A convenção estadual do PSB em São Paulo, realizada na noite de sexta-feira (31) no plenário da Assembleia Legislativa do Estado (Alesp), oficializou Márcio França como candidato a vice-governador na chapa de Fernando Haddad (PT) e lançou Simone Tebet para uma das duas vagas ao Senado, com apoio à candidatura de Marina Silva (Rede) para a outra. O evento reuniu Haddad, França, Tebet, Marina Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e parlamentares do PSB como Tabata Amaral e Jonas Donizette, e foi marcado por críticas em série à gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e por momentos de brincadeiras com a cadeirada que o apresentador José Luiz Datena desferiu em Pablo Marçal durante a campanha municipal de 2024, sinalizando o tom combativo que a frente ampla pretende imprimir na disputa de 2026.
A Convenção e as Alianças
A escolha da Alesp como palco não foi acidental: o plenário da casa legislativa estadual funcionou como cenário simbólico para a formalização de uma aliança que reúne PT, PSB e Rede em torno de uma candidatura ao governo de São Paulo. A convenção oficializou Márcio França como vice na chapa encabeçada por Fernando Haddad e confirmou o apoio do PSB às candidaturas de Simone Tebet e Marina Silva ao Senado Federal, compondo uma frente que o partido aposta ser ampla o suficiente para disputar o estado mais populoso do Brasil.
Além dos cabeças de chapa, o evento reuniu o vice-presidente Geraldo Alckmin, que governou São Paulo por 12 anos e cuja presença foi lida pelos organizadores como sinal de coesão da aliança. Os deputados federais Tabata Amaral e Jonas Donizette, e os deputados estaduais Andrea Werner, Marina Helou, Valdomiro Lopes e Caio França, presidente estadual do PSB, também estiveram no plenário. O partido anunciou ainda as candidaturas de 71 concorrentes a deputado federal e 86 a deputado estadual, indicando uma estrutura de campanha que vai além dos nomes nacionais.
A formalização da chapa Haddad-França consolida uma articulação que vinha sendo construída nos bastidores e transforma a convenção em marco oficial do calendário eleitoral de 2026 no estado. Para o PSB, o evento cumpriu a função de mostrar unidade interna e projeção nacional, ao reunir num mesmo palanque figuras de perfis distintos, do centro ao campo progressista.
Confronto com Tarcísio
Se havia dúvida sobre qual seria o eixo central da campanha da frente ampla, a convenção tratou de dissipar. Os discursos convergiram em críticas à gestão Tarcísio de Freitas, abordando desde a privatização da Sabesp até a segurança pública, passando pela relação do governador com os prefeitos do interior. Haddad foi o mais direto: afirmou que Tarcísio tem intimidado prefeitos a aderir à Sabesp privatizada e que repasses obrigatórios são celebrados pelo governo estadual como se fossem favores. “Quando são convidados para ir ao Palácio dos Bandeirantes, é para um anúncio de repasse obrigatório, porque o discricionário não vem. O que é obrigatório é celebrado como se fosse um favor. E os prefeitos são intimidados”, disse Haddad.
Marina Silva reforçou o argumento ao revelar que candidatos da chapa têm se reunido com prefeitos em agendas fechadas, sem divulgação pública, porque esses gestores municipais temem retaliações do governo estadual. O relato aponta para um clima de pressão que, segundo a pré-candidata ao Senado, constrange a livre circulação política no estado.
Simone Tebet escolheu a segurança pública como seu terreno de ataque. Citando dados da Secretaria de Segurança Pública, ela destacou que 141 feminicídios foram registrados no primeiro semestre deste ano em São Paulo e associou o aumento ao que chamou de “discurso de ódio da violência doméstica” atribuído à gestão. “Não existe segurança pública melhor em São Paulo se eu tenho mulheres sendo assassinadas todos os dias dentro de casa”, afirmou. Márcio França acrescentou uma crítica de cunho simbólico: questionou onde mora Tarcísio, afirmando que o governador “mora em Brasília, na zona noroeste de Brasília”, e classificou como “afronta” o fato de o chefe do Executivo paulista não ter residência no estado.
A ‘Cadeirada’ de Datena e a Estratégia de Campanha
O momento mais ruidoso da noite foi protagonizado por José Luiz Datena, candidato a deputado federal pelo PSB. Antes de subir ao microfone, Datena já havia sido convocado indiretamente por Márcio França, que brincou que a campanha de Tarcísio à reeleição não enfrentaria “meninos”, mas “homens”, e que a disputa “nem vai precisar das cadeiradas do Datena”. A referência era ao episódio em que o apresentador golpeou Pablo Marçal com uma cadeira durante debate da campanha municipal de 2024.
