O que parecia ser apenas mais uma operação contra um blogueiro no Maranhão é, na verdade, apenas uma pequena peça de uma investigação muito maior conduzida pela Polícia Federal e que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Ao levantar o sigilo de parte do caso nesta sexta-feira (14), diante da polêmica que tomou conta da mídia em torno da operação, o ministro Flávio Dino expôs um enredo que começa com um assassinato em 2022 e chega a suspeitas de corrupção, dinheiro vivo, manipulação de testemunhas, vazamento de informações sigilosas e possível interferência em investigações que passaram pela Justiça do Maranhão e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
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No centro da investigação aparece a família Brandão, grupo político e familiar comandado pelo governador do Maranhão, Carlos Brandão (PSB). O governador chegou ao Palácio dos Leões justamente como herdeiro político de Flávio Dino: foi seu vice-governador por dois mandatos e assumiu o governo em abril de 2022, quando Dino deixou o cargo para disputar o Senado. Carlos Brandão foi reeleito ainda naquele ano.
Na investigação analisada por Dino, aparecem nomes ligados diretamente ao núcleo familiar do governador, entre eles seu irmão, Marcus Brandão, e seu sobrinho, Daniel Itapary Brandão. Daniel é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão e aparece nos autos como uma das figuras cuja atuação é investigada no episódio que antecedeu o assassinato de João Bosco. A família Brandão, portanto, não aparece no caso apenas como um sobrenome da política maranhense: integrantes do núcleo familiar estão diretamente mencionados nos elementos que levaram o STF a aprofundar a apuração.
A trajetória política de Carlos Brandão ajuda a entender o tamanho da disputa. Ele construiu sua carreira dentro de diferentes grupos que comandaram o Maranhão nas últimas décadas, passando por governos ligados ao grupo Sarney antes de se tornar vice de Flávio Dino. Foi secretário-chefe da Casa Civil no governo José Reinaldo Tavares e, em 2014, foi escolhido por Dino para compor a chapa que derrotou o grupo político de Roseana Sarney.
Durante oito anos, Brandão foi uma das principais peças da coalizão liderada por Dino. O rompimento entre os dois grupos, porém, se aprofundou depois que Brandão assumiu definitivamente o governo. Hoje, a disputa política no Maranhão coloca de um lado o grupo de Brandão e, de outro, aliados de Dino e do vice-governador Felipe Camarão (PT).
É nesse ambiente de disputa política que a investigação precisa ser compreendida.
O documento não apresenta uma condenação contra Carlos Brandão ou contra os demais integrantes de sua família citados no processo. O que existe são depoimentos, dados obtidos pela PF e outras informações que sustentam hipóteses investigativas. O próprio Dino deixa claro que as medidas cautelares não representam julgamento definitivo sobre crimes ou autoria.
Mas o material é suficientemente grave para revelar uma história muito diferente daquela que ganhou as manchetes inicialmente.
O assassinato que a investigação original não contou por inteiro
Em 19 de agosto de 2022, Gilbson Soares Cutrim Júnior, condenado pelo assassinato de João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, teria participado de uma reunião em São Luís que, segundo a versão apresentada agora pela investigação federal, terminou em morte.
Na mesa estavam Gilbson, João Bosco, Werberth Macedo Castro e Daniel Itapary Brandão.
Segundo o relato incorporado à decisão de Dino, Daniel Brandão teria sido quem convocou Gilbson para o encontro. A discussão girava em torno da divisão de valores provenientes de pagamentos que teriam sido viabilizados pelo grupo.
A tensão aumentou. Daniel permaneceu no local durante parte da discussão, mas deixou o ambiente pouco antes dos disparos efetuados por Gilbson Júnior, que atingiram João Bosco.
O detalhe mais importante não está apenas no que teria acontecido naquela noite. Está no que não aparece na investigação original da Polícia Civil do Maranhão.
Segundo Dino, os fatos relatados agora não constam dos documentos da investigação estadual, que tratou o episódio como uma discussão envolvendo divisão de valores que acabou em homicídio.
É uma diferença que muda completamente a dimensão do caso. De um lado, um homicídio decorrente de uma discussão. De outro, a hipótese investigativa de que o assassinato ocorreu em meio a uma disputa por dinheiro dentro de uma estrutura que teria envolvimento com pagamentos e vantagens indevidas.
E onde foram parar as imagens?
Há outro detalhe que chama atenção na decisão. As câmeras de segurança do estabelecimento onde ocorreu a reunião poderiam ajudar a esclarecer o que aconteceu naquela noite. A Justiça determinou que as imagens fossem anexadas ao processo. Isso ocorreu duas vezes. Mas as imagens nunca foram efetivamente incorporadas aos autos.
