O intervalo de apenas 21 dias entre o primeiro e o segundo turnos das eleições provou ser um período de intensa reconfiguração política e comportamental nas urnas brasileiras em favor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma análise aprofundada apresentada pelo portal g1, que cruza o mapeamento geoespacial das quase 500 mil seções eleitorais apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com os microdados demográficos e socioeconômicos do Censo 2022, realizado pelo IBGE, revela uma virada decisiva no perfil da votação que consagrou a reeleição do estadista de esquerda.
Embora o padrão histórico de estratificação social do voto tenha se mantido presente, com as zonas de menor poder aquisitivo registrando as maiores proporções de votos no candidato do PT, a dinâmica de expansão do eleitorado no segundo turno não seguiu uma linha uniforme. A apuração consolidada aponta que a candidatura vitoriosa registrou ganhos percentuais em todas as camadas econômicas da pirâmide social. Contudo, o grande propulsor do crescimento eleitoral concentrou-se nos extratos urbanos correspondentes à classe média baixa.
Virada decisiva na faixa intermediária
O raio-x dos dados mostra que a zona de maior volatilidade e mudança de posicionamento ocorreu nos territórios com renda média familiar compreendida entre R$ 2.590 e R$ 2.920 mensais. Esse contingente, que engloba expressiva parcela da população trabalhadora e de prestadores de serviços, somando cerca de 14,7 milhões de cidadãos, ou aproximadamente 9,4% de todo o eleitorado nacional, havia dado a vitória ao candidato de oposição, Flávio Bolsonaro (PL), na primeira etapa do pleito.
Nas três semanas de interregno da campanha, no entanto, a fotografia das urnas nessa faixa intermediária sofreu uma guinada expressiva. Lula subiu de 44,4% para 51,6% dos votos válidos nesses setores censitários, revertendo a desvantagem e assumindo a liderança do segmento com um salto de 7,2 pontos percentuais. Em contrapartida, a candidatura de Flávio Bolsonaro estagnou no mesmo estrato, oscilando de 47,6% para 48,4%.
Essa movimentação provocou o deslocamento da chamada “fronteira de dominância” entre as forças políticas. Se na etapa inicial do pleito o extremista liderava em todas as localidades com renda média superior a R$ 2.590, a margem de preferência bolsonarista foi empurrada para cima no segundo turno, restringindo-se às regiões com rendimentos acima de R$ 2.920 mensais.
Teto nas extremidades e a elasticidade do centro
A comparação entre as pontas da pirâmide social ajuda a ilustrar por que a classe média baixa tornou-se o fiel da balança no resultado final, que terminou com a vitória de Lula por 51,8% dos votos válidos (64,3 milhões de votos) contra 48,2% de Flávio Bolsonaro (59,8 milhões de votos).
A variação do desempenho eleitoral ao longo do espectro socioeconômico evidencia esse movimento com clareza: nas áreas mais vulneráveis, com renda de até R$ 1.780, Lula já sustentava 69,4% dos votos no primeiro turno e avançou para 74,2% na etapa decisiva, uma alta de 4,8 pontos percentuais que, embora expressiva, refletiu a proximidade de um teto de penetração. Em contraposição, na faixa intermediária de R$ 2.590 a R$ 2.920, correspondente à classe média baixa, o salto foi de 7,2 pontos percentuais, levando a candidatura petista de 44,4% para 51,6% dos votos válidos e garantindo a virada na região.
Conforme a renda média aumenta, a votação diminui de forma contínua: nas áreas de rendimento entre R$ 5.190 e R$ 7.130, o percentual de Lula no segundo turno situou-se em 41,7%. Já no estrato mais abastado, com renda acima de R$ 7.130, o candidato reeleito cresceu 6,7 pontos percentuais, passando de 37,6% no primeiro turno para 44,3% na votação final. Em todas as faixas localizadas a partir dos R$ 2.590 mensais, o ganho da candidatura petista manteve-se consistentemente acima de 6,5 pontos.
Metodologia e nuances territoriais
É fundamental destacar os critérios metodológicos adotados no processamento dos dados para compreender a natureza das conclusões:
Agregação geográfica: A análise toma como unidade de observação os bairros e setores censitários, e não o comportamento individual de cada eleitor. Em qualquer seção eleitoral, convivem vizinhos com diferentes perfis socioeconômicos e escolhas ideológicas distintas.
Domicílio eleitoral: O local onde o cidadão registra seu título de eleitor nem sempre coincide estritamente com o local de sua residência habitual.
Defasagem temporal de renda: Os parâmetros cambiais e de renda tomados como referência baseiam-se na amostragem oficial do Censo 2022 do IBGE, capturando a estrutura socioeconômica das localidades geográficas apuradas.
O conjunto dos dados expõe, portanto, um fenômeno em que a repacificação de discursos e o rearranjo de alianças promovidos no segundo turno encontraram eco especialmente nas periferias consolidadas e nos centros urbanos intermediários, convertendo a classe média baixa no principal motor da consolidação da vitória eleitoral do petista.
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