Alexandre Bueno Camargo está ligado a duas empresas que receberam R$ 331,9 mil da cota parlamentar de Carlos Jordy (PL-RJ). Em junho de 2025, ele integrou uma missão oficial ao Marajó que utilizou aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB). No relatório da viagem, o Senado o identificou como “assessor do deputado Carlos Jordy”. Na relação pública de funcionários do gabinete, porém, seu nome não aparece.
A divergência foi identificada em apuração do Fórum Investiga, núcleo de investigação da Revista Fórum, durante o rastreamento de despesas da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) destinadas a empresas de comunicação ligadas a Alexandre e ao ex-assessor parlamentar Bruno Lara Martins.
Nos registros da cota, Alexandre aparece ligado a fornecedores pagos pelo mandato. Na missão oficial do Congresso, surge sob outra condição: assessor de Carlos Jordy.
R$ 331,9 mil da cota de Carlos Jordy
O levantamento identificou R$ 331.900 em despesas da cota de Jordy destinadas à AB Comunicação Digital e ao Instituto Mais Cidades, duas empresas ligadas a Alexandre Bueno Camargo.
Desse total, R$ 207 mil foram identificados em pagamentos à AB Comunicação Digital e outros R$ 124,9 mil líquidos ao Instituto Mais Cidades.
As notas fiscais descrevem serviços de comunicação digital, gerenciamento de redes sociais, produção de conteúdo, captação de imagens e edição de vídeos.
Senado registrou empresário como assessor de Jordy
Nos dias 26 e 27 de junho de 2025, Alexandre participou de uma diligência oficial da Comissão de Direitos Humanos do Senado ao arquipélago do Marajó, no Pará.
A comitiva incluía Carlos Jordy, a senadora Damares Alves e os deputados Delegado Caveira e Éder Mauro, além de assessores, consultores e integrantes da Polícia Legislativa.
No relatório oficial da diligência, Alexandre aparece na seção destinada aos “Assessores da Câmara dos Deputados”.
O documento registra:
“Alexandre Bueno Camargo — assessor do deputado Carlos Jordy.”
Documento oficial da missão ao Marajó identifica Alexandre Bueno Camargo como assessor de Carlos Jordy
Ao descrever a agenda do primeiro dia, o relatório informa que a comitiva se deslocou em aeronave da FAB até Breves. A saída ocorreu às 8h, com chegada ao município às 11h.
Alexandre está listado entre os integrantes da comitiva oficial e identificado como assessor de Jordy. Na sequência, o mesmo documento registra o deslocamento do grupo em aeronave da Força Aérea.
Senado chamou de assessor; Câmara não mostra vínculo no gabinete
A Fórum confrontou a identificação feita pelo Senado com os registros funcionais publicados pela Câmara dos Deputados.
Na relação oficial de funcionários do gabinete de Carlos Jordy em 2025, Alexandre Bueno Camargo não aparece entre os secretários parlamentares ou ocupantes de cargos de natureza especial.
O Senado o registrou como assessor de Jordy. Na relação pública de funcionários do deputado na Câmara, Alexandre não aparece.
Alexandre também aparece como fotógrafo da missão
A participação do empresário na agenda aparece ainda em uma publicação do próprio Senado.
Em reportagem da Rádio Senado publicada no primeiro dia da diligência, uma das fotografias da “Missão Marajó” é creditada a Alexandre Bueno Camargo.
O crédito mostra que Alexandre produziu imagens durante a viagem. O registro não explica, porém, por que o relatório da missão o apresentou como assessor de Carlos Jordy, e não como fotógrafo, profissional de comunicação ou prestador de serviços.
Quem informou ao Senado que Alexandre era assessor?
A Fórum procurou Carlos Jordy e sua equipe em 5 de agosto de 2026 e encaminhou 14 questionamentos sobre as empresas, os serviços pagos pela cota e a participação de Alexandre na missão ao Marajó.
O deputado foi questionado sobre a relação de seu gabinete com Alexandre e se o empresário havia sido nomeado, contratado ou formalmente credenciado como assessor. A reportagem perguntou ainda quem informou ao Senado que Alexandre exercia essa função.
A Fórum também quis saber se o gabinete solicitou a inclusão de Alexandre na comitiva ou no deslocamento em aeronave da FAB; se houve despesas públicas com transporte, hospedagem ou alimentação; e se fotografias, vídeos ou outros trabalhos produzidos durante a missão foram posteriormente incluídos em despesas da cota parlamentar.
Sobre os R$ 331.900 destinados à AB Comunicação Digital e ao Instituto Mais Cidades, Jordy foi questionado sobre a escolha das empresas, contratos, pesquisas de preços, relatórios de execução e produtos efetivamente entregues ao gabinete.
A reportagem também pediu explicações sobre uma nota de R$ 12 mil do Instituto Mais Cidades apresentada em maio de 2024, da qual apenas R$ 2,4 mil foram reembolsados pela Câmara.
Até a conclusão desta reportagem, Carlos Jordy e sua equipe não haviam respondido aos questionamentos encaminhados pela Fórum. O espaço permanece aberto para manifestação.
Outra investigação envolve a cota de Jordy
O caso revelado nesta reportagem é distinto de outra investigação envolvendo despesas da cota parlamentar de Carlos Jordy.
A Fórum mostrou anteriormente que a Polícia Federal mirou assessores ligados a Jordy e Sóstenes Cavalcante em investigação sobre suspeitas envolvendo recursos da cota parlamentar.
A investigação da PF trata de despesas com locação de veículos. Até o momento, não há elemento nos documentos consultados que vincule a AB Comunicação Digital, o Instituto Mais Cidades ou a participação de Alexandre na missão ao Marajó ao objeto daquela apuração.
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