Cerimedo com Flávio Bolsonaro: ação de bots revela interferência argentina na eleição

Cerimedo com Flávio Bolsonaro: ação de bots revela interferência argentina na eleição
Cerimedo com Flávio Bolsonaro: ação de bots revela interferência argentina na eleição 2

Contas de redes sociais argentinas ligadas ao consultor Fernando Cerimedo e a influenciadores do entorno do presidente Javier Milei estão promovendo uma campanha de desinformação que alega uma “invasão” de imigrantes marroquinos em Santa Catarina, atribuída a políticas migratórias do governo Lula.
A viralização, mapeada pelo Observatório Lupa, partiu do portal argentino La Derecha Diario e acumulou 13,4 mil menções entre os dias 21 e 27 de julho, alcançando 475 mil visualizações em publicações em português e espanhol.
A narrativa utiliza fotos da crise migratória ocorrida em julho deste ano em Ceuta, enclave espanhol no norte da África, e distorce números reais sobre pedidos de refúgio para sustentar a tese de uma chegada em massa de marroquinos ao Brasil.
Campanha sobre imigração marroquina parte de site argentino
O ponto de partida foi uma publicação do site argentino La Derecha Diario, com o título “Gravíssimo: Lula impulsiona a imigração de marroquinos para o Brasil”.
O texto afirmava que a chegada de marroquinos ao Brasil havia “disparado” por impulso das políticas do “governo do socialista Luiz Inácio Lula da Silva” e que o movimento trazia consequências econômicas para municípios catarinenses.
A partir da publicação, contas ligadas ao consultor Fernando Cerimedo e influenciadores próximos a Milei passaram a amplificar a narrativa nas redes sociais, em português e espanhol, com chamadas como “Onda de imigrantes marroquinos chega ao Brasil pelas mãos de Lula”.
Para ilustrar a suposta “invasão”, as postagens recorreram a imagens que nada têm a ver com Santa Catarina: fotos da crise migratória ocorrida em julho deste ano em Ceuta, enclave espanhol no norte da África, quando milhares de migrantes, em sua maioria marroquinos, atravessaram a fronteira por terra e pelo mar, muitos deles a nado.
As imagens, portanto, não mostravam marroquinos chegando ao Brasil, apesar de terem sido utilizadas em publicações sobre a suposta onda migratória em Santa Catarina.
O Observatório Lupa identificou a origem da narrativa e mapeou sua disseminação nas redes sociais.
Dados oficiais contradizem narrativa de “invasão”
A informação utilizada como base pelo La Derecha Diario era a de que 50 marroquinos haviam solicitado refúgio em Santa Catarina nos três meses anteriores à publicação.
O número, porém, foi apresentado sem comparação com o total de pedidos registrados no estado.
Segundo dados do ObMigra e do Conare, foram 57 solicitações de refúgio feitas por marroquinos em Santa Catarina em 2026 até julho, número equivalente a apenas 1,86% dos 3.059 pedidos registrados no estado no período.
Outras nacionalidades aparecem em quantidade muito superior.
No mesmo intervalo, Santa Catarina recebeu 1.707 pedidos de cubanos, 543 de haitianos, 227 de venezuelanos e 61 de argentinos.
Os números nacionais também mostram que os marroquinos representam uma parcela minoritária das solicitações.
Das 40.961 solicitações de refúgio registradas no Brasil em 2026, 24.008 foram apresentadas por cubanos, 6.880 por venezuelanos e 835 por marroquinos.
Os dados, portanto, não sustentam a existência de uma “invasão marroquina” em Santa Catarina. A narrativa parte de um dado verdadeiro — a existência de pedidos de refúgio feitos por cidadãos do Marrocos —, mas o apresenta fora do contexto geral das solicitações registradas no estado e no país.
Além disso, associa o fenômeno diretamente às políticas do governo Lula.
Fernando Cerimedo e o La Derecha Diario
O La Derecha Diario ocupa posição relevante nesse ecossistema político e digital.
Segundo apuração da Folha de S.Paulo, Fernando Cerimedo era dono de 50% do portal até a semana passada, quando deixou a sociedade pouco depois de ser preso na Bolívia.
Cerimedo é acusado de ter ordenado o assassinato de sua ex-companheira, Nadia Beller, que está grávida. Ele nega envolvimento no crime. A Folha informou que não conseguiu localizar sua defesa.
