O que Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury propõem para as mulheres nos seus planos de governo

O que Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury propõem para as mulheres nos seus planos de governo
- Participação das mulheres nos espaços de poder aparece muito menos nos planos do que temas como violência,...

As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros, mas quais propostas os candidatos à Presidência têm para enfrentar problemas que afetam diretamente a vida delas? Uma análise dos planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Augusto Cury (Avante) mostra diferentes caminhos para temas como violência, saúde, autonomia econômica e políticas de cuidado.
É possível consultar e comparar propostas em página do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Os três aparecem entre os candidatos mais bem colocados na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 10 de setembro. Lula lidera a disputa, com 43% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 37,4%. Augusto Cury aparece com 6,6%. O levantamento ouviu 5 mil eleitores entre 4 e 9 de setembro e foi registrado no TSE sob o número BR-01452/2026.
A comparação dos programas ganha contexto a partir de um levantamento do Instituto Update, que analisou 12 planos de governo e identificou quatro temas centrais nas propostas dirigidas às mulheres: violência, saúde, autonomia econômica e cuidado.
A pesquisa também apontou que assuntos como participação política feminina, presença das mulheres em espaços de poder e segurança no ambiente público aparecem com menos frequência.
O enfrentamento da violência é o ponto de maior convergência entre os programas. Segundo o Instituto Update, nove dos 12 planos analisados apresentam propostas explícitas sobre violência contra mulheres, feminicídio ou proteção às vítimas.
O que Lula propõe no combate à violência contra as mulheres?
No plano de Lula, a proposta é ampliar e fortalecer políticas que já existem, com medidas como a expansão das Casas da Mulher Brasileira e dos Centros de Referência, das Salas Lilás e da rede de proteção.
O programa também prevê aprimorar o monitoramento de agressores e fortalecer a articulação entre segurança, Justiça, saúde e assistência social.
O que Flávio Bolsonaro propõe no combate à violência contra as mulheres?
Flávio Bolsonaro apresenta um programa chamado Brasil por Elas, que prevê uma Central da Mulher para acolhimento e orientação jurídica e psicológica, além do programa Casa Segura e do monitoramento de agressores submetidos a medidas protetivas.
O plano também defende a castração química de condenados por estupro e abuso de crianças.  A proposta, no entanto, é controversa.
Embora a castração química possa reduzir a libido, não há evidências sobre sua capacidade de prevenir a reincidência em crimes sexuais. A Rede Justiça Criminal também argumenta que a medida não enfrenta os fatores que estão na origem da violência sexual.
O que Augusto Cury propõe no combate à violência contra as mulheres?
Já Augusto Cury concentra as propostas no Programa Mulheres Vivas, que prevê integração entre segurança, Justiça, saúde e assistência social.
Entre as medidas estão um botão de pânico com geolocalização, monitoramento eletrônico de agressores, policiamento comunitário e visitas preventivas a mulheres em situação de risco.
A proposta é igualmente contestada, uma vez que o candidato aponta que o acionamento de drones pode ajudar a coibir a violência doméstica, conforme noticiado pela Fórum.
Especialistas questionaram a eficácia da medida, apontando que cerca de 70% dos casos de feminicídio ocorrem dentro de casas. Críticos também lembraram que muitas delegacias e cidades brasileiras não possuem estrutura para essa tecnologia, e o assunto chegou a virar meme.
O levantamento do Update chama atenção para uma dimensão menos presente nos programas: a insegurança que limita a circulação das mulheres pelas cidades.
Na pesquisa Mulheres, Polícia e Facções, realizada em 2026 pelo Instituto Update em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, 79% das mulheres disseram sentir medo ao sair à noite, enquanto 59% já deixaram de frequentar determinados lugares por insegurança e 31,4% deixaram de usar algum meio de transporte pelo mesmo motivo.
