Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz: favores, resorts e os interesses que cercam a amizade

Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz: favores, resorts e os interesses que cercam a amizade
Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro - Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro (Reprodução/Redes sociais)

Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz estão no centro de um novo cruzamento entre política e interesses privados. Já candidato à Presidência da República, o senador do PL prometeu acelerar a implantação de resorts e grandes empreendimentos em Angra dos Reis, justamente onde empresas do amigo possuem três propriedades e onde o advogado já procurou o órgão ambiental do Rio de Janeiro para avaliar a exploração turística de um terreno.
O discurso de campanha acrescenta um capítulo novo a uma relação de anos. Willer já cedeu gratuitamente uma mansão de luxo à família de Flávio, aparece ao lado do senador em viagens particulares de jatinho e teve seu nome defendido pelo amigo para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em Angra, uma empresa do advogado também obteve uma autorização da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) em menos de duas horas quando o órgão era comandado no Rio por um indicado de Flávio.
Não há prova pública de que os benefícios privados tenham sido condicionados a uma contrapartida de Flávio ou de que sua proposta para o turismo tenha sido elaborada especificamente para atender Willer. O que os episódios revelam é uma sucessão de favores pessoais, interesses econômicos e movimentos políticos que se cruzam ao longo da amizade.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz: resorts e interesses em Angra
O fato mais recente ocorreu em 29 de agosto. Durante agenda de campanha em Angra dos Reis, Flávio defendeu a revisão dos planos diretores dos municípios da Costa Verde e medidas para acelerar grandes empreendimentos imobiliários e turísticos.
O candidato falou especificamente em condomínios e resorts e defendeu a retirada de entraves ambientais para que essas obras avancem com maior rapidez. A proposta foi apresentada para Angra e municípios vizinhos, como Mangaratiba e Paraty.
Uma apuração publicada nesta semana pela Folha de S.Paulo revelou que empresas de Willer possuem três propriedades em Angra dos Reis. Duas estão na Ilha Comprida e uma terceira na Ilha do José André. Os imóveis pertencem à Friponor e à WT Administração de Imóveis, empresas ligadas ao advogado.
O interesse de Willer na exploração turística da região também está documentado. Em 2025, ele procurou o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para consultar qual percentual de um terreno poderia ser utilizado em uma operação turística.
Outra propriedade ligada ao advogado, na Ilha Comprida, aparece em imagens de julho de 2025 passando por obras, com construção de um segundo pavimento e de estruturas separadas da edificação principal. É justamente esse imóvel que está no centro de uma disputa envolvendo uma empresa relacionada ao jogador Richarlison.
A Fórum já reconstituiu a disputa pela mansão de Angra e a relação de Flávio com o caso.
Não há, porém, documento público que permita afirmar que a propriedade em obras é o mesmo terreno objeto da consulta ao Inea. Também não está demonstrada a existência de um projeto formal de resort para a mansão disputada com o grupo ligado a Richarlison.
À Folha, Willer rejeitou qualquer associação entre seus negócios e as propostas de Flávio. Disse que não participou da formulação da política para o turismo, não foi consultado e nunca tratou do assunto com o candidato.
Mansão e jatinhos: os favores privados
Se a proposta para resorts coloca os interesses de Willer no presente da campanha presidencial, os benefícios privados concedidos ao senador aparecem antes.
Na terça-feira (8), reportagem do ICL Notícias, assinada por Alice Maciel, revelou que Flávio comemorou em fevereiro o aniversário da filha caçula em uma mansão de luxo à beira-mar em Angra.
O imóvel funciona em modelo de propriedade compartilhada e uma das quatro cotas pertence à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa de Willer.
O próprio advogado confirmou ao ICL que disponibilizou a casa para Flávio e sua família. Segundo ele, não houve pagamento, contraprestação ou relação comercial. Willer disse que emprestou o imóvel exclusivamente por causa da amizade com o senador.
A mansão tem sete suítes, piscina aquecida, sauna, academia, heliponto e píer, além de um iate colocado à disposição dos proprietários. A propriedade não é a mesma envolvida na disputa com o grupo de Richarlison.
A Fórum publicou nesta semana os detalhes da mansão utilizada pela família de Flávio.
Meses antes, outra forma de benefício privado já havia chamado atenção: o uso de aeronaves particulares.
Documentos do terminal executivo do Aeroporto de Brasília obtidos originalmente pelo Estadão mostraram ao menos dois deslocamentos da família de Flávio em jatinhos privados durante 2025.
Em 1º de abril, Flávio, a mulher e as duas filhas entraram no terminal. Poucos minutos depois, uma aeronave pertencente a uma empresa ligada a Willer deixou Brasília com destino ao Rio de Janeiro.
Um mês depois, Flávio e a mulher viajaram para a Flórida acompanhados de Willer e da esposa do advogado. Nesse segundo caso, a aeronave estava registrada em nome de uma empresa dos proprietários da União Química, grupo para o qual o escritório de Willer já havia atuado.