Também segundo o jornal, Cerimedo foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito do golpe após realizar lives e publicações nas quais afirmava que as eleições brasileiras de 2022 haviam sido fraudadas. Ele, no entanto, não foi incluído na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República.
Próximo da família Bolsonaro, Cerimedo participou, no fim de julho deste ano, de uma transmissão ao vivo com Eduardo Bolsonaro. Na ocasião, os dois voltaram a levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Influenciador recebido por Milei ajudou a espalhar narrativa
Entre os disseminadores da campanha está o influenciador Christopher Marchesini, conhecido como “Mate con Mote”.
Ele produziu um vídeo sobre a publicação do La Derecha Diario com a legenda “Lula impulsiona imigração do Marrocos para o Brasil e ameaça fronteira da Argentina”.
Marchesini foi recebido pelo presidente Javier Milei na residência oficial Quinta de Olivos, em maio deste ano.
Entre os dias 21 e 27 de julho, a publicação original do La Derecha Diario e suas diferentes versões acumularam 13,4 mil menções em redes sociais e websites, segundo levantamento do Observatório Lupa.
Narrativa circulou entre Argentina e Brasil
A análise realizada por meio da ferramenta Meltwater Explore mostra que as publicações partiram principalmente de contas baseadas na Argentina e, posteriormente, ganharam circulação no Brasil.
As mensagens apareceram tanto em espanhol quanto em português e alcançaram 475 mil visualizações.
Segundo o Observatório Lupa, o La Derecha Diario utilizou informações verdadeiras sobre imigração, mas retirou os dados de contexto, exagerou sua dimensão e os associou artificialmente ao presidente Lula.
A análise classifica o episódio como uma combinação de dois tipos de distorção informacional: a “malinformação”, caracterizada pela disseminação de dados verdadeiros com intenção de causar dano, e a desinformação propriamente dita, que envolve a criação e circulação de conteúdo falso.
O Observatório Lupa identificou o ponto de origem da narrativa no site argentino La Derecha Diario, que utilizou informações verdadeiras sobre imigração, mas as retirou de contexto, exagerou e associou artificialmente ao presidente Lula.
A circulação de conteúdos políticos entre grupos ligados à direita argentina e ao bolsonarismo brasileiro já havia sido observada durante e depois das eleições presidenciais de 2022.
No episódio envolvendo os marroquinos, uma informação verdadeira — a existência de pedidos de refúgio — ganhou outra dimensão ao ser apresentada como uma “invasão” e acompanhada por fotografias produzidas em um contexto migratório completamente diferente.
A participação de perfis argentinos e brasileiros na disseminação das publicações mostra ainda como narrativas políticas ultrapassam as fronteiras nacionais e passam a circular entre públicos dos dois países.
Fernando Cerimedo, aliado do clã Bolsonaro, diz que “em breve, a verdade virá à luz” em carta na prisão
Em uma “mensagem à imprensa”, divulgada pelos advogados de defesa nesta quinta-feira (27), Fernando Cerimedo, operador de comunicação digital da direita radical latino-americana que é ligado ao clã Bolsonaro, prometeu revelar a “verdade” sobre sua atuação na Bolívia, onde foi preso pela tentativa de assassinato da ex, a advogada e ativista Nádia Beller.
Na carta, Cerimedo tenta se distanciar do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz. O direitista assumiu o governo boliviano após duas décadas de governos de esquerda e uma tentativa fracassada de golpe. A eleição contou com o trabalho de redes sociais de Cerimedo, que ganhou um cargo de “estrategista internacional” no início do governo.
Após a prisão, o vice-presidente Edmand Lara havia declarado que Cerimedo era “conselheiro pessoal” de Paz e pediu que o presidente não o blindasse nas investigações conduzidas pelas autoridades bolivianas.
A carta à imprensa, divulgadas pelos advogados, inicia dizendo que “Fernando Cerimedo, de Palmasola: reafirmo o que foi dito pelo presidente Rodrigo Paz”, indicando que a mensagem partiu do estrategista de dentro da cela do complexo penitenciário de Palmasola, em Santa Cruz de la Sierra.
