A terça-feira (8) foi marcada por movimentos simultâneos e altamente simbólicos no Supremo Tribunal Federal, evidenciando a profunda rede de interesses políticos e judiciais que envolvem as investigações sobre o extinto Banco Master. No exato dia em que o ministro André Mendonça voltou a desferir duros golpes contra a Polícia Federal, impondo severas decisões e atritos diretos com a cúpula da corporação responsável pelas maiores apurações de corrupção do país, seu gabinete avançou nos bastidores sobre o capítulo mais espinhoso e politicamente sensível do processo: as ramificações que atingem diretamente a família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PF).
Enquanto setores da imprensa e do meio jurídico reagiam às investidas do magistrado contra os investigadores federais, um juiz auxiliar do gabinete de Mendonça conduzia, no período da tarde, uma audiência decisiva com o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido nos meios financeiros como “Mineiro”. A oitiva teve como objetivo formal checar a espontaneidade do acordo de delação premiada firmado pelo empresário junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) no início de agosto. Ao ser questionado pelo magistrado auxiliar se havia assinado os termos de forma voluntária, requisito indispensável para a homologação do pacto, o delator confirmou a espontaneidade de suas declarações, deixando o sinal verde para que Mendonça decida, sem prazo fixado, se validará o acordo.
A coincidência de datas não passou despercebida por observadores em Brasília. A movimentação no gabinete ocorre no momento exato em que o ministro é alvo de intensas críticas e acusações, por parte de diversos atores políticos e jurídicos, de atuar sistematicamente para blindar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). É justamente dentro da colaboração de Mineiro que repousa a engrenagem que conecta a arrecadação clandestina de recursos do Master aos interesses financeiros do parlamentar carioca.
Ponte financeira entre o Master e a família Bolsonaro
O depoimento prestado por Mineiro e o material entregue à PGR lançam luz sobre como a estrutura mantida por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, operava para irrigar projetos de interesse direto do clã Bolsonaro. O empresário, proprietário da Entre Investimentos, detalhou ter sido o canal utilizado, a mando expresso de Vorcaro, para transferir cerca de US$ 12,3 milhões com o objetivo de financiar a produção do filme “Dark Horse”, uma obra cinematográfica voltada à hagiografia de Jair Bolsonaro.
As apurações apontam que os repasses milionários foram solicitados diretamente a Vorcaro pelo próprio senador Flávio Bolsonaro. O caminho do dinheiro seguiu uma rota internacional sofisticada: os recursos saíram das empresas de fachada ligadas ao esquema e desembarcaram nas contas do fundo Havengate, uma estrutura sediada nos EUA e sob a gestão direta de um advogado vinculado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Este trecho da delação é considerado o ponto mais vulnerável para Flávio Bolsonaro nas apurações sobre o Master, tornando a conduta de Mendonça na condução do processo objeto de constante escrutínio e desconfiança por parte de juristas que enxergam seletividade no tratamento dado às investigações da Polícia Federal.
Fábrica de dinheiro vivo e as conexões com a Carbono Oculto
Para além das conexões políticas de alto coturno, o depoimento de Antonio Carlos Freixo Junior forneceu à PGR um raio-x detalhado da logística utilizada pelo grupo para produzir volumes colossais de dinheiro em espécie. Mineiro confessou ter movimentado uma quantia impressionante: cerca de R$ 1,3 bilhão entre os anos de 2020 e 2025, atuando como o principal engrenagem na “geração” de numerário físico destinado à equipe de Vorcaro.
Segundo o relato do empresário, as demandas por dinheiro vivo chegavam rotineiramente via mensagens no aplicativo WhatsApp, vindas diretamente do dono do banco ou de seus operadores mais próximos, como seu cunhado Fabiano Zettel. Para transformar saldos bancários em malas de cédulas, Mineiro acionava uma rede de intermediários no mercado informal e efetuava transferências bancárias para empresas parceiras. Entre essas companhias utilizadas para simular empréstimos por meio de contratos de mútuo, figurava inclusive uma distribuidora de combustíveis já rastreada e identificada pelas equipes de inteligência da PF durante os desdobramentos da Operação Carbono Oculto, na capital paulista.
A dinâmica para a obtenção do papel-moeda envolvia redes operantes no tradicional bairro do Brás, no centro de São Paulo, além de distribuidoras de combustíveis. Após o saque e a montagem das malas na sede da Entre Investimentos, no bairro nobre do Itaim Bibi, as entregas a Zettel eram agendadas de forma rápida, quase sempre no mesmo dia, e realizadas discretamente em garagens e estacionamentos subsolos de edifícios comerciais e residenciais da região. Pela intermediação e risco do transporte, Mineiro embolsava uma comissão de 1%, enquanto os fornecedores de liquidez em espécie ficavam com 4%.
Provas materiais sob a mesa do relator
Diferentemente de delações baseadas apenas em relatos orais, o material entregue por Mineiro ao Ministério Público Federal foi acompanhado de um conjunto robusto de evidências documentais. Para comprovar suas declarações, o delator entregou às autoridades uma planilha detalhada com datas e valores de todas as transferências bancárias realizadas, comprovantes de envio de recursos aos operadores, cópias dos contratos simulados de mútuo e, de forma inédita, até mesmo os recibos de compra das dezenas de malas utilizadas no acondicionamento do dinheiro em espécie.
Agora, com a confirmação da voluntariedade do acordo colhida por seu auxiliar, a decisão final sobre a homologação dessa peça central do caso Master repousa exclusivamente nas mãos do ministro André Mendonça. O avanço discreto deste capítulo do processo, em contraste frontal com as medidas públicas de contenção impostas pelo ministro ao trabalho da Polícia Federal no mesmo dia, mantém acesa a discussão sobre os rumos e os limites das apurações que ameaçam o coração do bolsonarismo na Suprema Corte.
Em dia que atuou conta PF, gabinete de Mendonça faz audiência com delator de “Dark Horse”
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