A Fórum mostrou em abril quem é Willer Tomaz e detalhou sua presença nas viagens de Flávio em jatinhos particulares.
Flávio afirmou na ocasião que os deslocamentos tiveram finalidade pessoal e familiar. O senador não esclareceu quem arcou com todos os custos das viagens. Willer negou ter recebido qualquer favorecimento da administração pública em razão da relação com o senador.
CNJ e SPU: quando a amizade alcança o poder público
A proximidade entre os dois também chegou à esfera institucional.
Em 2022, nos últimos meses do governo Jair Bolsonaro, Flávio tentou emplacar Willer para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça, segundo a apuração da Folha. A articulação não prosperou.
No mesmo ano, Willer travava em Angra a disputa pelos direitos de ocupação da casa da Ilha Comprida.
O antigo ocupante Antônio Marcos da Silva afirmou à Folha que, durante uma visita à propriedade, Flávio e Willer se tratavam como “sócios”. A afirmação é um relato testemunhal: não há documento societário conhecido que demonstre a existência de sociedade entre os dois, e a assessoria de Flávio nega que tenha havido participação empresarial ou negócio comum.
O episódio mais sensível, no entanto, ocorreu na Secretaria do Patrimônio da União.
Por se tratar de terreno da União, a transferência dos direitos de ocupação da propriedade depende de procedimentos perante a SPU. Naquele momento, a superintendência do órgão no Rio era comandada pelo coronel Paulo Medeiros, que havia chegado ao posto por indicação de Flávio Bolsonaro.
Os documentos do processo mostram que, depois do pagamento da taxa de transferência em 7 de julho de 2022, a empresa de Willer protocolou às 11h33 do dia 11 um pedido para a emissão manual da Certidão de Autorização para Transferência.
Às 13h13, a autorização estava emitida.
Foram apenas uma hora e 40 minutos.
Enquanto isso, um pedido apresentado por empresa ligada a Richarlison aguardava análise na mesma SPU desde setembro de 2021. O órgão informou que havia problemas cadastrais no requerimento anterior, mas não explicou à Folha a diferença entre o ritmo dos dois procedimentos.
Documentos obtidos anteriormente por meio da Lei de Acesso à Informação já haviam levado o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) a pedir à Polícia Federal uma investigação sobre eventual favorecimento. A Fórum revelou em agosto o pedido feito pelo parlamentar à PF e os documentos envolvendo a SPU.
Não há prova de que Flávio tenha dado ordem para que o processo fosse acelerado ou interferido diretamente na emissão da autorização. O ponto sob suspeita é a diferença de tratamento num órgão então comandado por um indicado político do senador.
Alvo da PF, Willer nega favorecimento
A relação passou a ter peso político ainda maior depois que Willer foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal em agosto, numa etapa da Operação Sem Desconto, investigação sobre o esquema de descontos indevidos contra aposentados e pensionistas do INSS e suspeitas de lavagem de dinheiro.
A Fórum mostrou na ocasião as relações de Willer com Flávio e os elementos que levaram a PF até o advogado.
Willer nega envolvimento nas fraudes previdenciárias. Sua defesa sustenta que ele não figura como investigado por participação no esquema e afirma que as diligências ocorreram em razão de relações patrimoniais e da utilização de uma aeronave por pessoas alcançadas pela apuração. Ser alvo de busca e apreensão não significa, por si só, responsabilidade pelos crimes investigados.
É nesse contexto que a promessa de Flávio para acelerar resorts em Angra acrescenta um novo elemento à relação. O candidato propõe hoje facilitar empreendimentos turísticos numa região onde o amigo possui imóveis e já fez consulta formal sobre exploração turística. Antes disso, Willer havia cedido gratuitamente uma mansão à família Bolsonaro, aparecido nas viagens particulares de Flávio e sido cogitado pelo próprio senador para o CNJ.
Em sentido inverso, a empresa de Willer obteve uma autorização da SPU em uma hora e 40 minutos quando a superintendência do órgão no Rio estava sob o comando de um indicado de Flávio.
A sequência não comprova um acordo de contrapartida. Mostra, porém, que a amizade entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz atravessa benefícios privados, interesses empresariais e episódios relacionados ao exercício do poder político.
À Folha, Willer negou de forma enfática que a proposta para o turismo tenha qualquer relação com seus negócios em Angra. Ao ICL, afirmou que a mansão foi cedida exclusivamente por amizade, sem pagamento ou contraprestação. Flávio, por sua vez, nega manter sociedade ou empreendimento comercial com o advogado.
A Fórum procurou diretamente a assessoria de Willer Tomaz e questionou se ele colaborou com despesas das viagens particulares de Flávio; se conversou com o candidato sobre imóveis, resorts, exploração turística ou licenciamento ambiental na Costa Verde; se pediu ou recebeu auxílio relacionado ao processo da Ilha Comprida na SPU; e se alguma atuação ou proposta de Flávio beneficiou seus interesses ou envolveu qualquer contrapartida.
A assessoria confirmou o recebimento das perguntas e informou que as encaminharia ao advogado, mas não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação de Willer Tomaz, e eventual posicionamento será acrescentado à matéria.

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