Datena aproveitou a deixa. Em seu breve discurso, disse se arrepender da cadeirada, mas sustentou que a agressão foi necessária para se defender de acusações que, segundo ele, foram infundadas. Então ergueu uma cadeira diante do público e completou: “O Márcio falou que não precisa, mas por via das dúvidas.” A plateia respondeu com gritos de “cadeirada, cadeirada” e ovação.
O episódio condensou o tom que permeou a convenção: combativo, performático e voltado para a mobilização da base. A exaltação de um ato de violência física como símbolo de coragem eleitoral pode render dividendos junto ao eleitorado já convencido, mas também oferece munição para adversários que queiram enquadrar a chapa como incendiária. O que ficou claro na Alesp é que a frente ampla, ao menos neste momento de largada, não está priorizando o discurso de moderação.
A Frente Ampla e a Mobilização no Interior
Ganhar São Paulo exige vencer fora da capital, e os discursos na convenção demonstraram que a frente ampla tem consciência disso. Simone Tebet foi quem melhor articulou a estratégia: afirmou que a campanha vai “rodar o interior com vários braços e várias pernas”, com cada candidato falando ao seu público específico. “Essa frente ampla permite que uns falem com evangélicos, outros falem com agronegócio, alguns com agricultura familiar, outros com setor produtivo e assim vai”, disse.
O nome mais citado para essa tarefa foi Geraldo Alckmin. Haddad e França ressaltaram o peso do vice-presidente no interior paulista, onde ele governou por 12 anos e mantém reconhecimento. “Ele sempre participa”, disse Haddad. França foi mais cauteloso quanto à disponibilidade do correligionário, lembrando que os compromissos da vice-presidência limitam a agenda: “Só em final de semana, horário de almoço, de jantar, se ele tirar férias também.” Questionado diretamente sobre se vai rodar o interior com a chapa, Alckmin respondeu com um sorriso tímido e um sinal de positivo.
A estratégia de dividir o trabalho de campanha entre perfis complementares é uma resposta direta à heterogeneidade do eleitorado paulista. Alckmin cobre o interior tradicional; Marina Silva fala ao eleitorado ambientalista e evangélico progressista; Tebet se posiciona no centro e no agronegócio; Haddad ancora a base petista. O desafio, que a convenção não respondeu, é transformar essa diversidade em mensagem coesa quando os candidatos dividirem o mesmo palanque.
Contexto Político e Implicações
A convenção também foi palco de disputas simbólicas que vão além de São Paulo. Tabata Amaral usou seu discurso para defender a soberania nacional e criticar Flávio Bolsonaro (PL) por suas associações com Donald Trump, Javier Milei e Binyamin Netanyahu, conectando a disputa estadual ao debate sobre o alinhamento internacional da direita brasileira. Alckmin, por sua vez, discursou em defesa do direito de voto das mulheres, citando a Revolução de 1932, numa resposta direta às declarações de bolsonaristas que questionaram o sufrágio feminino.
Haddad encerrou seu discurso com um alerta sobre o ambiente político: “Enquanto nós nos deixarmos levar por paixões políticas irracionais, por cegueira deliberada, por ideologia barata, nós não vamos nos debruçar sobre a situação crítica desse estado.” A frase funciona como diagnóstico e como provocação, ao mesmo tempo em que a própria convenção, com sua exaltação à cadeirada e seus ataques em série, operou num registro bastante próximo do confronto que Haddad diz querer superar.
Parte dos discursos respondeu diretamente a declarações anteriores de Tarcísio de Freitas, registradas em vídeo, nas quais o governador questionou as origens políticas de Tebet e Marina Silva fora de São Paulo, afirmando que ambas “levaram cartão vermelho” em seus estados de origem e que “não serão eleitas” no estado. A resposta da frente ampla foi ocupar o plenário da Alesp com um palanque nacional e transformar o ataque de Tarcísio em combustível para a mobilização. Se a estratégia de confronto direto vai além do evento de lançamento e se traduz em votos no interior paulista é a pergunta que 2026 vai responder.
PSB confirma Márcio França vice de Haddad em ato com Simone Tebet e “cadeirada” de Datena
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