Flávio Bolsonaro zomba e aposta em blindagem de Nunes Marques, no TSE, com novo vídeo de IA com o pai Jair

Flávio Bolsonaro zomba e aposta em blindagem de Nunes Marques, no TSE, com novo vídeo de IA com o pai Jair
- Flávio, Carlos e Jair Renan em ato de SC, que exibiu novo vídeo de IA com Bolsonaro (Vitor Salles / Youtube)

O Partido Liberal (PL) exibiu, neste sábado (1º), um vídeo com voz e imagens atribuídas ao ex-presidente Jair Bolsonaro durante a convenção estadual realizada em São José, na Grande Florianópolis, que confirmou a candidatura do governador Jorginho Mello à reeleição.
O material foi apresentado na presença de Flávio Bolsonaro, candidato do partido à Presidência, uma semana depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), questionar o uso de vídeo gerado por inteligência artificial em outro evento da sigla e alertar sobre a possibilidade de reversão da prisão domiciliar do ex-presidente. Não há confirmação oficial sobre a autenticidade do áudio nem se a voz foi produzida por IA.
PL reincide no uso de voz de Bolsonaro em convenção
A convenção do PL em São José reuniu lideranças do partido para oficializar a candidatura de Jorginho Mello ao governo catarinense e confirmar Carlos Bolsonaro e Carol De Toni como candidatos ao Senado. Antes da entrada de Flávio Bolsonaro no palco, os telões exibiram um vídeo que mesclou imagens genéricas de trabalhadores brasileiros com fotos de Jair Bolsonaro ao lado dos filhos, uma imagem do ex-presidente com as mãos em oração e outra dele abraçado a Flávio.
A narração, em primeira pessoa, incluiu frases como “o meu sonho é o sonho de vocês” e “nós revolucionaremos o Brasil”. Em um dos trechos, após imagens do atentado à faca de 2018, a voz dizia: “No momento mais difícil da minha vida, eu só pedia que Deus não deixasse órfã a minha filha de sete anos.”
Não há confirmação se o áudio é autêntico ou se foi gerado por inteligência artificial. O advogado do PL-SC, Luiz Magno, alegou que o vídeo reutiliza um pronunciamento antigo do ex-presidente, com trechos semelhantes a um discurso de 2019. A organização do evento e a assessoria da campanha de Flávio não confirmaram se a voz é original, simulada ou produzida por IA.
Essa ambiguidade não é acidental: ela permite ao PL explorar a imagem de Bolsonaro em plena campanha enquanto tenta escapar de sanções diretas. Flávio Bolsonaro, ao conduzir o evento sem qualquer constrangimento público diante do material exibido, sinaliza que aposta na blindagem de Kássio Nunes Marques, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para atravessar sem danos a legislação eleitoral que, em tese, poderia levá-lo à inelegibilidade.
O histórico das advertências de Moraes
O episódio em Santa Catarina ocorreu exatamente uma semana após a convenção nacional do PL, realizada em São Paulo no dia 25 de maio, na qual um vídeo que se apresentava explicitamente como gerado por inteligência artificial simulou um pronunciamento de Jair Bolsonaro durante o lançamento da candidatura presidencial de Flávio. O ministro Alexandre de Moraes pediu explicações e foi categórico: a eventual concordância do ex-presidente com a divulgação de material “contendo sua imagem e declarações ostensivamente político-eleitorais” constituiria, nas suas palavras, “nova e grave transgressão à decisão judicial, passível de reversão da prisão domiciliar humanitária para o regime fechado.”
A resposta da defesa de Bolsonaro foi rápida e padronizada: o ex-presidente não tinha conhecimento prévio nem autorizou o uso de sua imagem e voz no vídeo anterior. Flávio Bolsonaro reforçou a versão, afirmando publicamente que o pai não tinha “a menor ideia de que ia passar um vídeo de IA.” A fórmula cria um escudo jurídico conveniente: Bolsonaro se beneficia da exposição eleitoral sem assumir a responsabilidade pelo material. Com o novo vídeo exibido em São José, o padrão se repete antes mesmo de qualquer resolução sobre o episódio anterior, o que reforça a leitura de que se trata de uma estratégia deliberada, não de um equívoco isolado.
Reações e implicações políticas
Os discursos proferidos na convenção catarinense deixaram pouco espaço para interpretações moderadas. Flávio Bolsonaro atacou diretamente o STF, afirmando que “um único ministro do Supremo, em uma canetada, pode liberar as drogas, pode liberar o aborto, pode interferir numa grande obra aqui em Santa Catarina, pode fazer o que quiser, pode até condenar inocente.” Em seguida, prometeu atuar pela “libertação” do ex-presidente e dos condenados pelos atos de 8 de janeiro. Carlos Bolsonaro, com a candidatura ao Senado por Santa Catarina oficializada no mesmo evento, foi ainda mais direto ao declarar: “Eu sou Jair Bolsonaro. Corre nessas veias aqui o sangue de Jair Bolsonaro.” Prometeu lutar pelos presos do 8 de janeiro e reforçou a narrativa de perseguição política que mobiliza a base bolsonarista.
A reincidência no uso de material com a voz de Bolsonaro, mesmo após a advertência explícita de Moraes, não pode ser lida como descuido. Santa Catarina é um dos principais redutos do bolsonarismo e estado estratégico para a campanha presidencial de Flávio, o que torna o evento ainda mais carregado politicamente. O desafio implícito às decisões judiciais, combinado com os ataques ao STF nos discursos, compõe um quadro de tensão deliberada com o Judiciário. A questão que fica em aberto, e que depende de apuração, é se o STF e o ministro Moraes reagirão ao novo episódio com a mesma energia com que responderam ao vídeo de IA da semana anterior, ou se o silêncio institucional acabará por validar, na prática, a estratégia do PL.

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