Crise no STF: entenda as 3 decisões de Fachin sobre Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino

Crise no STF: entenda as 3 decisões de Fachin sobre Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino
- Edson Fachin, Paulo Gonet, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e André Mendonça em sessão do STF (Antonio...

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, tomou uma série de decisões nesta quarta-feira (9) para tentar conter a crise que se instalou dentro da própria Corte. O movimento ocorreu depois de uma sequência inédita de decisões e pedidos de investigação envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, além de Flávio Dino e a direção da Polícia Federal (PF).
As medidas de Fachin têm três frentes principais. A primeira mira diretamente Moraes: Fachin retirou dele a relatoria do chamado “inquérito das fake News”, investigação aberta em 2019 e conduzida pelo ministro durante mais de sete anos.
A segunda envolve o embate entre Mendonça e Dino sobre o comando da Polícia Federal. Fachin suspendeu tanto a decisão de Mendonça que havia afastado o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, quanto a decisão posterior de Dino que havia determinado sua reintegração.
A terceira leva ao Plenário do STF o caso que deu origem à escalada da crise: o conjunto de informações da Polícia Federal que registra mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e que menciona Moraes. A sessão extraordinária foi marcada para a próxima terça-feira (15), às 10h.
A própria Presidência do Supremo justificou a intervenção pela necessidade de evitar “conflitos e sobreposições processuais” e decisões contraditórias dentro da Corte.
Fachin tira Moraes do inquérito das fake news
A primeira medida mira o chamado “inquérito das fake News”, instaurado em 2019, durante a presidência de Dias Toffoli. Moraes foi designado para conduzir a investigação, sem sorteio, e permaneceu à frente do procedimento desde então.
Foi justamente dentro desse inquérito que Moraes apresentou um pedido para que André Mendonça fosse investigado.
A origem do pedido está no conflito provocado por um relatório da Polícia Federal que mencionava Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mendonça, relator das investigações relacionadas ao banco, havia tornado públicos documentos que continham informações sobre a relação entre o ministro e o banqueiro.
Moraes reagiu utilizando o inquérito das fake news para pedir uma investigação contra Mendonça por possíveis crimes como abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.
Na decisão, Fachin aponta que o próprio Moraes, que aparece no centro da controvérsia, passou a utilizar um inquérito sob sua relatoria para pedir investigação contra outro integrante da Corte.
Fachin retirou esse pedido do inquérito e determinou que ele passasse a tramitar em procedimento próprio, sob a Presidência do Supremo.
Na sequência, assumiu a relatoria do próprio inquérito das fake news.
Na prática, Moraes deixa de comandar uma investigação que se tornou parte do conflito interno da Corte. Fachin passa a concentrar a condução do processo e deverá avaliar seus desdobramentos, inclusive a possibilidade de encerramento da investigação.
Os atos praticados anteriormente por Moraes, entretanto, não foram automaticamente anulados. A decisão de Fachin preserva a validade dos atos processuais já realizados.
A mudança é, portanto, principalmente institucional e de competência: a investigação deixa de estar sob o controle de um dos protagonistas da crise.
Leia a íntegra da decisão de Fachin que tirou Moraes do inquérito das Fake News
Fachin interrompe o embate entre Mendonça e Dino sobre a PF
A segunda decisão de Fachin foi provocada por uma verdadeira sucessão de decisões monocráticas.
Na terça-feira (8), André Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal e também do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.
Mendonça é o relator de processos relacionados às investigações envolvendo o Banco Master.
A decisão veio depois de o ministro Alexandre de Moraes ter apresentado elementos da PF para sustentar o pedido de investigação contra Mendonça. Relatórios utilizados por Moraes foram questionado pelo próprio Mendonça, que considerou inadequada sua utilização.
No dia seguinte, Flávio Dino tomou uma decisão em sentido contrário.
Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada aos cargos. O ministro argumentou que o afastamento poderia comprometer a continuidade de investigações da Polícia Federal.
A consequência foi um choque direto de decisões dentro do próprio STF: Mendonça afasta os dirigentes da PF, Dino os reintegra, e Fachin suspende os dois atos.
Ao suspender as decisões, Fachin evitou escolher, naquele momento, entre Mendonça e Dino.
