Operação da PF mira ex-governador de MT por desvio milionário via fundos do Banco Master

Operação da PF mira ex-governador de MT por desvio milionário via fundos do Banco Master
- Mauro Mendes - Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta quinta-feira (6), a Operação Heritage, cumprindo 25 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará.
A ação investiga o suposto desvio de R$ 308,1 milhões de um acordo de restituição tributária, firmado em 2024, entre o governo do Mato Grosso e a empresa de telefonia Oi, com recursos que teriam sido direcionados, por meio de fundos de investimento administrados pelo Banco Master, a pessoas do entorno do ex-governador Mauro Mendes (União Brasil).
Entre os alvos estão, ainda, o deputado federal Fábio Garcia (União), o desembargador Ricardo Gomes de Almeida e o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça Ulisses Rabaneda.
Desde 2009, a Oi cobrava do governo de Mato Grosso a restituição de valores referentes a uma cobrança indevida de ICMS. O acerto resultou no pagamento destes R$ 308,1 milhões pelo estado, recursos que, segundo a investigação, nunca chegaram integralmente ao destino legítimo.
Mauro Mendes, que renunciou ao governo para concorrer ao Senado nas eleições de outubro, é o principal alvo da operação. Ao lado dele, a PF mirou o deputado federal Fábio Garcia, ex-chefe da Casa Civil do governo Mendes, o desembargador Ricardo Gomes de Almeida, do Tribunal de Justiça do Mato Grosso, e o conselheiro do CNJ Ulisses Rabaneda.
As ordens judiciais foram expedidas por Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a partir de representações encaminhadas pelo ex-governador Pedro Taques (PSB), adversário de Mendes na disputa ao Senado.
Esquema de “engenharia financeira”
A investigação descreve um mecanismo elaborado para afastar os recursos públicos de seu destino formal. Após o fechamento do acordo com a Oi, os R$ 308 milhões foram convertidos em direitos creditórios e divididos, igualmente, entre dois fundos de investimento, o Royal Capital e o Lotte Word, ambos administrados e custodiados pelo Banco Master.
A partir daí, segundo os investigadores, o fundo Lotte Word passou a adquirir participações em outros fundos, entre eles o Golden Bird e o Coliseu, que pertenceriam a pessoas ligadas ao ex-governador.
Esse encadeamento de estruturas financeiras é o que a PF classifica como sistema de “fundos em cascata”: cada camada adicional dificulta rastrear a origem e o destino final do dinheiro. Os investigadores apontam indícios de que o objetivo era ocultar a movimentação e beneficiar destinatários específicos.
Entre os beneficiários finais apontados na investigação estão empresas de Luis Antonio Mendes, filho do ex-governador, do deputado Fábio Garcia, de Fernando Robério Garcia, pai de Fábio Garcia, e de outros aliados de Mauro Mendes.
O acordo com a Oi foi conduzido pelo então advogado Ricardo Almeida, que também teria tido participação nos fundos que receberam os direitos creditórios. Em novembro de 2025, Almeida foi nomeado desembargador por escolha do próprio Mauro Mendes.
Os crimes investigados incluem organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada.
Reações e próximos passos
As medidas cautelares autorizadas pelo ministro Flávio Dino vão além das buscas: o STF também determinou o bloqueio e a indisponibilidade de bens de até R$ 316 milhões, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.
Mauro Mendes e o deputado Fábio Garcia ainda não se manifestaram. A Oi e o Banco Master também não fizeram comentários.
O desembargador Ricardo Almeida afirmou que a apuração se refere à sua atuação como advogado, antes de assumir o cargo na magistratura, e que não foi alvo de busca e apreensão, mas de retenção de passaporte.
“Atuei de forma técnica, regular e dentro das prerrogativas asseguradas à advocacia”, declarou, em entrevista ao G1.
A defesa do conselheiro do CNJ Ulisses Rabaneda, de acordo com o Estadão e o G1, afirmou que os fatos investigados decorrem, exclusivamente, de sua atuação como advogado em período anterior ao ingresso no conselho, quando teria sido contratado para prestar serviços jurídicos nas tratativas que resultaram no acordo envolvendo créditos da Oi perante o estado.
A Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso informou que “confia nas investigações da Polícia Federal e irá contribuir com tudo que for requerido. Aguarda com naturalidade o desdobramento da investigação, pois acredita que o caso será totalmente esclarecido”.

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