Antes de aparecer nos relatórios da Polícia Federal, Rodrigo Bacellar ocupava uma posição estratégica no projeto eleitoral do bolsonarismo no Rio de Janeiro. Ex-presidente da Assembleia Legislativa do estado (ALERJ), ele chegou a ser apresentado como possível candidato ao Palácio Guanabara e mantinha uma relação próxima com o grupo político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Essa proximidade ganhou outro peso depois que Bacellar foi investigado e indiciado pela PF. Segundo os investigadores, o então deputado teria participado de um esquema de vazamento de informações sigilosas para beneficiar pessoas associadas ao Comando Vermelho.
Em relatório divulgado em fevereiro de 2026, a Polícia Federal descreveu Bacellar como uma possível “liderança do núcleo político” de uma organização criminosa ligada à facção. A expressão não significa que ele tenha sido apontado como comandante operacional do Comando Vermelho, mas que, na avaliação dos investigadores, teria exercido influência política em favor de integrantes do grupo criminoso.
A defesa de Bacellar rejeita as acusações e afirma que não existem provas de sua participação nos crimes investigados.
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Bacellar era uma aposta eleitoral do bolsonarismo
A relação entre Bacellar e o grupo Bolsonaro foi construída a partir das articulações eleitorais no Rio de Janeiro.
Eleito deputado estadual em 2022 pelo PL, partido de Jair e Flávio Bolsonaro, o político posteriormente migrou para o União Brasil, mas continuou orbitando o mesmo campo conservador.
Como presidente da ALERJ, Bacellar ampliou seu poder sobre as negociações políticas do estado. Tornou-se um dos principais interlocutores do então governador Cláudio Castro e passou a ser considerado um nome competitivo para disputar o governo fluminense em 2026.
Em maio de 2025, Jair Bolsonaro chegou a anunciar que Bacellar seria o candidato apoiado por seu grupo na corrida pelo Palácio Guanabara. O entendimento previa a participação do bolsonarismo na montagem da chapa, incluindo as candidaturas ao Senado.
A aliança também aproximava Bacellar de Flávio Bolsonaro, uma das figuras responsáveis pela condução do PL no Rio de Janeiro e pela organização do campo bolsonarista no estado. Reportagens e registros públicos mostram os dois em encontros e agendas de articulação política.
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O que a Polícia Federal atribui a Bacellar
A situação de Bacellar mudou com o avanço da Operação Unha e Carne, investigação relacionada ao suposto vazamento de informações sobre ações policiais.
Segundo a PF, Bacellar teria avisado antecipadamente o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, sobre uma operação que seria deflagrada contra ele. TH foi investigado por suspeitas de ligação com integrantes do Comando Vermelho.
Os investigadores também sustentam que Bacellar teria orientado a eliminação de possíveis provas e adotado medidas para dificultar o trabalho policial. Em fevereiro de 2026, ele e outras quatro pessoas foram indiciadas por suspeitas relacionadas ao vazamento de informações e à obstrução.
Foi nesse contexto que a PF passou a classificar Bacellar como possível liderança de um núcleo político ligado à organização criminosa. A interpretação dos investigadores é que os agentes públicos teriam utilizado suas posições para proteger interesses de pessoas associadas à facção.
Essa é uma conclusão policial ainda sujeita à análise do Ministério Público e do Judiciário. Bacellar nega ter ajudado criminosos, e sua defesa classificou o indiciamento como arbitrário e sem sustentação probatória.
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Cassação ocorreu em outro processo
Paralelamente à investigação criminal, Bacellar também perdeu o mandato de deputado estadual por decisão da Justiça Eleitoral.
Em 24 de março de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu cassar seu mandato e declará-lo inelegível em um processo relacionado a abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
A decisão eleitoral, porém, não trata das suspeitas de ligação com o Comando Vermelho. São processos distintos: um envolve irregularidades eleitorais, enquanto o outro apura vazamento de informações e suposta colaboração com integrantes da facção.
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Aliança provoca desgaste para Flávio Bolsonaro
A investigação desmontou o projeto que colocava Bacellar como candidato do campo bolsonarista ao governo do Rio e abriu espaço para questionamentos sobre os critérios usados na escolha dos aliados do grupo.
Para os adversários de Flávio Bolsonaro, a proximidade expõe uma contradição entre o discurso de combate às facções e a construção de alianças com políticos posteriormente envolvidos em investigações sobre o crime organizado.
O que está sob análise, no caso de Flávio, é a responsabilidade política pelas alianças firmadas no Rio. Bacellar não era uma figura periférica: presidiu a ALERJ, participou das articulações mais importantes do estado e chegou a ser escolhido como aposta eleitoral do bolsonarismo.
A investigação transformou essa antiga proximidade em um problema político. Agora, enquanto Bacellar contesta as acusações, Flávio Bolsonaro precisa lidar com os questionamentos sobre como um aliado que ocupava posição central em seu campo eleitoral acabou apontado pela PF como parte de um suposto braço político ligado ao Comando Vermelho.
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