Segundo o instituto, apenas um dos 12 planos analisados relaciona explicitamente a segurança das mulheres à mobilidade e ao transporte urbano.
Trabalho, renda e autonomia
A autonomia econômica é outro tema recorrente. Sete dos 12 planos avaliados pelo Update, ou 58%, apresentam propostas específicas relacionadas a trabalho, renda, crédito, empreendedorismo ou independência econômica. Em cinco deles também aparece a questão da igualdade salarial.
O que Lula propõe para a renda das mulheres?
Lula propõe manter e ampliar políticas de igualdade salarial, além de medidas de qualificação profissional, incentivo ao empreendedorismo feminino e linhas de crédito voltadas às mulheres.
O programa também prevê ações para ampliar a participação feminina na ciência e na pesquisa.
O que Flávio Bolsonaro propõe para a renda das mulheres?
Flávio Bolsonaro sugere qualificação, crédito e inserção no mercado de trabalho. O plano Brasil por Elas prevê a chamada Escola Brasil por Elas, com cursos em áreas como inteligência artificial, programação, marketing digital, finanças e idiomas, além de um sistema nacional de vagas e intermediação de mão de obra.
O que Augusto Cury propõe para a renda das mulheres?
No programa de Cury, a autonomia econômica aparece associada principalmente às mulheres vítimas de violência. O candidato propõe prioridade para esse público em ações de qualificação, emprego e empreendedorismo, além de microcrédito, educação financeira e medidas relacionadas à igualdade salarial.
Saúde e cuidado
Na área da saúde, os planos também seguem caminhos diferentes.
O que Lula propõe para a saúde das mulheres?
Lula propõe ampliar ações de prevenção e tratamento de câncer de mama e colo do útero, além de medidas voltadas a endometriose, planejamento reprodutivo, saúde sexual, mortalidade materna e dignidade menstrual.
O que Flávio Bolsonaro propõe para a saúde das mulheres?
Flávio Bolsonaro apresenta o programa Saúde para Elas, com propostas para prevenção e acompanhamento de câncer, menopausa, gestação, endometriose e saúde bucal. O plano também prevê unidades móveis de atendimento e ações de prevenção.
O que Cury propõe propõe para a saúde das mulheres?
Para Cury, a saúde das mulheres aparece principalmente relacionada à saúde emocional.
O programa Mulheres Vivas propõe ações voltadas aos impactos psicológicos de padrões de beleza, comparação social, cyberbullying e outros fatores que podem afetar a autoestima e o bem-estar.
O que Lula, Cury e Bolsonaro falam sobre cuidado?
O cuidado, por sua vez, evidencia uma diferença importante entre os programas. O plano de Lula prevê o fortalecimento da Política Nacional de Cuidados, com a ampliação de serviços públicos e a divisão da responsabilidade pelo cuidado entre Estado, sociedade, homens e mulheres.
Flávio Bolsonaro propõe ampliar creches em período integral e criar um voucher-creche para situações em que não houver vaga na rede pública.
No caso de Cury, o cuidado não aparece com o mesmo grau de detalhamento encontrado nos programas de Lula e Flávio. O eixo dedicado às mulheres está mais concentrado em proteção, autonomia econômica e saúde emocional.
Mulheres no poder
Há ainda um ponto em que os programas são menos abrangentes: a participação das mulheres nos espaços de decisão.
O Instituto Update identificou que apenas um dos 12 planos analisados apresenta uma proposta específica para ampliar a participação político-eleitoral feminina, enquanto um segundo candidato passa a contemplar o tema quando o critério é ampliado para a presença de mulheres em espaços de liderança e decisão.
No programa de Cury, por exemplo, há o compromisso de priorizar mulheres qualificadas nas indicações para vagas no Supremo Tribunal Federal, mas não aparece um conjunto específico de medidas para ampliar a participação feminina nas eleições ou nos partidos.
A análise do Instituto Update aponta justamente essa diferença: as mulheres aparecem com mais frequência como destinatárias de políticas públicas do que como participantes dos espaços de decisão.
A comparação dos três programas mostra, portanto, que há propostas para problemas que fazem parte do cotidiano das brasileiras, mas os caminhos escolhidos variam.

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