Em nota em que anuncia a operação Make Up, que investiga o financiamento do filme Dark Horse e mira o deputado federal Mário Frias e a produtora Karina, a Polícia Federal aponta “a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados”.
“As tentativas de dissimular os desvios teriam se estendidos até julho deste ano”, segue a PF, que investiga o desvio de emendas parlamentares para financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro.
A operação tem como objetivo “apurar suposto desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares repassadas, por meio de termo de fomento, a organização da sociedade civil”. Estão sendo cumpridos 49 mandados de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal.
Segundo a PF, “levantamentos financeiros identificaram, ainda, movimentação da ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas que integram o esquema investigado”.
Estão sendo investigados os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
Operação ‘Make Up’: PF mira desvio de verbas públicas para filme ‘Dark Horse’
A Operação Make Up foi deflagrada conjuntamente pela PF e pela CGU com base em inquérito que tramitava em São Paulo e foi avocado para o STF. Os 49 mandados de busca e apreensão, autorizados por Flávio Dino, alcançaram endereços em quatro unidades da federação. Mario Frias, que foi secretário de Cultura do governo Bolsonaro, e Karina Gama, produtora do filme, figuram entre os alvos centrais da ação, ao lado de outras 20 pessoas.
O foco da investigação é um suposto esquema em que uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, teria direcionado recursos repassados a uma organização da sociedade civil para empresas subcontratadas irregularmente, sem comprovação de que os serviços foram efetivamente prestados.
Segundo a PF, foram identificadas movimentações de centenas de milhões de reais entre as empresas ligadas ao esquema, e as tentativas de ocultar os desvios teriam continuado até julho deste ano. Os crimes investigados incluem peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios. O uso de emendas parlamentares como veículo do suposto desvio coloca a investigação no centro do debate sobre o controle e a transparência desse mecanismo orçamentário.
“As investigações apontam a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados. As tentativas de dissimular os desvios teriam se estendidos até julho deste ano”, diz nota divulgada pela PF.
As duas frentes de investigação no STF
O financiamento de Dark Horse é objeto de duas investigações distintas no Supremo Tribunal Federal, com relatores e focos diferentes. A Operação Make Up desta quinta-feira é desdobramento do inquérito sob relatoria do ministro Flávio Dino, que se concentra no possível uso irregular de emendas parlamentares e dinheiro público que chegou a entidades e empresas ligadas à produtora do filme.
A segunda investigação, sob relatoria do ministro André Mendonça, percorre outro caminho: examina os repasses feitos pelo ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, a pedido de Flávio Bolsonaro, e o trajeto percorrido por esse dinheiro. As duas frentes são complementares na compreensão do esquema, mas juridicamente independentes. Enquanto a investigação de Dino mira o fluxo de recursos públicos via emendas, a de Mendonça debruça-se sobre o financiamento privado de origem investigada, o que sugere que o filme teria sido bancado por ao menos duas fontes distintas, ambas agora sob escrutínio judicial.
Delação premiada e os repasses de Daniel Vorcaro
Na véspera da operação, na quarta-feira (9), o ministro André Mendonça homologou a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos. O acordo foi assinado com a Procuradoria-Geral da República em 8 de agosto. Em seu depoimento, Mineiro afirmou ser responsável por “gerar” dinheiro vivo para a equipe de Daniel Vorcaro, destinado a pagamentos de propina. Ele também declarou ter realizado sete repasses, a título de “subscrições de cotas”, para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, totalizando US$ 12,333 milhões, equivalentes a R$ 62,8 milhões pela cotação de setembro de 2025.
Segundo a delação, esses repasses foram feitos a mando de Vorcaro, após pedido de Flávio Bolsonaro para financiar o filme. A conexão entre o ex-banqueiro e a família Bolsonaro havia sido revelada pelo Intercept Brasil em maio, quando o veículo publicou uma troca de mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro cobrava dinheiro de Vorcaro para a produção. De acordo com a reportagem do Intercept, o dinheiro foi transferido para um fundo nos Estados Unidos administrado por um advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. A delação de Mineiro, agora homologada, fornece à investigação de André Mendonça um relato interno sobre o funcionamento desse fluxo financeiro.
Dark Horse: PF fala em “organização criminosa” que atuou até julho deste ano em ação contra Mário Frias
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