Com isso, Andrei Rodrigues permanece no comando da Polícia Federal, mas não porque a decisão de Mendonça foi considerada definitivamente inválida ou porque a decisão de Dino foi definitivamente confirmada. As duas determinações ficam suspensas até que a questão seja analisada pela instância competente.
Fachin classificou a situação como uma ameaça à ordem institucional provocada pela existência de decisões conflitantes sobre os mesmos fatos e autoridades.
Leia a integra da decisão que suspendeu as decisões de Mendonça e Dino
Fachin leva ao Plenário o caso sobre Moraes e Vorcaro
A terceira frente é a mais sensível politicamente. O presidente do STF marcou para 15 de setembro, às 10h, uma sessão extraordinária do Plenário para analisar o caso relacionado ao relatório da Polícia Federal que aponta troca de mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
Vorcaro é o ex-controlador do Banco Master, instituição que se tornou alvo de investigações da Polícia Federal.
O relatório ganhou importância depois que André Mendonça retirou o sigilo de documentos relacionados ao caso. Entre os materiais estavam mensagens atribuídas a Vorcaro e Moraes.
O episódio provocou uma reação em cadeia. Mendonça passou a analisar elementos envolvendo Moraes. Moraes, por sua vez, pediu investigação contra Mendonça. Esse pedido foi apresentado dentro do inquérito das fake news, que estava sob a própria relatoria de Moraes.
Fachin então retirou o pedido do âmbito do inquérito e determinou sua tramitação separada.
Agora, a discussão sobre os elementos que envolvem Moraes será submetida ao colegiado.
O presidente do STF também determinou que o procedimento envolvendo essas acusações fique suspenso até a análise do Plenário.
Assim, a questão deixa de ser resolvida exclusivamente por decisões individuais e passa a ser submetida aos 11 ministros da Corte.
Leia a íntegra da decisão de Fachin que levou o caso ao Plenário do STF
Uma crise que começou com Moraes e Mendonça e chegou à PF
A sequência dos acontecimentos ajuda a entender a dimensão do problema.
O primeiro movimento veio de Mendonça, que abriu sigilo sobre a investigação do caso Master envolvendo Moraes.
Em seguida, Moraes pediu investigação de Mendonça usando o inquérito das fake news.
O ato provocou nova reação de Mendonça, que passou a questionar a atuação relacionada aos elementos da PF que mencionavam Moraes e determinou o afastamento de dirigentes da corporação.
Em resposta Dino reintegrou os dirigentes afastados.
A intervenção de Fachin, que suspendeu as decisões conflitantes e assumiu a condução do inquérito das fake news, busca acalmar os ânimos na corte.
A sucessão mostra que o problema deixou de ser apenas uma divergência entre dois ministros.
A disputa passou a envolver o funcionamento da Polícia Federal, a validade de procedimentos de investigação, a atuação da PGR e a própria distribuição de competência dentro do Supremo.
É nesse contexto que Fachin determinou ainda que novas apurações envolvendo ministros da Corte passem previamente pela Presidência do STF, justamente para evitar que diferentes gabinetes adotem decisões sobre fatos ou autoridades coincidentes.
O que está em jogo
A intervenção de Fachin não significa, por si só, que o STF tenha concluído que Moraes, Mendonça ou Dino cometeram alguma irregularidade.
O presidente da Corte deixou claro que as providências adotadas têm caráter de organização e instrução processual e não representam antecipação de julgamento sobre a existência de ilícitos ou sobre o mérito das acusações.
um dos despachos de Fachin determina a coleta de manifestações da Procuradoria-Geral da República e dos ministros envolvidos antes de qualquer conclusão.
No procedimento autuado como Petição 16.704, por exemplo, a Presidência da corte determinou a complementação da instrução e deu prazo de cinco dias úteis para manifestação da PGR e de André Mendonça. O próprio despacho ressalva que não há antecipação de juízo sobre a admissibilidade, a regularidade do procedimento ou o mérito das imputações.
Portanto, a questão que chegará ao Plenário no dia 15 não é uma sentença contra Moraes. Mas, a decisão sobre como o próprio Supremo deverá tratar uma investigação que envolve um de seus ministros e que desencadeou uma guerra de decisões entre integrantes da Corte.
A mudança de eixo
A importância das decisões de Fachin está menos em qualquer resultado imediato e mais na mudança do eixo da crise.
Fachin tenta recolocar a Presidência e o Plenário no centro da arbitragem.
É uma tentativa de impedir que a crise continue sendo resolvida por uma sucessão de decisões monocráticas potencialmente incompatíveis.
O resultado concreto ainda está por vir.
Na terça-feira (15), os 11 ministros terão de enfrentar o ponto mais delicado da crise: o que fazer com as informações da PF que colocaram Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro no centro da disputa e que desencadearam o confronto entre os próprios integrantes do STF.

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