TV Fórum: Trabalho de base no território é o que vai decidir essa eleição, diz João Paulo Rodrigues, do MST

TV Fórum: Trabalho de base no território é o que vai decidir essa eleição, diz João Paulo Rodrigues, do MST
- João Paulo Rodrigues, dirigente do MST. Foto: Divulgação/MST

No Fórum Onze e Meia desta terça-feira (4), o sociólogo e dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, analisou o cenário eleitoral para outubro, as discussões dentro da esquerda sobre quem será o sucessor do presidente Lula (PT) e as articulações do movimento para se defender de ataques e fake news. 
Rodrigues pontuou que essa será uma eleição muito difícil e discordou de setores da esquerda que afirmam que há chances de Lula ganhar no primeiro turno. “Ontem eu vi alguns dos nossos sabidos dizendo que nós vamos ganhar no primeiro turno. Eu falei, ‘opa, calma, não entendeu nada da luta de classe brasileira’. Não podemos ter esse salto alto de primeiro turno, isso nunca aconteceu na nossa história recente. Não é razoável que a esquerda perca as eleições da América Latina e o Brasil ganhe no primeiro turno. A conta não fecha”, argumentou o dirigente do MST.
O militante ainda destacou que o que está em jogo no Brasil não é somente a eleição brasileira, mas a situação da América Latina e do mundo e, por isso, essa eleição deverá ser disputada no território. 
“É muito difícil a gente ganhar nível nacional fazendo grandes campanhas com influência, com grande debate a partir de Brasília e a partir do Congresso Nacional. Quem vai decidir essa eleição é o famoso trabalho de base no território. O que eu estou chamando de território? A periferia do Brasil, onde estão as mulheres, que recuou no voto progressista. A juventude, que recuou no voto progressista. Parte da nossa turma, em especial da agricultura familiar do Centro-Sul, que recuou no voto progressista. E todas essas que estou mencionando foram contempladas com política pública, por isso que o território passa a ser um local estratégico na disputa”, afirma Rodrigues.
Para ele, além da esquerda organizar grandes propagandistas e pessoas responsáveis pelo marketing, também é preciso colocar centenas de militantes para disputar “município por município com planejamento e organização”. “Porque lá está a extrema direita, lá está o bolsonarismo, lá estão os setores que vão nos enfrentar do porta a porta”, completou o militante. 
“Eu estou animado, mas me preparando para uma batalha campal significativa nos territórios onde nós temos a presença dos partidos, do movimento popular e do movimento sindical”, finalizou Rodrigues.
A sucessão de Lula
O dirigente do MST também falou sobre a construção de uma nova liderança de esquerda para herdar o legado de Lula. Para ele, não há hoje uma figura capaz de ocupar esse lugar e esse processo será muito difícil. Rodrigues ainda afirma que discorda dos companheiros de luta que estão tentando encontrar possíveis “herdeiros de Lula”.
“Isso não existe. Na nossa terminologia da esquerda, não é assim que se constitui a representação de novas lideranças”, diz. 
Ele pontua algumas questões que baseiam essa sua visão. A primeira é em relação à postura do próprio presidente. “O Lula sempre foi muito cuidadoso em não querer indicar qualquer um para ser seu sucessor, tanto que ele está há 50 anos na sua vida política e não tem sucessor natural. Isso é da natureza do próprio Lula”, diz.
A segunda questão se refere ao processo de construção de lideranças políticas. Rodrigues argumenta que essas figuras se constituem a partir de processos “muito bem constituídos na luta política, que é uma combinação de luta sendo lideranças, como dirigente de processo coletivo, ou até mesmo como fruto de grandes elaboradores teóricos que ajudaram a pensar o país em todas as suas dimensões”, argumenta. “E esta figura não está colocada no dia de hoje.”
Rodrigues reconhece que há lideranças fortes da esquerda hoje no país, mas “daí, para ser sucessor de um processo coletivo de 50 anos, é muito difícil, é muito complicado”.
“Por isso que eu sugiro que ninguém dos nossos quadros políticos queira já se propagandear como próxima liderança do futuro. A liderança se constitui em lutas políticas”, afirma o militante.
Nesse sentido, Rodrigues cita uma conversa que teve recentemente com Lula em que declarou para o presidente que ele não deve se preocupar, durante seu quarto mandato, em deixar um legado de seus últimos 50 anos de luta, pois isso ele já fez. Nos próximos quatro anos, Lula deve focar em projetar o futuro do país, de acordo com o dirigente. 
“Nós vamos estar com um presidente que vai ter que pensar o futuro a partir do papel da esquerda brasileira, de um novo projeto para o Brasil e, ao mesmo tempo, enfrentar as contradições que virão para o Brasil com muita força”, diz Rodrigues. 
O militante cita a ofensiva imperialista dos Estados Unidos, o avanço da   inteligência artificial, o debate sobre Segurança Pública dentro da esquerda, o tema sobre terras raras e a redução da desigualdade racial. Rodrigues pontua que apesar dos avanços históricos dos governos Lula e Dilma nesse setor, o país ainda vive com um nível de desigualdade muito grande. 
“Então, nesse sentido, eu acho que nós vamos ter cinco anos para projetar grandes e novas lideranças que pensarão o país e, ao mesmo tempo, recolocarão a esquerda numa nova dimensão no período depois de 2030. Mas, até lá, nós temos algumas tarefas. A primeira é eleger o presidente Lula e uma grande bancada. A segunda, reforçar o papel da esquerda brasileira. E, por fim, pensar o país numa perspectiva de esquerda socialista e, ao mesmo tempo, que queira fazer mudanças para o povo brasileiro”, afirma Rodrigues. 
Confira a entrevista completa do dirigente do MST João Paulo Rodrigues

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