A guerra pelo espólio político de Jair Bolsonaro voltou a explodir nesta terça-feira (28). Depois de uma breve trégua, perfis ligados ao entorno de Eduardo Bolsonaro retomaram os ataques contra Michelle Bolsonaro, tendo como pretexto um detalhe em um vídeo publicado pela ex-primeira-dama.
O alvo é André de Sousa Costa, principal assessor de Michelle e homem de confiança da presidenta destituída do PL Mulher. Costa entrou na mira dos irmãos Bolsonaro em dezembro, quando se rebelou contra a candidatura de Flávio.
André Costa, assessor de Michelle Bolsonaro (Reprodução)
Após a confirmação do nome de Flávio como pré-candidato, o assessor chegou a classificar a possibilidade como “ridícula” em mensagens enviadas por meio de sua lista no Instagram. As mensagens foram printadas e circularam em grupos ligados a Bolsonaro.
“Pergunte se alguém ouviu a voz de Bolsonaro. Pergunte se alguém leu uma carta de Bolsonaro. Esquece!”, escreveu à época em seu perfil nas redes, que foi apagado. Em outra mensagem, afirmou que “Michelle não fala com a imprensa para dar esse tipo de informação” e voltou a criticar reportagem que tratava do tema: “ridícula essa matéria”.
André Costa também compartilhou trechos de uma entrevista do pastor Silas Malafaia ao portal Metrópoles, publicada na coluna do jornalista Paulo Cappelli. Na ocasião, o líder religioso defendeu que Flávio recuasse da disputa e que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fosse o candidato do campo bolsonarista.
Conhecido apenas nos corredores do Palácio do Planalto e da cúpula do PL, a partir de então o coronel da Polícia Militar do Distrito Federal passou a ocupar o centro da disputa entre o grupo de Michelle e o núcleo formado pelos filhos.
Mais do que um assessor, tornou-se um dos principais formuladores políticos da ex-primeira-dama e, para aliados de Flávio e Eduardo, um porta-voz informal das posições que Michelle prefere não externar publicamente.
Da Secom ao PL Mulher
A ascensão de Costa começou durante o governo Bolsonaro. Coronel da PM do Distrito Federal, ele chegou ao Palácio do Planalto como assessor especial da Presidência e, em abril de 2021, foi escolhido por Jair Bolsonaro para assumir a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), no lugar do almirante Flavio Rocha, que ficou pouco mais de um mês na função, substituindo interinamente o demitido Fábio Wajngarten.
A nomeação, publicada no Diário Oficial da União, colocou o militar no comando da estratégia de comunicação do governo federal em um dos períodos mais turbulentos da gestão bolsonarista, marcado pela pandemia, pelo desgaste político e pela antecipação da disputa eleitoral de 2022.
Na Secom, Costa passou a integrar o círculo mais próximo do então presidente, coordenando campanhas institucionais e a comunicação oficial do governo.
A permanência no cargo até o fim do mandato consolidou sua posição como um dos auxiliares de maior confiança de Bolsonaro, embora sempre tenha mantido perfil discreto, distante dos holofotes ocupados pelos ministros e pelos filhos do ex-presidente.
Com a derrota de Bolsonaro nas urnas, André Costa migrou naturalmente para o núcleo político de Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama assumiu a presidência do PL Mulher e iniciou um projeto de fortalecimento de sua própria liderança nacional, mirando a montagem de uma estrutura partidária independente do gabinete dos filhos de Bolsonaro.
Costa tornou-se chefe de gabinete e um dos principais articuladores desse processo, acompanhando Michelle em agendas pelo país, coordenando eventos e auxiliando na estratégia política do segmento feminino da legenda.
A proximidade ficou evidente durante o Encontro Nacional de Mandatárias do PL Mulher, em junho de 2025, quando Costa participou da organização das atividades lideradas por Michelle voltadas à formação de lideranças femininas, planejamento eleitoral e ampliação da presença do partido nos estados. Àquela altura, já era visto dentro do PL como um dos integrantes mais influentes do entorno da ex-primeira-dama.
Guerra interna
Foi justamente essa posição que transformou suas declarações em combustível para a guerra interna. Ao atacar publicamente a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e classificá-la como “ridícula”, André Costa rompeu um acordo tácito de convivência entre as alas do partido.
O senador, que tenta se consolidar como herdeiro natural do capital político do pai diante da inelegibilidade de Jair Bolsonaro, viu crescer dentro do próprio PL uma resistência articulada por aliados de Michelle.
O Michellismo ganhou força especialmente após ex-funcionários do PL Mulher, comandados por Costa, lançarem o movimento Imparáveis.mb – em relação a Michelle Bolsonaro. O movimento ocorreu em junho passado, quando a ex-primeira-dama divulgou o vídeo-bomba contra o enteado.
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Descontentes com a ação de Flávio Bolsonaro junto a Valdemar da Costa Neto, que implodiu o comando central do movimento criado por Michelle, ex-funcionários foram às redes do próprio PL Mulher promover o “imparáveis”, que foi visto pelos filhos do ex-presidente como o lançamento oficial do Michellismo.
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Um post compartilhado por PL Mulher Nacional (@partidoliberalmulher)
A leitura predominante é que um assessor com o grau de proximidade que ele possui dificilmente faria críticas dessa dimensão sem, ao menos, conhecer a estratégia política da ex-primeira-dama.
A reação veio pelas redes sociais no início desta semana, após Michelle e Flávio Bolsonaro encenarem a trégua fake às vésperas da oficialização da chapa presidencial.
Integrantes do chamado “gabinete do ódio”, subservientes a Eduardo Bolsonaro, lançaram uma ofensiva que utilizou o vídeo publicado pela ex-primeira-dama como gatilho para retomar os ataques. A mensagem é clara: atingir Costa significava atingir Michelle e enviar um recado ao grupo que passou a disputar espaço dentro do bolsonarismo.
Narrativa de pacificação
A ofensiva desmonta a narrativa de pacificação construída nos últimos dias entre Michelle e Flávio Bolsonaro. Embora gestos públicos tenham sugerido uma aproximação, os episódios recentes mostram que a disputa pela liderança da direita permanece aberta e cada vez mais explícita.
Com Jair Bolsonaro inelegível e cercado por problemas judiciais, a sucessão deixou de ser uma discussão futura para se tornar uma batalha cotidiana dentro do clã.
A guerra, travada dentro da família, agora foi levada para o centro da campanha de Flávio Bolsonaro após Michelle aceitar a humilhação pública do enteado, com o pedido de desculpas em vídeo nas redes sociais.
Os ataques a Costa, que virou alvo da tropa de Eduardo Bolsonaro, aconteceram no mesmo dia em que o nome de Priscila Costa (PL-CE) passou a ventilar como possível vice de Flávio.
Ex-vice-presidente do PL Mulher e pivô da guerra no Ceará em torno do apoio a Ciro Gomes (PSDB), Priscila é vista por aliados de Flávio Bolsonaro como infiltrada de Michelle, que ainda estaria tentando implodir a candidatura do enteado para herdar o espólio político eleitoral do convalescido e inelegível Jair Bolsonaro.
Costa, que aparece na linha de frente da batalha, seria o último obstáculo para os filhos de Jair Bolsonaro enterrarem as pretensões políticas da madrasta, que resiste diante da trincheira onde comanda um nicho eleitoral essencial para a eleição do enteado: as mulheres conservadoras.
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