Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, prestou depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no mesmo dia em que deveria ser ouvido pela Polícia Federal (PF) no âmbito da investigação sobre fraude financeira.
A oitiva com o gabinete de Mendonça ocorreu em uma quinta-feira, 27 de agosto, dentro da Papudinha, em Brasília, onde Vorcaro está preso. O depoimento foi conduzido pelo juiz auxiliar João Azambuja e contou com a participação de um representante do Ministério Público Federal (MPF), mas não teve a presença de policiais federais responsáveis pela investigação.
O encontro passou a ser considerado um “depoimento secreto” porque não houve divulgação oficial prévia ou imediata sobre sua realização, como costuma ocorrer com atos processuais de interesse público, e porque a oitiva ocorreu fora do procedimento conduzido pela Polícia Federal, que investigava o caso. A audiência só veio a público após reportagens desta quarta-feira (2) revelarem a existência do depoimento e as circunstâncias em que ele ocorreu.
Na mesma manhã, estava marcado o depoimento de Vorcaro à PF, por videoconferência, no inquérito que apura a suspeita de que ex-supervisores do Banco Central teriam atuado para favorecer o Banco Master.
No horário previsto para o depoimento à PF, o banqueiro não entrou na videoconferência. A justificativa apresentada foi uma suposta falha técnica na conexão da unidade prisional, motivo pelo qual o depoimento foi adiado. Na prática, enquanto a PF aguardava a conexão para ouvir Vorcaro, o banqueiro estava prestando depoimento ao gabinete do ministro do STF.
A Polícia Federal realizou a nova oitiva de Vorcaro na sexta-feira (28), desta vez formalmente dentro da investigação conduzida pela corporação.
A justificativa de Mendonça
O gabinete de André Mendonça afirmou que o depoimento foi realizado a pedido da defesa de Vorcaro, que teria relatado estar sofrendo “graves intimidações” e solicitado ser ouvido com urgência.
Em nota, o gabinete afirmou que a ausência da Polícia Federal seguiu orientações relacionadas à proteção da integridade física e psicológica do depoente e citou resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a realização de determinados tipos de audiência.
“O afastamento da equipe policial responsável pela investigação” teria ocorrido, segundo o gabinete, como uma medida de proteção e “não qualquer escolha de conveniência do gabinete”.
A realização de um depoimento de Vorcaro sem a presença dos investigadores provocou questionamentos entre integrantes da PF. Uma das hipóteses levantadas nos bastidores é que a audiência poderia estar relacionada a uma eventual negociação de colaboração premiada do banqueiro, embora não haja confirmação pública de que esse tenha sido o objetivo da oitiva.
Encontro entre Vorcaro e Mendonça
A audiência no gabinete de Mendonça veio à tona no mesmo dia da divulgação de mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro que revelaram uma reunião entre o banqueiro e o ministro do STF em março de 2025.
O encontro foi divulgado pelo jornalista Paulo Motoryn, da newsletter Noites Húngaras, e teria sido articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
Segundo os registros divulgados, a aproximação começou em fevereiro de 2025. Em uma das mensagens enviadas ao banqueiro, Ciro escreveu: “Tô com André M.”.
No dia seguinte, o advogado enviou uma fotografia ao lado do ministro e afirmou, em áudio: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”.
Em outro áudio, segundo o material divulgado, Ciro afirmou que Mendonça tinha conhecimento da situação envolvendo o Banco Master e que queria receber Vorcaro.
“Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele”, afirmou o advogado, de acordo com os registros divulgados.
A reunião presencial ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, no endereço de um instituto fundado por Mendonça, e teria durado cerca de duas horas.
Banco Master já estava sob investigação quando Vorcaro procurou Mendonça
O encontro entre Vorcaro e Mendonça ocorreu em um momento em que o Banco Master já estava no radar das autoridades.
A Polícia Federal havia iniciado em 2024 uma apuração envolvendo Daniel Vorcaro e operações relacionadas ao banco, a partir de uma solicitação do Ministério Público Federal.
A investigação inicial envolvia suspeitas sobre emissão e negociação de carteiras de crédito sem lastro ou consideradas insubsistentes, além de questionamentos encaminhados ao Banco Central sobre possíveis irregularidades nas operações da instituição.
A dimensão das suspeitas veio posteriormente a público com a Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025.
Cronologia também envolve aportes no filme Dark Horse
As revelações sobre a relação entre Vorcaro e Mendonça também chamaram atenção pela coincidência temporal com os aportes realizados pelo banqueiro no filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro articulada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O primeiro repasse conhecido de Vorcaro para um fundo ligado ao filme ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, uma semana após o início das articulações para aproximá-lo de Mendonça.
Os aportes aconteceram enquanto o banqueiro negociava a expansão do Banco Master e uma operação envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
André Mendonça foi indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro em 2021 e atualmente relata no STF questões relacionadas ao Banco Master e ao Dark Horse.
A cronologia, por si só, não comprova relação entre os acontecimentos nem indica irregularidade. Mas os episódios passaram a integrar o debate público após a divulgação das mensagens, do encontro de março de 2025 e da informação sobre o depoimento prestado por Vorcaro ao gabinete do ministro sem a presença da Polícia Federal.
Depoimento ‘secreto’ de Vorcaro a Mendonça foi prestado no mesmo dia em que banqueiro deveria depor à PF
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