Especialistas em relações internacionais, geopolítica e tecnologia de informação alertam para o risco de ações cibernéticas dos Estados Unidos e de manipulação via big techs, com o objetivo de influenciar as eleições gerais de outubro deste ano no Brasil.
A avaliação, feita por analistas consultados pela Agência Brasil, ganha peso diante de um memorando assinado por Donald Trump, no dia 12 de agosto, que autoriza operações de “vigilância cibernética” e “efeitos cibernéticos” com participação de empresas privadas de tecnologia.
O documento é descrito como inédito e levanta preocupações concretas sobre a soberania digital brasileira em ano eleitoral.
Entre os analistas consultados, o pesquisador Reynaldo Aragon, do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação; e o professor de história e especialista em geopolítica Euclides Vasconcelos.
A escalada de pressões do governo Trump contra o Brasil nos últimos meses, que inclui o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros e o cancelamento de vistos de autoridades nacionais, é lida pelos analistas como sinal de que novas ações, especialmente no campo cibernético, devem ser adotadas.
Para Euclides Vasconcelos, “sem dúvida nenhuma” é possível esperar que os EUA tentem interferir no processo eleitoral brasileiro, inclusive buscando descredibilizar o sistema de votação.
Memorando de Trump e potencial de espionagem
O instrumento mais recente e preocupante nesse cenário é um memorando assinado por Trump. Segundo Reynaldo Aragon, o documento tem caráter inédito ao autorizar formalmente o uso de big techs em operações de “vigilância cibernética” e “efeitos cibernéticos”.
“Os efeitos desse memorando são assustadores. A gente está falando de espionagem e ação de hackeamento de altíssimo nível e muito profundo. Eles podem entrar literalmente no perfil de qualquer pessoa para fazer relatórios e dossiês para favorecer ou prejudicar determinado candidato”, afirmou Aragon.
Sob o argumento de combater o crime transnacional cibernético, o memorando prevê parceria da Casa Branca com empresas privadas para ações que envolvem “acesso a tais sistemas de informação sem autorização do proprietário ou operador ou excedendo o acesso autorizado”.
O documento também autoriza a chamada Operação de Efeitos Cibernéticos, que cobre atividades em redes de telecomunicações, internet e sistemas de informação capazes de resultar em “manipulação, interrupção, negação, degradação ou destruição” de infraestruturas físicas ou virtuais.
Ações subterrâneas e o papel das big techs
Uma das características mais preocupantes das ações previstas no memorando, segundo Aragon, é justamente sua natureza encoberta. Diferentemente de pressões diplomáticas ou econômicas, as operações cibernéticas podem ser conduzidas de forma “subterrânea”, sem deixar rastros identificáveis de autoria.
“O impulsionamento de perfis nas redes sociais é só uma das ações que já estão ocorrendo, mas pode ir muito além. O risco é sistêmico e estrutural”, alertou o pesquisador.
O professor Euclides Vasconcelos reforça essa leitura ao avaliar que as big techs não são atores neutros no processo: “As big techs são muito mais que plataformas ou espaços de discussões. Elas são empresas ligadas a Estados, ligadas a governos, que têm esforços e que conseguem mobilizar, canalizar e influenciar de maneira muito direta certos recortes demográficos da população”, disse Vasconcelos.
O contexto doméstico já dá sinais da tensão em curso. Em julho, o governo brasileiro barrou o visto de dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA por suspeitas de que pretendiam questionar o sistema eleitoral do país.
Diante desse quadro, Aragon defendeu que o Brasil invista urgentemente em infraestrutura digital própria, argumentando que “todos os sistemas sensíveis do Estado brasileiro estão na mão de sistemas de empresas dos EUA”.
Eleições 2026: Especialistas alertam para risco de ação cibernética dos EUA e big techs
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