Há 10 anos, Dilma Rousseff sofria golpe com impeachment aprovado no Senado

Há 10 anos, Dilma Rousseff sofria golpe com impeachment aprovado no Senado
Dilma - Foto: André Violatti/Ato Press/Folhapress

Há exatamente dez anos, em 31 de agosto de 2016, Dilma Rousseff (PT) sofria o golpe que encerrou seu segundo mandato na Presidência da República. Por 61 votos a 20, o Senado aprovou o impeachment da primeira mulher eleita presidente do Brasil, reeleita em 2014 com 54,5 milhões de votos.
Formalmente, Dilma foi condenada politicamente por crimes de responsabilidade relacionados à edição de decretos de crédito suplementar e aos atrasos nos repasses do Tesouro ao Banco do Brasil para o Plano Safra, as chamadas pedaladas fiscais. A petista negou ter cometido crime e denunciou desde o início que o impeachment era usado para retirar do poder um governo escolhido nas urnas.
Dilma Rousseff e o impeachment: como o processo avançou
O processo começou formalmente em 2 de dezembro de 2015, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aceitou o pedido de impeachment apresentado por Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal.
Quatro meses depois, em 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados autorizou a continuidade do processo por 367 votos a 137, com sete abstenções. A sessão ficou marcada por parlamentares dedicando votos a familiares, instituições religiosas e forças de segurança, muitas vezes sem qualquer referência às acusações fiscais que estavam formalmente em julgamento.
Foi naquela noite que Jair Bolsonaro, então deputado federal, dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandou o DOI-Codi de São Paulo durante a ditadura militar. Dilma havia sido presa e torturada durante o regime.
Em 12 de maio, o Senado decidiu por 55 votos a 22 instaurar o processo e afastar Dilma temporariamente da Presidência. O vice Michel Temer assumiu o Planalto como presidente interino enquanto o julgamento seguia.
Perícia do Senado não encontrou ato de Dilma nas pedaladas fiscais
Uma das principais contradições do processo apareceu dentro do próprio Senado. Em junho de 2016, uma junta formada por técnicos da Casa concluiu que três decretos de crédito suplementar assinados por Dilma eram incompatíveis com a meta de resultado primário vigente.
Sobre as chamadas pedaladas fiscais, porém, a conclusão foi diferente. Os peritos confirmaram a existência de atrasos nos pagamentos relacionados ao Plano Safra, mas não identificaram ato de Dilma Rousseff nessa operação.
O resultado consta no registro oficial do Senado. A acusação sustentou que a ausência de participação direta nas pedaladas não eliminava a responsabilidade da então presidente; a defesa apontou a perícia como evidência de que uma parte central da denúncia não tinha autoria atribuída a Dilma.
Senado cassou Dilma por 61 votos a 20
O julgamento final começou em 25 de agosto e atravessou seis dias de sessões. Dilma compareceu pessoalmente ao Senado em 29 de agosto e respondeu durante horas às perguntas dos parlamentares.
Em sua defesa, voltou a afirmar que não havia cometido crime de responsabilidade e classificou o processo como uma ruptura da ordem democrática.
“São pretextos para viabilizar um golpe na Constituição.”
Na manhã de 31 de agosto, os 81 senadores votaram. Eram necessários 54 votos para a condenação. O impeachment foi aprovado por 61 votos a 20, conforme o registro oficial do Senado Federal.
A votação produziu ainda uma situação incomum. Em uma segunda deliberação, os senadores decidiram separadamente se Dilma também deveria ficar inabilitada para exercer funções públicas por oito anos.
A punição recebeu 42 votos favoráveis, 36 contrários e três abstenções. Como seriam necessários 54 votos, Dilma perdeu o mandato, mas manteve seus direitos políticos.
Horas depois, Michel Temer tomou posse definitivamente como presidente da República e completou o mandato até o fim de 2018.
Dez anos depois, antigos apoiadores do impeachment reavaliam voto
Uma década depois, parte dos próprios integrantes da maioria que cassou Dilma passou a fazer uma revisão pública da decisão. Levantamento publicado às vésperas do aniversário do impeachment identificou ao menos quatro integrantes do grupo dos 61 que fizeram críticas ao resultado ou às consequências do afastamento.
Renan Calheiros, que presidia o Senado em 2016 e votou pela cassação, classificou posteriormente o impeachment como um erro. O ex-senador Tasso Jereissati também passou a avaliar a decisão dessa forma e relacionou o processo à desorganização política que se aprofundou nos anos seguintes.
Aloysio Nunes Ferreira, que também votou pelo impeachment, afirmou que teria sido melhor deixar Dilma concluir o mandato e derrotar o PT nas urnas. Já Cristovam Buarque reconheceu neste ano ter errado politicamente ao apoiar a cassação, embora tenha feito ressalvas sobre a ideia de arrependimento.
Eduardo Cunha e Flávio Bolsonaro reativam memória do impeachment
A disputa sobre 2016 também chegou diretamente à campanha eleitoral de 2026. Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro (PL) apareceu em um vídeo de apoio a Eduardo Cunha, que tenta retornar à Câmara dos Deputados por Minas Gerais.
Na gravação divulgada nas redes sociais, Flávio exaltou justamente o papel de Cunha no processo que resultou na retirada de Dilma. Dez anos depois, o ex-presidente da Câmara tenta transformar a abertura do impeachment em ativo político em sua tentativa de voltar ao Congresso.
No campo progressista, a data é tratada como marco da ruptura institucional que abriu caminho para Michel Temer, para a agenda de desmonte de direitos aplicada após 2016 e, posteriormente, para a ascensão da extrema direita.
Nesta segunda-feira (31), a Fundação Perseu Abramo também marca os dez anos com a publicação do livro “O golpe de 2016: origens, mecanismos e consequências”. A obra reúne 16 artigos de pesquisadores, jornalistas e ativistas sobre a derrubada de Dilma e seus efeitos políticos e sociais.
O livro está disponível no portal da Fundação Perseu Abramo.
Dilma Rousseff, dez anos depois do golpe
Dez anos após deixar o Palácio do Planalto, Dilma ocupa hoje a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco do Brics, com sede em Xangai, na China.
A ex-presidenta assumiu a instituição em 2023 e foi reeleita por unanimidade em 2025 para um novo mandato, com duração até julho de 2030.
Enquanto antigos personagens de 2016 voltam a disputar eleições e alguns dos parlamentares que votaram pela cassação admitem erros e reavaliam suas  decisões, o impeachment permanece como uma das maiores fraturas da história política recente do Brasil. Uma década depois, a disputa sobre o golpe que retirou Dilma Rousseff do poder continua longe de encerrada.

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