Frente evangélica pede que EUA respeitem soberania eleitoral do Brasil

Frente evangélica pede que EUA respeitem soberania eleitoral do Brasil
- Nilza Valeria, da Frente Evangélica pelo Estado de Direito (Instagram)

Representantes da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito estiveram em Washington para defender que as eleições brasileiras de 2026 sejam conduzidas sem pressões ou interferências externas. Em carta entregue ao Congresso dos Estados Unidos, o movimento afirma que cabe exclusivamente aos brasileiros decidir os rumos políticos do país.
O documento foi encaminhado, na segunda-feira (3), aos gabinetes dos senadores Raphael Warnock, da Geórgia, e Adam Schiff, da Califórnia, e da deputada Hillary Scholten, de Michigan.
A escolha dos parlamentares também está relacionada às suas trajetórias religiosas. Warnock é pastor titular da histórica Ebenezer Baptist Church, em Atlanta, igreja que teve entre seus líderes Martin Luther King Jr. Schiff é judeu e presidiu o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes. Scholten, por sua vez, já atuou como diaconisa na LaGrave Avenue Christian Reformed Church, em Grand Rapids.
Para a jornalista Nilza Valeria, coordenadora nacional da Frente, a iniciativa está diretamente ligada à história do movimento, criado em 2016 para atuar em defesa da democracia e dos direitos. “A atuação da Frente, desde 2016, é a defesa total da democracia e dos direitos legais. Não aceitamos interferência no processo eleitoral, pois somos um país soberano. A soberania faz parte da democracia, então, quando um líder de um país ousa nos ameaçar, reagimos com articulação”, afirma.
Segundo Nilza, a presença em Washington também procura aproximar a sociedade civil brasileira de setores da política norte-americana que conhecem pouco a realidade do país. “O resultado de nossa ação foram parlamentares estadunidenses, que não tinham conhecimento real sobre o Brasil, votando a favor do Brasil na questão das tarifas, por exemplo. A nossa fé nos move na construção de um Brasil forte”, acrescenta.
Comércio e sistema eleitoral
A carta concentra-se em três questões consideradas importantes para o período eleitoral. Uma delas é a política tarifária adotada pelos Estados Unidos em relação aos produtos brasileiros. Para a Frente, decisões comerciais entre os dois países devem obedecer a critérios econômicos e técnicos, sem serem condicionadas por disputas políticas internas do Brasil.
O movimento também manifesta preocupação com notícias sobre uma possível viagem de funcionários norte-americanos ao país antes das eleições. Entre os assuntos que seriam tratados estaria a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
A Frente solicita que o Congresso dos Estados Unidos desencoraje qualquer iniciativa que possa ser compreendida como tentativa de influenciar o pleito ou deslegitimar as instituições responsáveis por sua realização. “As eleições no Brasil são uma responsabilidade exclusiva dos brasileiros, conduzidas e julgadas por suas próprias instituições”, sustenta o documento.
O terceiro ponto diz respeito à participação de lideranças evangélicas no processo político. A carta afirma que alguns líderes religiosos têm usado púlpitos e plataformas para promover a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, embora não representem a diversidade política existente entre os evangélicos brasileiros.
Para o movimento, orientar fiéis a apoiar determinada candidatura com base na autoridade religiosa significa instrumentalizar a fé em favor de interesses partidários.
Articulação com a Igreja de Luther King
A agenda em Washington faz parte de uma articulação internacional iniciada há aproximadamente dois anos. A informação é de Lucas de Souza Martins, consultor internacional da Frente, historiador, especialista em História Americana e Estudos Globais e professor e pesquisador da Temple University.
“Esta é uma articulação programática que já tem cerca de dois anos, uma aproximação que nasceu da nossa fé evangélica e da luta por democracia, em diálogo com parlamentares americanos que também têm uma trajetória de fé ativa e valores em comum conosco. Essa carta é mais um capítulo de uma série de conexões contínuas que mantemos com alguns desses gabinetes”, explica Martins.
De acordo com a carta, desde 2022 a Frente procura aproximar lideranças brasileiras de organizações e parceiros nos Estados Unidos. Uma dessas experiências foi a colaboração com a equipe de Missões Globais da Ebenezer Baptist Church durante uma viagem missionária ao Rio de Janeiro.
O documento apresenta o movimento como parte de uma corrente do evangelicalismo brasileiro inspirada nos ensinamentos de Martin Luther King Jr. e comprometida com a dignidade humana, os direitos sociais e a democracia.
]Evangélicos não formam um bloco político único
Outro objetivo da carta é mostrar que os evangélicos brasileiros não constituem um grupo politicamente homogêneo. Embora parte do segmento seja frequentemente associada a movimentos e pautas antidemocráticas, a Frente afirma representar uma expressão evangélica comprometida com a justiça social, os direitos humanos e a preservação das instituições.
O movimento propõe a criação de um canal permanente de diálogo com os parlamentares norte-americanos. A intenção é compartilhar análises da sociedade civil brasileira durante o período eleitoral e construir iniciativas voltadas à defesa da democracia.
Ao reconhecer a relação histórica entre Brasil e Estados Unidos, a carta pede que o Congresso norte-americano oriente o Executivo do país a evitar medidas que possam ser interpretadas como interferência nas eleições brasileiras. Para a Frente, preservar essa relação também significa respeitar a soberania e as decisões democráticas de cada nação.
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