“Hans, liga o gás”: grupo de gestores da Educação de Jorginho Mello tem mensagens nazistas e ameaças a servidores

“Hans, liga o gás”: grupo de gestores da Educação de Jorginho Mello tem mensagens nazistas e ameaças a servidores
Jorginho Mello - Foto: Leo Munhoz/SecomGOVSC

Um grupo de WhatsApp formado por gestores e servidores ligados à Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina, no governo de Jorginho Mello (PL), reúne mensagens com referências ao nazismo, ameaças de perseguição política e propostas para identificar e afastar funcionários considerados de esquerda. Entre os conteúdos compartilhados está uma imagem de Adolf Hitler acompanhada da frase “Hans, liga o gás”, referência às câmaras de gás utilizadas pelos nazistas no extermínio de judeus durante o Holocausto.
As mensagens foram documentadas pela jornalista Amanda Miranda, do ICL Notícias, em reportagem publicada nesta sexta-feira (30). A profissional teve acesso a capturas de tela de conversas do grupo, denominado “Educação em Ação”, criado em maio de 2026 por pessoas que ocupam funções na estrutura da Educação catarinense.
Segundo a apuração, as conversas ganharam um tom de intimidação após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). Participantes passaram a defender a identificação de servidores com posições políticas diferentes das suas, enquanto outros compartilhavam conteúdos extremistas e ameaças.
A reportagem aponta que o grupo reúne ocupantes de cargos comissionados, gestores e trabalhadores de diferentes setores da Educação estadual. Os registros foram preservados pela jornalista, que optou por não divulgar integralmente as capturas de tela para proteger a identidade de suas fontes.
Grupo da Educação de Jorginho Mello defende perseguição a servidores
As conversas mostram que, após o resultado das eleições, integrantes do grupo passaram a discutir formas de identificar profissionais supostamente alinhados ao PT e apresentar seus nomes ao governador.
Uma das mensagens propunha levar uma relação desses trabalhadores a Jorginho Mello para promover uma “limpa” na estrutura administrativa. Outros participantes responderam que poderiam fornecer nomes e afirmaram que existiriam servidores de esquerda atuando de maneira disfarçada.
Outro integrante anunciou que iria “caçar traidores”. Também houve manifestações defendendo a retirada de profissionais identificados como esquerdistas da estrutura da Educação.
As ameaças não ficaram restritas a possíveis medidas administrativas. Segundo Amanda Miranda, uma das mensagens compartilhadas fazia referência à possibilidade de agredir fisicamente uma pessoa associada ao campo político adversário.
O grupo também registrou ataques ao educador Paulo Freire e ao filósofo italiano Antonio Gramsci, além de manifestações separatistas e mensagens de hostilidade contra a reeleição de Lula.
O conteúdo divulgado levanta questionamentos sobre a utilização de posições hierárquicas na administração pública para constranger servidores por suas convicções políticas. A existência das mensagens, entretanto, não comprova que as ameaças tenham resultado em exonerações ou transferências.
Grupo também era utilizado para mobilização eleitoral
O grupo “Educação em Ação” foi criado em maio, meses antes do início oficial da campanha eleitoral, em 16 de agosto. De acordo com o ICL, a mensagem de apresentação foi compartilhada por um assessor especial da Gerência de Desenvolvimento Profissional, vinculada à Diretoria de Gestão de Pessoas da Secretaria da Educação.
Em 7 de maio, durante o horário de expediente, uma mensagem solicitou a participação dos integrantes em um evento político com Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, a então deputada Caroline de Toni e Jorginho Mello, realizado em Florianópolis.
Os destinatários foram orientados a preencher uma ficha de inscrição. O encontro reuniu aproximadamente cinco mil pessoas, segundo a reportagem.
Servidores ouvidos pela jornalista relataram que gestores indicados pelo governo teriam pressionado subordinados para participar de atividades eleitorais, sob ameaças veladas de remoção de funções ou desligamento da secretaria.
Entre professores afastados temporariamente das escolas para exercer funções administrativas, havia receio de perder os postos e retornar às unidades de origem caso não demonstrassem alinhamento político com a gestão.
