“Você é foda, barrou a maluca na festa”. A frase foi enviada a Daniel Vorcaro por Felipe Mourão, o “Sicário”, apontado pela Polícia Federal como o executor das ordens do banqueiro e responsável por coordenar a chamada “turma”, estrutura que, segundo a investigação, atuava em monitoramentos, retirada de conteúdos, ataques hackers, coação e outras ações no ambiente digital.
A conversa, agora exposta entre os documentos do caso Banco Master liberados após a decisão de Edson Fachin pelo levantamento do sigilo de parte da investigação, revela um episódio até então escondido nos autos: uma mulher que estava sendo monitorada por Mourão teria sido barrada em uma festa particular de Vorcaro. O banqueiro, porém, responde que não sabia do episódio e afirma que ela era sua amiga.
A mensagem é parte de uma conversa na qual Vorcaro demonstra preocupação com o que a mulher poderia publicar a seu respeito. Mourão havia sido acionado para levantar informações sobre ela e acompanhar suas movimentações.
Depois de receber dados sobre a mulher, Vorcaro orienta Mourão a encaminhar qualquer publicação que pudesse sair “da esfera”. É nesse momento que o “Sicário” faz a referência à festa. “Você é foda, barrou a maluca na festa”. Vorcaro responde: “nem sabia, ela é doida, é amiga minha”.
O trecho é especialmente significativo porque mostra a festa inserida em uma conversa de monitoramento de uma pessoa que poderia produzir conteúdo sobre o banqueiro. O documento não esclarece quem determinou que ela fosse barrada nem em que circunstâncias a proibição ocorreu.
Na página seguinte, porém, a Polícia Federal reproduz uma publicação da mulher, identificada no relatório como Val Drummond. Segundo a descrição dos investigadores, ela relatou ter sido agredida verbalmente e ameaçada.
A sequência das mensagens é reveladora. Primeiro, Vorcaro demonstra interesse em saber quem era a mulher e o que ela poderia publicar. Depois, Mourão informa que estava monitorando seus movimentos. Em seguida, surge a informação de que ela havia sido barrada na festa. Na documentação analisada pela PF, aparece ainda o relato da própria mulher sobre o episódio.
A festa de Vorcaro
A festa volta a aparecer na página 68 do documento, desta vez acompanhada de imagens. A Polícia Federal afirma que, “ao que tudo indica”, uma publicação enviada por Vorcaro a Mourão se refere a uma festa particular realizada pelo banqueiro.
Os investigadores destacam a presença de artistas reconhecidos nacional e internacionalmente, citando Vintage Culture e Solomun, entre outros.
A imagem é importante porque permite visualizar o ambiente social em que ocorreu o episódio. Mas a identificação feita pela PF deve ser preservada com o mesmo grau de cautela utilizado pelos investigadores: o relatório fala em uma festa que seria, aparentemente, um evento particular de Vorcaro.
Não há, nesse trecho do documento, uma lista dos convidados nem uma afirmação da PF de que a realização da festa tenha, por si só, qualquer relação com os crimes investigados.
Quem é o “Sicário”
Felipe Mourão aparece ao longo do relatório como muito mais do que um interlocutor de Vorcaro. A PF afirma que ele atuava como “executor direto das determinações” do banqueiro, realizando monitoramentos, providenciando retirada de conteúdos e coordenando ações no ambiente digital.
Os investigadores também registram que Mourão recebia R$ 1 milhão por mês, ficando com parte do dinheiro e distribuindo o restante entre pessoas que trabalhavam para ele.
A expressão “Sicário” aparece de maneira particularmente explícita em outra conversa, envolvendo Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel. Ao discutirem providências contra dois antigos colaboradores do banqueiro, Zettel pergunta: “Sicário tem os nomes e onde achar?” Vorcaro responde: “Tem tudo. Já levantou tudo”.
Na mesma sequência, Vorcaro afirma que não seria possível deixar o alvo sozinho e combina com Zettel uma ação que envolveria Mourão.
Pouco depois, as conversas avançam para a ideia de colocar “pressão” sobre os antigos funcionários. Mourão afirma que poderia ir com Zettel ou chamar “o pessoal do Rio”. Vorcaro responde que o melhor seria utilizar os dois.
Em outro trecho, Vorcaro chega a discutir se seria melhor utilizar policiais ou pessoas ligadas ao jogo do bicho para intimidar um dos alvos. Mourão responde: “Vc quem manda me fala que eu vou com quem vc quiser”. A PF considera o conjunto dessas mensagens como parte dos indícios de atuação da organização liderada por Vorcaro.
A “turma” de Vorcaro
A palavra “turma” aparece repetidamente nas conversas analisadas pelos investigadores. Em alguns momentos, Mourão fala de pessoas que estariam à sua disposição para cumprir determinadas tarefas. Em outros, Vorcaro pede que a “turma” seja acionada.
No resumo final da análise, a PF atribui expressamente a Mourão a função de “coordenar a ‘turma’”. O relatório relaciona ao grupo atividades como monitoramento, coação, retirada de conteúdo, ataques hackers e articulação com criminosos.
É esse conjunto que permite descrever a estrutura como uma milícia digital de Daniel Vorcaro: uma rede operacional que, segundo os elementos reunidos pela PF, não se limitava a produzir conteúdo favorável ao banqueiro, mas também atuava para monitorar adversários, retirar publicações e exercer pressão sobre pessoas consideradas problemáticas.
A própria PF afirma, em outro trecho, que a organização criminosa liderada por Vorcaro teria “tentáculos em diferentes órgãos públicos, incluindo MPF e PF”.
Uma festa no meio de uma estrutura de pressão
É nesse contexto que a frase de Mourão sobre a festa ganha peso. O evento, isoladamente, seria apenas uma celebração privada de um banqueiro que reuniu artistas conhecidos. Mas a festa aparece nos documentos justamente quando o “Sicário” e Vorcaro conversam sobre uma mulher que estava sendo monitorada e que, segundo Mourão, havia sido barrada no local.
Na página 67, aparece o relato posterior da mulher sobre agressões verbais e ameaças. Na página 68, a PF apresenta a imagem do que identifica, aparentemente, como a festa particular de Vorcaro.
São três páginas que, juntas, formam uma pequena história dentro do gigantesco conjunto de mensagens extraídas do celular do banqueiro: a festa, a mulher monitorada e o homem que aparece no relatório como o operador da estrutura de Vorcaro.
A apuração sobre o evento, no entanto, ainda pode avançar. As imagens e as mensagens permitem buscar a data, o local, os demais convidados e as relações mantidas por Vorcaro com os participantes. Isso pode ser cruzado com as outras peças da investigação do Banco Master que vêm sendo disponibilizadas após o levantamento do sigilo.
Por enquanto, o que o documento revela é suficiente para colocar a festa em uma posição bem diferente de uma simples nota social: ela aparece nas mensagens do banqueiro no exato momento em que seu “Sicário” monitorava uma mulher e dizia a Vorcaro que ela havia sido barrada no evento.
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