JN escala Vladimir Netto, que escreveu livro exaltando Moro, para reportagem fabricada contra Lulinha

JN escala Vladimir Netto, que escreveu livro exaltando Moro, para reportagem fabricada contra Lulinha
Vladimir Netto - Reprodução / TV Globo

O Jornal Nacional resgatou na noite desta quarta-feira (19) um personagem emblemático dos tempos da Lava Jato para apresentar uma nova ofensiva contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Coube ao jornalista Vladimir Netto, que ganhou projeção cobrindo a operação de Curitiba e escreveu um livro laudatório sobre o então juiz Sergio Moro, narrar uma reportagem que coloca o filho do presidente Lula no centro de uma negociação da qual ele não foi autor, remetente nem destinatário do documento apresentado.
LEIA TAMBÉM:
Globo inventa “venda” de cannabidiol ao governo em novo factoide sobre Lulinha; SUS não distribui medicamento
Globo faz dobradinha com Flávio Bolsonaro e arma “investigação” paralela sobre Lulinha
Advogado de Lulinha aponta “pirotecnia” e “cegueira deliberada” em dobradinha da Globo com Flávio Bolsonaro
O material encontrado pela Polícia Federal (PF) é uma minuta encaminhada pela empresária Roberta Luchsinger a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que à época era chefe de gabinete de Lula. O documento tratava de uma tentativa de viabilizar a venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
Roberta é amiga de Lulinha e sua relação com o filho do presidente está sob investigação. A PF também analisa outras mensagens em que a empresária afirma ter interlocução e autorização para atuar em nome dele, algo contestado pela defesa. Isso, entretanto, é diferente do fato específico exibido pelo JN: quem enviou a minuta a Marcola foi Roberta Luchsinger, e não Lulinha.
O negócio também não saiu do papel. Marcola admitiu ter recebido o documento, classificou o episódio como inadequado, mas sustenta que não deu prosseguimento à proposta nem promoveu qualquer favorecimento dentro do governo.
É nessa distância entre o que efetivamente foi encontrado e o personagem colocado no centro da narrativa que o JN constrói sua reportagem. E a escolha de Vladimir Netto para conduzi-la carrega um histórico que o próprio noticiário sobre a Lava Jato tornou impossível ignorar.
Vladimir Netto e a engrenagem midiática da Lava Jato
Vladimir Netto não foi apenas mais um repórter enviado a Curitiba para acompanhar a Lava Jato. Durante os anos de maior poder da força-tarefa, tornou-se um de seus jornalistas mais próximos e um dos nomes da Globo associados à cobertura que ajudou a transformar Sergio Moro e Deltan Dallagnol em heróis nacionais.
Em 2016, no auge da operação, Netto publicou Lava Jato — O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil. A Fórum já descreveu a obra como uma biografia laudatória de Moro, personagem que ocupa o centro da narrativa do livro.
https://x.com/PrettaAngela/status/1791170052038738233
A imagem de Vladimir ao lado do então juiz no lançamento da obra, sintetiza uma época em que Moro era tratado como celebridade por setores da imprensa enquanto a Lava Jato avançava sobre Lula.
O que naquele momento era apresentado ao público como uma relação tradicional entre fonte e jornalista ganhou outro significado com a divulgação das conversas da Vaza Jato.
“Fico feliz em ajudar”
Em fevereiro de 2021, a Fórum revelou que Vladimir Netto chegou a orientar Deltan Dallagnol sobre a estratégia de comunicação da força-tarefa após a condução coercitiva de Lula, em março de 2016.
As mensagens mostram que Dallagnol discutiu com o jornalista a conveniência de divulgar uma nota pública após a operação contra o petista. Netto opinou sobre o material e, depois das alterações, recebeu do então coordenador da Lava Jato um agradecimento direto.
“Obrigado Vladimir!”, escreveu Dallagnol.
“De nada! Fico feliz em ajudar. Já soltaram a nota? Ainda dá tempo de sair no JN”, respondeu Netto, segundo os diálogos posteriormente revelados.
Ou seja, a relação registrada nas mensagens não se limitava ao repórter procurar informações junto a uma fonte. O coordenador da força-tarefa submetia sua estratégia de comunicação ao jornalista, recebia sugestões e discutia com ele o momento adequado para que o conteúdo pudesse chegar ao principal telejornal da emissora.
Netto, quando as conversas vieram a público, contestou a autenticidade do material.