Os relatos também apontam que a Gerência de Desenvolvimento Profissional seria utilizada para monitoramento e constrangimento de trabalhadores. Não foram apresentados, porém, elementos que permitam estabelecer quantos servidores teriam sido atingidos ou se recursos públicos foram efetivamente empregados na organização de atividades partidárias.
Sindicato alerta para intimidação de professores
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação na Rede Pública de Ensino de Santa Catarina (Sinte-SC), Elivane Secchi, condenou as ameaças e destacou que nenhum profissional pode sofrer intimidação por suas opiniões políticas.
Segundo a dirigente, professores frequentemente se tornam alvos de perseguição quando discursos autoritários avançam. Ela defendeu que as escolas sejam espaços de liberdade de pensamento, diversidade e respeito às diferenças.
Elivane orientou os profissionais que sofreram ameaças a preservar as provas, registrar boletins de ocorrência e formalizar denúncias ao Ministério Público e ao Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola (NEPRE).
Neto Puerta, vice-presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de Santa Catarina e integrante do Fórum Catarinense de Defesa do Serviço Público, também criticou os relatos de utilização de cargos e estruturas administrativas para constranger trabalhadores.
O sindicalista afirmou que denúncias de aparelhamento político da administração estadual têm sido recorrentes e ressaltou a importância da estabilidade dos servidores públicos como proteção contra perseguições por divergências ideológicas.
Ameaças podem configurar assédio eleitoral
As práticas descritas na reportagem podem ter consequências administrativas e judiciais, caso sejam confirmadas e caracterizados os requisitos previstos na legislação.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece que servidores públicos não podem ser utilizados em campanhas eleitorais durante o expediente, ressalvadas as situações legalmente autorizadas. Também é proibido utilizar estruturas administrativas para beneficiar candidaturas.
O advogado eleitoral Rodrigo Burgos de Azevedo Mangabeira, ouvido pelo ICL, afirmou que a atuação dos integrantes do grupo pode envolver condutas vedadas a agentes públicos. Ele ressaltou, entretanto, que não teve acesso às mensagens e que uma conclusão depende da análise do conteúdo e das circunstâncias das conversas.
Além da legislação eleitoral, a Lei nº 7.716/1989 prevê punições para práticas de discriminação e para a divulgação de propaganda nazista nas condições definidas em seu artigo 20. O eventual enquadramento criminal das mensagens depende de investigação e avaliação jurídica específica.
O episódio surge em meio ao aumento das denúncias de perseguição política após as eleições. Conforme mostrou a Fórum, o Ministério Público do Trabalho recebeu 1.143 denúncias de assédio eleitoral nos três dias seguintes à vitória de Lula.
Na quarta-feira (28), o governo federal anunciou uma força-tarefa para combater ameaças, demissões e discriminação por convicção política. As ações incluem canais de denúncia e medidas de responsabilização de empregadores e agentes envolvidos.
Secretaria da Educação não respondeu aos questionamentos
A Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina é comandada por Luciane Bisognin Ceretta, reitora licenciada da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), que assumiu a pasta em 2025.
O ICL procurou a assessoria de imprensa da secretaria para esclarecer a existência do grupo, sua eventual relação com a estrutura administrativa e as denúncias de ameaças e perseguição política.
Até a publicação da reportagem de Amanda Miranda, a pasta não havia respondido aos questionamentos.
Não há, nas informações divulgadas, comprovação de que Jorginho Mello tenha determinado ou autorizado o envio das mensagens. Também não foi identificada uma investigação oficial concluída que estabeleça responsabilidades individuais.
O caso levanta questões sobre a identificação dos autores das ameaças, a eventual utilização da estrutura pública para mobilização eleitoral e a proteção dos profissionais da Educação contra retaliações políticas.

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