Mensagem de Eduardo Bolsonaro sobre dinheiro de “Dark Horse” leva à abertura de inquérito

Mensagem de Eduardo Bolsonaro sobre dinheiro de “Dark Horse” leva à abertura de inquérito
- Eduardo Bolsonaro - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A Procuradoria-Geral da República (PGR) obteve a abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL).
Documentos da PGR, elaborados com base em investigações da Polícia Federal (PF), apontam que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro orientou a gestão e a remessa de recursos nos Estados Unidos para a produção.
Em mensagem capturada pelos investigadores, o filho do ex-presidente afirmou que o envio de dinheiro do Brasil seria “problemático” e que “o ideal seria haver os recursos já nos EUA”.
O parecer do procurador-geral, Paulo Gonet, datado de julho de 2026, embasou a decisão do ministro Edson Fachin de instaurar o inquérito, cujo sigilo foi levantado na noite desta quinta-feira (10).
Na mensagem, segundo documentos da PGR e da PF, Eduardo Bolsonaro é explícito sobre os riscos de uma transferência a partir do Brasil: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos”.
Em seguida, o ex-deputado sugere “enviar o máximo possível ainda neste sistema atual” e coloca um operador à disposição para reuniões presenciais: Altieris Santana, identificado na apuração como diretor do Havengate Development Fund, fundo de investimento sediado no Texas, responsável por administrar os valores e repassá-los à produtora Go Up Entertainment.
A PGR não especifica quem era o destinatário direto da mensagem, mas informações dão conta de que Eduardo teria encaminhado a mensagem ao publicitário Thiago Miranda, descrito como ponte entre ele e o banqueiro Daniel Vorcaro.
A preocupação expressa por Eduardo Bolsonaro com a origem e o trajeto dos recursos, segundo a leitura da PGR, reforça a hipótese de que a estrutura montada buscava opacidade na movimentação dos valores.
A manifestação da Procuradoria afirma que “a autoridade policial levanta a hipótese de que Eduardo Bolsonaro orientou a gestão dos recursos em solo estrangeiro”, tratando as mensagens como indício relevante de participação ativa no esquema financeiro.
Suspeitas da PF
A trama financeira por trás do Dark Horse começou a tomar forma em dezembro de 2024, quando o publicitário Thiago Miranda enviou ao banqueiro Daniel Vorcaro uma minuta intitulada “Acordo de Financiamento de Produção ‘Capitão do Povo'” (nome anterior do filme), prevendo um investimento total de US$ 24 milhões divididos em 14 parcelas.
Em 2025, remessas internacionais que somaram US$ 12,3 milhões foram realizadas pela empresa Entre Investimentos, pertencente a Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”.
A PGR apontou que as coincidências entre os valores previstos no contrato e as remessas identificadas constituem “indícios relevantes de que as pessoas jurídicas referidas foram utilizadas para operacionalizar aportes ilícitos destinados ao filme”.
“Mineiro” firmou acordo de delação premiada com a PGR, homologado pelo ministro do STF, André Mendonça. Em seus depoimentos, segundo documentos da PGR, o empresário listou pagamentos ao fundo que financiou o filme, o uso de uma empresa nas Bahamas para repasses a mando do banqueiro Daniel Vorcaro e a compra de malas destinadas exclusivamente à entrega de dinheiro vivo.
A Polícia Federal foi ainda mais direta na avaliação do conjunto: o montante previsto para a produção era, nas palavras da própria PF, “significativamente destoante dos referenciais disponíveis do mercado audiovisual nacional”, o que levantou a suspeita de que os recursos pudessem ter finalidades além da cinematográfica. A PGR adotou o termo “aporte ilícito” para qualificar os repasses de Vorcaro ao projeto.
Envolvimento de outros atores
O inquérito aberto pelo ministro Edson Fachin não se limita a Eduardo Bolsonaro. O processo apura também o possível envolvimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, nos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
A manifestação da PGR, segundo documento oficial, destacou que Flávio Bolsonaro chegou a conversar com Daniel Vorcaro um dia antes de o banqueiro ser preso pela primeira vez, em 17 de novembro de 2025. Na mensagem enviada por Vorcaro ao senador, o ex-banqueiro escreveu:
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
A PGR pediu que seja elaborada uma lista de propostas legislativas “apresentadas” ou “endossadas” por Flávio Bolsonaro para avaliar se o parlamentar atuou em favor do Master no Congresso Nacional.
A Procuradoria busca, nas próprias palavras do documento oficial, uma “lógica de causa e efeito no negócio cinematográfico”, ou seja, verificar se o engajamento legislativo do senador correspondeu a contrapartidas financeiras ligadas ao esquema de financiamento do filme. Tanto Flávio Bolsonaro quanto Eduardo Bolsonaro negam qualquer irregularidade.
Eduardo Bolsonaro mora nos EUA desde março de 2025 e, segundo a PGR, vem articulando ações junto à Casa Branca para pressionar o STF a alterar as condições de custódia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

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