O mundo vai a reboque de um Titanic carregado com U$ 40 tri em dívidas?
“É uma verdadeira mudança de regime. Os papéis do Japão eram a âncora da renda fixa por um longo tempo. Agora isso acabou”.
Reproduzida pela Reuters, a opinião do estrategista Prashant Newnaha dá uma ideia da crise. Não é possível saber se ele estava ironizando a frustrada tentativa de mudar o regime no Irã.
O fato é que a taxa de retorno esperada por quem negocia com papéis japoneses que vencem em 10 anos estava em 2,996% nesta terça-feira, 1. É a maior desde 1996.
A yield é quanto quem empresta espera receber de retorno ACIMA da inflação.
Fenômeno global
O fenômeno mexe com todas as economias do capitalismo central. A taxa afeta os consumidores na medida em que todos os empréstimos ficam mais caros: do financiamento do imóvel ao do automóvel.
Nos Estados Unidos, a taxa para os papéis de 10 anos do Tesouro bateu em 4.768%. Ela estava próxima de zero em 2020.
Isso acontece no momento em que a dívida estadunidense atingiu U$ 40 trilhões. O custo de financiá-la vai crescendo junto com a yield.
A dívida dos EUA representa 120% do PIB. A da França, 117%.
Nos EUA, a subida da taxa é atribuída ao fato de que empresas de tecnologia estão vendendo ações no mercado para levantar dinheiro e investir em Inteligência Artificial.
As taxas de retorno em geral trafegam na contramão do preço das ações.
Curiosamente, a empresa de Donald Trump foi uma das mais afetadas pelo mal estar: a DJT Media caiu 4% neste primeiro dia de setembro e já perdeu 26% do valor em um ano.
Os investidores estão fugindo do risco.
As taxas estão em alta no Reino Unido, Alemanha e Itália.
Brasil e Rússia estão entre os poucos países que não enfrentam o problema.
O impacto pode ser visto em todo o mercado: em Hong Kong, as ações da Shein estrearam muito abaixo da expectativa. Pelo lançamento, a empresa foi avaliada em U$ 26 bilhões, quando a expectativa era de U$ 100 bilhões.
Disparada nos preços de energia
O preço de referência do petróleo nos Estados Unidos, West Texas intermediário, subiu hoje quase 3% para mais de U$ 88 o barril, diante das incertezas na guerra contra o Irã.
Isso representa cerca de 20% de aumento desde 27 de fevereiro de 2026, quando os EUA iniciaram sua segunda ofensiva na tentativa de derrubar a República Islâmica. O preço do diesel subiu cerca de 30% no mesmo período.
A guerra contra o Irã custou U$ 100 bi até agora, de acordo com algumas estimativas; Trump, em seu segundo mandato, viu a dívida dos EUA saltar em U$ 3,8 trilhões.
O economista chefe do HSBC vê similaridades com a grande crise de 1997, que derreteu economias da Ásia: dinheiro caro nos EUA, moeda japonesa frágil e otimismo com nova tecnologia (hoje, a Inteligência Artificial).
Frederick Neumann sustenta que as economias asiáticas hoje exportam capital, situação inversa à de 1996. Porém, as empresas asiáticas de eletrônicos dependem para seu faturamento dos investimentos em IA nos EUA, que podem recuar significativamente com o dinheiro mais caro.
O secretário do Tesouro de Trump, Scott Bessent, discorda do mercado e diz que a economia em crescimento permitirá aos EUA lidar com sua dívida sem qualquer risco de colapso.
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