Segundo a documentação analisada por Dino, houve uma espécie de jogo de empurra: informações divergentes sobre se as mídias estavam na delegacia ou no Instituto de Criminalística. Para uma investigação de homicídio, a ausência das imagens é um detalhe nada trivial.
Mais tarde, Anna Priscielly Sousa Pereira Néri, filha da vítima, apontou formalmente o nome de Daniel Brandão e pediu novas providências. Segundo a decisão, mesmo depois disso, Daniel não teria sido ouvido pela autoridade policial.
A pergunta que a investigação federal agora tenta responder é simples: por que alguém apontado como participante da reunião que antecedeu o assassinato não foi ouvido na investigação original?
R$ 160 mil em dinheiro vivo
A investigação dá então outro salto. Em depoimento à Polícia Federal, Gilbson César Soares Cutrim, pai do condenado, afirmou ter recebido R$ 160 mil em espécie. Segundo ele, o dinheiro teria vindo de Marcus Brandão, irmão do governador do Maranhão, Carlos Brandão. O valor teria sido entregue em três parcelas: R$ 80 mil, R$ 50 mil e R$ 30 mil.
As entregas, segundo o depoimento, teriam ocorrido em um imóvel vinculado a Raimundo Soares Cutrim, no bairro Vinhais, em São Luís.
O dinheiro vivo é apenas uma parte da história. A investigação também reúne relatos de pagamentos posteriores à prisão de Gilbson Júnior. Segundo áudios captados por sua esposa, Lorena Santos, os valores teriam sido entregues por Raimundo Cutrim e por pessoas ligadas à estrutura da família Brandão.
Raimundo Cutrim, o homem no meio do caminho
É nesse ponto que surge um personagem central da investigação: Raimundo Soares Cutrim. Ex-delegado da Polícia Civil, Cutrim ocupava, desde janeiro de 2025, o cargo de secretário de Estado de Assuntos Legislativos do Maranhão.
Segundo a PF, ele teria exercido a função de interlocutor da família Brandão e operacionalizado pagamentos em dinheiro para Gilbson César e outros integrantes de sua família.
Mas o que teria acontecido em 2026 é ainda mais grave. Segundo a investigação, Cutrim teria deixado de ser apenas um intermediário financeiro para atuar naquilo que a PF considera uma tentativa de interferir na própria investigação.
A tentativa de mudar a história
Em junho deste ano, Gilbson César apresentou à PF informações sobre encontros reservados que teria mantido com Raimundo Cutrim.
Segundo seu relato, os encontros aconteceram cerca de um mês depois de seu depoimento à Polícia Federal e teriam sido solicitados por integrantes da família Brandão, entre eles Marcus e Carlos, com o objetivo de orientar Gilbson e sua esposa a alterarem a versão dos fatos apresentada aos investigadores.
Não se trataria, portanto, apenas de convencer alguém a ficar em silêncio. A suspeita é mais sofisticada: construir uma nova versão dos acontecimentos.
Segundo o relato, Lorena deveria apresentar uma narrativa de “estado de necessidade”, afirmando que passava por dificuldades financeiras e não recebia auxílio. É justamente esse tipo de conduta que fez a investigação mudar de patamar.
A suspeita deixa de ser apenas sobre crimes que teriam ocorrido no passado e passa a envolver a possibilidade de que pessoas ligadas ao caso estivessem tentando interferir na produção de provas enquanto a investigação ainda estava em andamento.
Os pagamentos continuaram
Gilbson também relatou ter recebido dinheiro de Raimundo Cutrim em pelo menos três ocasiões. Os valores mencionados foram de R$ 10 mil, R$ 12 mil e R$ 4 mil, este último para custear passagens aéreas de Lorena e das filhas.
Para a PF, a sequência temporal é relevante. Os pagamentos teriam ocorrido quando a investigação federal já estava em andamento.
É por isso que Dino fala em possível continuidade da atuação da estrutura investigada, inclusive com utilização de intermediários para proteger pessoas que estariam no núcleo decisório.
O ministro descreve justamente esse modelo: pessoas encarregadas de executar tarefas específicas, mantendo os integrantes mais importantes afastados da exposição direta.
Dino manda prender secretário
A gravidade atribuída aos fatos levou Dino a determinar a prisão preventiva de Raimundo Cutrim. Como ele tem mais de 70 anos, a prisão foi convertida em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica.
O ministro determinou ainda seu afastamento imediato do cargo de secretário de Estado, proibiu entrevistas e acesso às redes sociais e restringiu seus contatos a familiares próximos e advogados previamente autorizados.
O objetivo, segundo a decisão, é impedir que Cutrim continue atuando para coagir, cooptar ou ameaçar testemunhas e colaboradores. Dino também determinou a quebra do sigilo telemático de Cutrim e de outros envolvidos.
