves ocorreu em Salvador. Durante o segundo turno, fiscais do Procon da Bahia identificaram 544 ônibus parados em cinco garagens da capital. Parte dos veículos estava apta a circular, apesar das determinações judiciais para a oferta integral e gratuita do transporte aos eleitores.
O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) chegou a determinar a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, que estava em viagem oficial a Paris. A ordem foi revogada na segunda-feira (26), após o encerramento da votação, mas a investigação sobre a retenção dos veículos foi mantida.
O tribunal encaminhou os autos à Procuradoria Regional Eleitoral e à Polícia Federal, determinando ainda que a prefeitura e as concessionárias preservem documentos, escalas de motoristas e registros operacionais. A medida busca esclarecer as circunstâncias da redução da frota e identificar eventuais responsáveis.
O prefeito Bruno Reis (União Brasil) negou ter determinado a redução do serviço. Segundo ele, o atraso ocorreu porque empresas retiravam adesivos de propaganda eleitoral dos ônibus. A prefeitura sustenta que posteriormente determinou a liberação dos veículos e normalizou a operação.
Em São Paulo, Alagoas, Piauí e Sergipe, a PF também verifica se os problemas de mobilidade tiveram relação com condutas deliberadas para prejudicar o deslocamento de eleitores. Até o momento, a existência de uma ação coordenada entre os estados não foi demonstrada.
A Revista Fórum mostrou que a Justiça Eleitoral determinou a circulação integral dos ônibus em Salvador, sob pena de multa de R$ 1 milhão por hora em caso de descumprimento.
Ministério da Justiça cobra explicações sobre violência policial em SC
Em outra frente, o Ministério da Justiça exigiu esclarecimentos imediatos sobre a ação de uma viatura da Polícia Militar Rodoviária de Santa Catarina que atingiu um motociclista de 24 anos, na noite de domingo (25), durante a comemoração da reeleição de Lula em Florianópolis.
Imagens divulgadas nas redes sociais mostram a viatura atravessando o canteiro central de uma rodovia e atingindo a motocicleta. O jovem foi socorrido e encaminhado ao hospital.
A Polícia Militar afirma que a equipe tentava abordar motociclistas que realizavam manobras perigosas na SC-403 e sustenta que a motocicleta colidiu com a viatura durante a intervenção. A corporação informou que encaminharia o caso à Corregedoria para apuração.
O MJSP enviou ofícios à Polícia Militar, à Secretaria de Segurança Pública e ao Ministério Público de Santa Catarina. O acompanhamento ficará sob responsabilidade de um grupo de trabalho da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp).
Em nota oficial divulgada na segunda-feira (26), o Ministério afirmou que o episódio exige uma apuração rápida, rigorosa e transparente.
A Fórum publicou as imagens da ação policial durante a comemoração em Florianópolis.
Ministério da Justiça registra 733 ocorrências
O balanço atualizado do Ministério da Justiça, divulgado na noite de segunda-feira (26), contabilizou 733 ocorrências durante o segundo turno, com 61 autos de prisão em flagrante, 254 termos circunstanciados e 173 pessoas conduzidas.
Segundo o relatório oficial da pasta, a violação ou tentativa de violação do sigilo do voto representou 39,1% dos registros, seguida de boca de urna (12,8%) e propaganda eleitoral irregular (10,4%).
As investigações sobre a retenção de ônibus deverão esclarecer se as restrições ao transporte configuraram crimes eleitorais e identificar os responsáveis por eventuais medidas que tenham prejudicado o direito de voto.
Ministério da Justiça mira “golpe do ônibus” em cinco estados e ação violenta da PM em SC
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