Bancado pela Caixa, André Domingos corteja clã Bolsonaro e cogitou candidatura a deputado

Bancado pela Caixa, André Domingos corteja clã Bolsonaro e cogitou candidatura a deputado
Andre Domingos com o clã bolsonaro e Tarcísio - Fotomontagem Reprodução Redes Sociais

Vinte dias depois de assinar um contrato para atuar como embaixador de um programa patrocinado pela Caixa Econômica Federal, o ex-velocista André Domingos abriu sua própria raia eleitoral.
Em 30 de março, ele publicou no Instagram uma imagem em que aparece apresentado como “pré-candidato a deputado federal”. Na legenda, deixou a provocação: “Será?”, acompanhada por três bandeiras do Brasil.
https://www.instagram.com/p/DWg4KB_CEbc/
A postagem não traz as marcas da Caixa e não pode, isoladamente, ser classificada como uma das entregas remuneradas pelo Programa Ídolos do Atletismo. O achado revela, porém, que André começou a testar uma candidatura no mesmo perfil colocado à disposição da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) para o cumprimento do contrato.
Foi nesse perfil do Instagram que o ex-atleta também fez as publicações de aproximação com Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas reveladas pelo jornalista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles.
Em vez de repetir as postagens já documentadas pela coluna, a Fórum avançou sobre o que elas revelam: o início de um susposto projeto eleitoral de André e o uso coletivo dos perfis contratados para impulsionar eventos e entregas de governos.
Na primeira reportagem desta apuração, a Fórum mostrou que a CBAt mantém 28 contratos com atletas e ex-atletas, que podem somar R$ 1,176 milhão em 2026. Cada integrante precisa realizar seis publicações mensais no Instagram.
Pré-candidato sem precisar deixar o programa
O contrato de André Domingos foi assinado em 10 de março. A provocação sobre uma candidatura à Câmara apareceu apenas 20 dias depois.
O instrumento contém uma porta aberta para a pré-campanha: o afastamento do Programa Ídolos somente é obrigatório a partir da “homologação da candidatura”.
Até que o nome seja aprovado em convenção partidária, portanto, o contratado pode se apresentar como pré-candidato, construir uma base política e permanecer no programa patrocinado pelo banco público.
Não há no documento uma suspensão automática para quem apenas anuncia, testa ou articula uma pré-candidatura. A regra só alcança o integrante quando a disputa eleitoral já estiver formalizada.
André ainda poderia receber até R$ 42 mil durante o ano, desde que suas entregas fossem aprovadas pela CBAt. Os relatórios mensais devem incluir prints, links e métricas das publicações apresentadas para justificar cada parcela.
Isso torna a prestação de contas decisiva: ela pode revelar como a confederação separou o conteúdo esportivo da construção política realizada no mesmo perfil.
Contratados impulsionam entrega de Tarcísio
A varredura da Fórum também encontrou ao menos cinco publicações próprias de outros três integrantes do Programa Ídolos sobre a reinauguração do estádio Ícaro de Castro Mello, no complexo do Ibirapuera.
A recuperação da pista foi convertida em uma das principais vitrines esportivas do governo de Tarcísio. Além dos elogios pessoais já publicados Caixa paga atletas que promovem Flávio Bolsonaro e Tarcísio nas redes; programa pode chegar a R$ 1,17 milhão , a entrega foi amplificada por uma rede de atletas remunerados pelo programa.
O medalhista olímpico Arnaldo de Oliveira  fez  publicação para anunciar a inauguração da nova pista e o retorno do Troféu Brasil de Atletismo ao Ibirapuera.
https://www.instagram.com/p/DaV2SqgHQOO/
Rosemar Coelho Neto publicou registros da entrega do restauro e classificou o momento como importante para São Paulo.
https://www.instagram.com/p/DaWJfKtlJg2/?img_index=3
Jadel Gregório também entrou na divulgação. O ex-saltador anunciou a volta do “templo do atletismo paulistano e brasileiro” e destacou a retomada das competições no local.
https://www.instagram.com/p/DaFClgQMB3s/
As publicações de Arnaldo, Rosemar e Jadel não contêm pedido de voto nem apoio eleitoral ou a político em tom explícito. Também não é possível afirmar, sem os relatórios mensais, que todas foram apresentadas como contrapartidas remuneradas.
O ganho da apuração está no conjunto: perfis financiados pelo mesmo programa foram utilizados, em sequência, para ampliar o alcance de uma entrega do governo paulista. Dentro dessa onda institucional, alguns contratados ultrapassaram a divulgação do atletismo e passaram à promoção pessoal de Tarcísio e de integrantes do clã Bolsonaro.
Uma rede de 168 publicações por mês
Com 28 contratados obrigados a realizar seis postagens mensais, o Programa Ídolos pode movimentar 168 publicações por mês.
A estrutura oferece à CBAt e aos patrocinadores uma rede pronta de campeões, medalhistas e nomes históricos da modalidade. Somados, esses perfis são capazes de amplificar eventos, projetos e agendas públicas para públicos diferentes.
A finalidade formal é promover o atletismo. O problema surge quando a rede patrocinada começa a misturar divulgação esportiva, promoção de autoridades e projetos eleitorais pessoais.
No caso de André, a sobreposição está exposta no próprio perfil: enquanto cumpria um contrato ligado à Caixa e à CBAt, o ex-atleta cortejava o grupo político de Bolsonaro e testava a possibilidade de disputar uma cadeira na Câmara.
Para estabelecer quais publicações efetivamente liberaram pagamentos, a Caixa e a CBAt precisam tornar públicos os seis links apresentados mensalmente por cada integrante, os prints originais, as datas de aprovação e a identificação dos responsáveis pela conferência.
Sem esses documentos, não é possível tratar toda postagem sobre o Ibirapuera como conteúdo pago. Já é possível constatar, contudo, que o programa criou uma rede de influência esportiva que também serviu para impulsionar entregas governamentais — e, no caso mais explícito, como pista de lançamento de uma possível candidatura.

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