A saúde pública brasileira atravessou transformações profundas entre os governos de Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No centro desse período está a pandemia de Covid-19, que atingiu o mundo inteiro, pressionou sistemas de saúde e provocou milhões de mortes.
No Brasil, porém, o impacto da crise sanitária não pode ser analisado apenas como consequência de um fenômeno mundial. A condução do governo federal durante a emergência foi marcada por conflitos com autoridades sanitárias, críticas de Bolsonaro às medidas de distanciamento social, defesa pública de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e sucessivas mudanças no comando do Ministério da Saúde.
Com a mudança de governo e em outro cenário epidemiológico, áreas como vacinação, presença de médicos, acesso a medicamentos e realização de procedimentos passaram a registrar avanços importantes.
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Pandemia expôs crise no comando da Saúde
Em 2020, quando o coronavírus avançava pelo país, o Ministério da Saúde trocou de comando duas vezes em apenas um mês.
Luiz Henrique Mandetta deixou a pasta em abril após divergências com Bolsonaro sobre a resposta à pandemia. O então ministro defendia medidas de distanciamento recomendadas pelas autoridades sanitárias e resistia à adoção da cloroquina como tratamento contra a Covid-19 sem respaldo científico.
Nelson Teich assumiu em seguida, mas permaneceu menos de um mês. Ele também divergiu do presidente sobre a cloroquina e afirmou posteriormente à CPI da Pandemia que deixou o governo por falta de autonomia.
Com sua saída, o general Eduardo Pazuello assumiu interinamente o Ministério da Saúde em maio e só foi efetivado em setembro. O país atravessou, portanto, cerca de quatro meses da emergência sanitária com a pasta sob comando interino.
Foi nesse período que o Ministério da Saúde ampliou a orientação sobre o uso da cloroquina para incluir pacientes com sintomas leves. Pazuello negou posteriormente que a medida representasse incentivo ao medicamento e afirmou à CPI que a pasta apenas orientava médicos sobre a prescrição fora da bula.
A política, entretanto, caminhava na direção defendida publicamente por Bolsonaro. O então presidente fez repetidas manifestações favoráveis à cloroquina, enquanto estudos científicos demonstraram que o medicamento nunca foi eficaz no tratamento da Covid-19.
O distanciamento social foi outro ponto de conflito durante a crise.
Enquanto autoridades sanitárias, incluindo a Fiocruz, defendiam a redução do contato social como instrumento para conter a transmissão do coronavírus e evitar a sobrecarga dos hospitais, Bolsonaro fez críticas públicas às restrições adotadas por governadores e prefeitos.
O embate ganhou dimensão nacional em março de 2020, quando o presidente criticou as medidas de distanciamento em pronunciamento à população. Bolsonaro também participou e promoveu aglomerações durante a pandemia, episódios posteriormente abordados pela CPI instalada no Senado.
A comissão investigou ainda o chamado “tratamento precoce”, a atuação de grupos de aconselhamento paralelos ao Ministério da Saúde, as negociações para compra de vacinas e o colapso do sistema de saúde em Manaus.
Em seu relatório final, a CPI recomendou o indiciamento de Bolsonaro e de integrantes de seu governo por diferentes crimes relacionados à condução da pandemia. As recomendações da comissão, é importante ressaltar, não representam condenações judiciais.
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Pandemia derrubou expectativa de vida
A crise sanitária deixou marcas profundas nos indicadores brasileiros.
A expectativa de vida, que estava em 76,2 anos em 2019, caiu para 72,8 anos em 2021, segundo o IBGE. Em 2022, iniciou uma recuperação e chegou a 75,5 anos.
A emergência sanitária também represou consultas, exames e cirurgias e dificultou a vacinação infantil, agravando problemas que já existiam antes da chegada do coronavírus.
Governo Lula: Vacinação recupera cobertura
A partir de 2023, o Ministério da Saúde adotou novas estratégias para recuperar a vacinação infantil.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Unicef mostram que cerca de 360 mil crianças brasileiras não haviam recebido a primeira dose da pentavalente em 2023. Em 2025, eram aproximadamente 50 mil, redução próxima de 90% em dois anos.
O Brasil também deixou a lista das 20 nações com maior número de crianças sem nenhuma dose desse imunizante.
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Mais Médicos quase dobra em três anos
A retomada do Mais Médicos é uma das mudanças mais expressivas do período. Ao final de 2025, o programa reunia 27,4 mil profissionais, 97% a mais que em 2022. Segundo o Ministério da Saúde, 60% atuavam em municípios classificados entre média e altíssima vulnerabilidade.
A expansão também alcançou territórios indígenas. Nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), o número de profissionais passou de 325 em 2022 para 693 em 2025, mais que o dobro em três anos.
A presença de mais médicos, sozinha, não resolve os problemas da atenção básica, que também depende de infraestrutura, exames, equipes completas e capacidade das redes locais. Ainda assim, os números mostram uma forte expansão do programa durante o governo Lula.
Farmácia Popular amplia acesso e gratuidade
O Farmácia Popular também foi ampliado a partir de 2023. O governo estendeu a gratuidade aos beneficiários do Bolsa Família, retomou credenciamentos e incorporou novos medicamentos gratuitos. A rede também passou a distribuir absorventes dentro das ações de dignidade menstrual.
Em 2024, 24,07 milhões de brasileiros utilizaram o programa, 15% a mais que em 2022. No ano seguinte, o governo acabou com o copagamento dos itens que ainda não eram integralmente gratuitos, fazendo com que todo o elenco de medicamentos e insumos contemplado pelo programa passasse a ser oferecido gratuitamente aos beneficiários que atendem aos critérios.
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Cirurgias aumentam, mas filas permanecem
A pandemia também deixou uma grande demanda reprimida por consultas, exames e cirurgias, um dos principais desafios encontrados pelo SUS nos anos seguintes.
Segundo o Ministério da Saúde, as cirurgias eletivas realizadas pelo sistema cresceram cerca de 40% entre 2022 e 2025, enquanto consultas e exames especializados avançaram aproximadamente 26%.
O aumento dos procedimentos, porém, ainda não foi suficiente para resolver as filas. O tempo de espera continua sendo um dos principais gargalos do SUS e varia significativamente entre estados, municípios e especialidades.
O que os números mostram sobre Lula e Bolsonaro?
Os indicadores revelam dois momentos bastante diferentes da saúde pública brasileira. Entre 2019 e 2022, o SUS enfrentou a maior emergência sanitária de sua história recente. A dimensão mundial da Covid-19, não apaga as escolhas feitas dentro do país: a resposta do governo Bolsonaro foi marcada pela instabilidade no Ministério da Saúde, pelos embates em torno do distanciamento social e pela defesa presidencial de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença.
Sob Lula, o SUS entrou em uma trajetória de recuperação e expansão de políticas públicas. A vacinação voltou a avançar, o Mais Médicos praticamente dobrou de tamanho, a Farmácia Popular ampliou o acesso gratuito a medicamentos e a realização de procedimentos especializados cresceu.
Lula vs Bolsonaro: compare os indicadores da saúde pública nos dois governos
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