E foi além: ordenou que a Polícia Federal ouça as delegadas que participaram da investigação do homicídio para esclarecer acusações de que a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão teria sido utilizada para embaraçar a apuração.
A suspeita chega à Polícia Federal
O caso ganha outra dimensão quando surge o nome de Edvar Rodrigues dos Santos, agente da própria Polícia Federal. Segundo a investigação, ele teria mantido contatos com pessoas ligadas ao caso e demonstrado conhecimento de informações sigilosas às quais não deveria ter acesso.
A PF identificou comunicações e indícios de que Edvar teria conhecimento de diligências que não estavam sob sua responsabilidade funcional. O episódio levou Dino a determinar medidas contra o agente, incluindo afastamento cautelar e busca e apreensão.
É um dos aspectos mais delicados da investigação: a suspeita de que a estrutura para descobrir o que a PF estava investigando poderia ter chegado ao interior da própria instituição responsável pela apuração.
O caminho até o STJ
A história, entretanto, não termina na Polícia Federal. Os documentos analisados por Dino apontam ainda para uma frente envolvendo o senador Weverton Rocha e o ministro do STJ, Humberto Martins.
O celular de Weverton foi apreendido em outra investigação, a Operação Sem Desconto. Os dados extraídos do aparelho revelaram uma série de contatos entre o senador e Humberto Martins. Foram identificadas mensagens, ligações, áudios e encontros entre os dois ao longo de 2023, 2024 e 2025.
Um episódio chamou especialmente a atenção dos investigadores. Em 2 de junho de 2025, Weverton e Humberto tiveram contato. Na mesma data, o ministro do STJ determinou a transferência de Gilbson Cutrim Júnior para uma penitenciária federal em Brasília.
A investigação apura se houve tentativa de influenciar uma sindicância no STJ e interferir no andamento da apuração.
Não há, na decisão, uma conclusão definitiva de que Weverton tenha determinado qualquer decisão judicial ou de que Humberto Martins tenha cometido crime. O que existe são elementos que levaram a PF a investigar a relação e o possível propósito desses contatos.
Da Justiça estadual ao Supremo
É justamente a soma dessas histórias que explica a presença de Flávio Dino no caso. O ministro afirma que os elementos reunidos indicam uma possível atuação organizada para obstruir investigações em diferentes instâncias. Primeiro, a Justiça do Maranhão. Depois, o STJ. E, agora, o STF.
O caso que começou com um assassinato ocorrido em 2022 passou a envolver suspeitas sobre a condução da investigação policial, dinheiro vivo, agentes públicos, testemunhas, policiais federais, um senador e um ministro de tribunal superior. E, segundo a PF, alguns dos movimentos mais recentes ocorreram em 2026, quando a investigação já estava avançada.
O que a operação contra o blogueiro não mostrou
É nesse ponto que a decisão de Dino muda a compreensão sobre a polêmica que dominou o noticiário. A discussão pública se concentrou na operação contra um blogueiro. Mas o documento do STF mostra que a operação está inserida em uma investigação muito mais ampla.
O blogueiro não é o centro da história. O centro é uma investigação que tenta descobrir se uma estrutura política e empresarial teria utilizado dinheiro, intermediários, influência institucional e acesso privilegiado a informações para proteger seus integrantes e dificultar a atuação das autoridades.
E há um elemento especialmente perturbador na cronologia. A suposta tentativa de interferência não teria terminado depois do assassinato. Nem depois da prisão do condenado. Nem depois da abertura da investigação federal. Segundo os elementos reunidos pela PF, ela teria continuado enquanto a própria investigação estava em curso.
O que Dino está investigando
A decisão não apresenta uma sentença. Apresenta uma fotografia de uma investigação ainda em andamento.
A própria decisão determina novas diligências e oitivas. Ou seja: o quebra-cabeça ainda está sendo montado.
Mas algumas peças já estão sobre a mesa.
Um assassinato.
R$ 160 mil em dinheiro vivo.
Um secretário de Estado preso em casa.
Testemunhas que dizem ter sido pressionadas a mudar suas versões.
Um agente da PF sob investigação por suposto acesso indevido a informações sigilosas.
E contatos entre um senador e um ministro do STJ que passaram a ser examinados pelos investigadores.
O que Flávio Dino fez ao levantar o sigilo foi, portanto, mais do que expor os bastidores de uma operação. Foi abrir uma janela para uma investigação que pode revelar muito mais sobre as relações de poder no Maranhão do que a operação contra o blogueiro fazia parecer.
E, ao contrário do que a polêmica inicial sugeria, a história não começa no blogueiro. Começa quatro anos antes, com um homem morto e uma investigação que agora o Supremo tenta descobrir se contou — ou não — toda a história.
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