“Mentiras ou boatos não constituem fatos. Meu papel como colaborador do presidente não me conferia nenhuma autorização ou poder para agir ou representar a família presidencial. Jamais agi em nome de ninguém nem tomei decisões. Nunca fiz uso disso, apesar das mentiras e difamações infundadas que afirmam o contrário. Jamais participei de negociatas nem de qualquer tipo de ato em meu nome, e muito menos em nome da esposa do presidente, a quem aprecio profundamente e sei de sua honradez, assim como da de toda a família”, diz Cerimedo, se referindo também à primeira-dama da Bolívia, María Elena “Bibi” Urquid.
Após sobreviver ao atentado a tiros, a advogada Nadia Beller afirmou possuir gravações de áudio que expõem conversas entre Cerimedo e a primeira-dama “Bibi” Urquidi. Nessas gravações, os dois supostamente tratavam de indicações políticas e nomeações irregulares na estatal petrolífera Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB).
Segundo o testemunho de Beller, os áudios revelam o conhecimento de esquemas de propina envolvendo a venda de diesel e o desvio de combustível para o mercado negro. Beller declarou que o motivo de Cerimedo ter tentado assassiná-la era justamente silenciá-la para evitar o vazamento dessas provas.
Rodrigo Paz rebatou publicamente as acusações de Nadia Beller, classificando o caso como “escândalo sem provas” e defendendo a reputação de sua esposa.
Na carta, Cerimedo ainda lamenta “enormemente que uma situação pessoal que não consegui administrar tenha se transformado em uma questão de interesse político por parte daqueles que não querem tirar a Bolívia do poço em que os 20 anos do evismo a colocaram”, sobre os governos iniciados por Evo Moraes, do MAS.
“Em breve, a verdade sobre esta atrocidade virá à luz e esclarecerei todas as mentiras que têm se dedicado a implantar na sociedade sem qualquer fundamento e com o único propósito de prejudicar o governo”, diz Cerimedo.
Além das questões relacionadas à Bolívia, Cerimedo é alvo de denúncias que envolvem sua atuação na Argentina, em prol de Javier Milei, e no Brasil, com Jair Bolsonaro, em 2022, e Flávio Bolsonaro, em 2026.

Do golpe, em 2022, à suposta “granja de bots” para Flávio Bolsonaro
A prisão de Fernando Andrés Cerimedo na Bolívia abriu uma nova frente de investigação que pode voltar ao episódio mais conhecido envolvendo o argentino no Brasil: a live de novembro de 2022 em que ele apresentou um suposto dossiê para tentar sustentar a tese, já desmentida, de fraude nas urnas eletrônicas brasileiras.
Agora, um pedido apresentado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tenta fazer a ponte entre aquela operação e o atual processo eleitoral brasileiro. A chamada “Notícia de Fato Superveniente”, protocolada em 24 de agosto pelo deputado federal Rui Falcão (PT-SP), pede cooperação jurídica com a Bolívia para preservar e compartilhar dados dos equipamentos apreendidos com Cerimedo.
Entre eles está uma estrutura que o Ministério Público boliviano descreveu publicamente como uma “granja de bots”, classificação usada por autoridades bolivianas para classificar a estrutura para disparo em massa de mensagens e publicações em redes sociais. A estratégia é usada pela ultradireita transnacional para propagar discurso de ódio e fake News. A ação foi importada para o Brasil pelo clã do ex-presidente, que tinha o filho “02”, Carlos Bolsonaro (PL), como comandante do chamado Gabinete do Ódio.
No documento, Rui Falcão pede que “seja apurado se a estrutura de contas automatizadas apreendida na Bolívia foi utilizada ou estava sendo preparada para interferir no processo eleitoral brasileiro de 2026, mediante disseminação de desinformação, amplificação artificial de conteúdo, ataques ao sistema eletrônico de votação ou favorecimento e desfavorecimento de candidaturas”.
O deputado ainda solicita que “seja especificamente investigada a existência de pagamentos, contratos, propostas comerciais ou outras formas de remuneração provenientes de pessoas físicas, pessoas jurídicas, partidos políticos, candidaturas ou intermediários brasileiros, relacionados à prestação de serviços de comunicação, propaganda ou operação digital por Fernando Andrés Cerimedo”.
A Notícia de Fato ainda solicita que “a Polícia Federal, recebidas as provas, promova o cruzamento técnico com os elementos já existentes na investigação relativa a 2022”. E é aí que a história de Cerimedo volta a se encontrar com a trama golpista que levou Jair Bolsonaro a ser condenado a 27 anos e 3 meses de prisão.
Entenda a ação que pode conectar Cerimedo nas campanhas de Jair e Flávio Bolsonaro.

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