“Liberar Vladimir Neto pra soltar”
O nome do jornalista voltaria a surgir em novos diálogos divulgados anos depois.
Em 2023, a Fórum publicou mensagens da Operação Spoofing que mostram procuradores da Lava Jato discutindo estratégias para fazer informações chegarem à Globo e ao Jornal Nacional.
Em uma das conversas, integrantes da força-tarefa avaliavam como ampliar a repercussão de determinada informação. Dallagnol lista as possibilidades de divulgação e escreve uma frase particularmente reveladora sobre a posição ocupada pelo jornalista naquele circuito:
“Liberar Vladimir Neto pra soltar.”
O diálogo ajuda a dimensionar a proximidade entre a força-tarefa e setores da Globo durante os anos em que a Lava Jato atuou politicamente sobre o cenário nacional.
A própria Fórum já mostrou que a aproximação era mais ampla. Dallagnol buscou reuniões reservadas com executivos da Globo, discutiu formas de apoio às chamadas “10 medidas contra a corrupção” e comemorou internamente o resultado dessas articulações.
Em uma dessas conversas, ao relatar um encontro com João Roberto Marinho, Dallagnol afirmou aos colegas que havia falado sobre a “guerra de comunicação” travada pela operação e que o executivo dera apoio à campanha das 10 medidas. Em outro momento, até integrantes da assessoria demonstraram desconforto com o nível de aproximação.
O conjunto dessas revelações levou a Fórum a questionar, anos depois, quando viria à tona a “Vaza Globo” da Lava Jato, expressão usada para tratar do papel desempenhado pela emissora na construção pública da operação.
A Lava Jato que o STF desmontou
A história também ganhou outro desfecho no Judiciário.
O personagem exaltado no livro de Vladimir Netto foi posteriormente declarado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal para julgar Lula no processo do triplex do Guarujá. Por sete votos a quatro, o plenário do STF confirmou que Moro atuou com parcialidade na condução do caso.
As condenações de Lula impostas pela 13ª Vara Federal de Curitiba também foram anuladas depois que o Supremo concluiu que aquele juízo não tinha competência para julgar os processos.
Moro, que deixou a magistratura para assumir o Ministério da Justiça no governo de Jair Bolsonaro após a eleição da qual Lula foi impedido de participar, entraria posteriormente para a política partidária.
Dallagnol seguiu o mesmo caminho: deixou o Ministério Público e se elegeu deputado federal, mandato que seria posteriormente cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O “mundo dourado” da Lava Jato, ruiu. Mas parte da engrenagem midiática que ajudou a construí-lo permanece ativa.
JN reedita fórmula contra o filho de Lula
É nesse contexto que Vladimir Netto reaparece agora no Jornal Nacional para narrar um novo caso envolvendo a família do presidente.
Não há razão para impedir ou desqualificar a investigação da PF. Se houve tráfico de influência, tentativa de favorecimento ou qualquer ilícito na atuação de Roberta Luchsinger, Marcola, Lulinha ou outros envolvidos, cabe à Polícia Federal investigar e à Justiça definir responsabilidades.
Outra coisa é transformar uma investigação ainda em andamento em uma narrativa pronta.
No episódio usado pelo JN, a minuta não partiu de Lulinha. Foi enviada por Roberta a Marcola. O negócio não se concretizou. E o recebimento do documento, embora reconhecido pelo ex-chefe de gabinete, não resultou no contrato pretendido.
Há ainda um dado objetivo sobre o produto usado como pano de fundo da articulação. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) registra a decisão de não incorporar ao SUS o canabidiol 200 mg/ml avaliado para crianças e adolescentes com epilepsias refratárias, decisão formalizada pelo Ministério da Saúde em 2021.
Apesar dessas diferenças entre suspeita, tentativa de negócio e contratação efetiva, o JN escolheu colocar Lulinha no foco da reportagem.
E escolheu para contar essa história justamente Vladimir Netto, o jornalista que esteve no coração da cobertura da Lava Jato, escreveu o livro que ajudou a consolidar a imagem heroica de Sergio Moro e apareceu nos diálogos dos procuradores como interlocutor para estratégias que deveriam chegar ao Jornal Nacional.
Uma década depois, os personagens mudaram. O método, aparentemente, nem tanto.

Ver mais

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!