A Polícia Federal identificou uma atuação articulada entre o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), a advogada Mariângela Fialek e Valéria Rodrigues Linhares, classificada como mulher do parlamentar, para atuar em processos no Supremo Tribunal Federal (STF). Mariângela, que ocupou o cargo de assessora técnica no gabinete do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), aparece nas mensagens como responsável por encaminhar processos, memoriais e informações a Cezinha. Segundo a investigação, cabia ao deputado fazer a interlocução pessoal com ministros de tribunais superiores.
Aliado de Flávio Bolsonaro (PL), Cezinha de Madureira foi alvo da operação Operação Transparência 3, desencadeada pela PF na manhã desta segunda-feira (14) que investiga o grupo ligado ao deputado por “influência junto a tribunais superiores” e “pagamento de valores expressivos” em “possíveis práticas dos crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro”.
Cezinha da Madureira foi o interlocutor de André Mendonça no agendamento do encontro do ministro, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), com o banqueiro Daniel Vorcaro na sede do Instituto Iter, em São Paulo, no dia 14 de março de 2025.
A estrutura descrita pela PF, exposta na decisão de Dino que deu aval à operação, aparece de forma explícita no caso da Reclamação 79.545, relacionada à prefeita de Beberibe (CE), Michele Cariello de Sá Queiroz Rocha. O processo tinha como objetivo anular uma investigação conduzida pelo Ministério Público do Ceará. Para acompanhar a ação, foi firmado contrato de R$ 500 mil, com pagamento condicionado ao julgamento da reclamação.
Em outro processo, a investigação encontrou instrumentos que previam R$ 1 milhão para a sociedade de advocacia de Valéria Rodrigues Linhares e outros R$ 2 milhões em honorários de êxito, condicionados à obtenção da liberdade do cliente. São R$ 3 milhões previstos em contratos relacionados à mesma reclamação.
A decisão do ministro Flávio Dino descreve o funcionamento que os investigadores atribuem ao grupo: Mariângela captava e formalizava as causas e preparava os memoriais; Valéria elaborava e revisava contratos e acompanhava o andamento dos processos; e Cezinha seria responsável pelo contato pessoal com ministros.
Beberibe: “Vc despachou?”; “Despachei sim”
O caso da prefeita de Beberibe é um dos principais episódios descritos na decisão de Dino.
Em 15 de maio de 2025, Mariângela encaminhou a Cezinha o andamento processual e a petição inicial da Rcl 79.545. Pouco depois, Valéria informou que estava acompanhando o caso. Em seguida, aparece um contrato de prestação de serviços de consultoria jurídica e advocacia para o acompanhamento da reclamação no STF, com remuneração de R$ 500 mil a ser paga após o julgamento da ação.
Em 18 de junho, Mariângela enviou a Cezinha uma certidão do STF informando que determinadas informações não haviam sido recebidas e perguntou: “Não mandaram informações. Vc despachou?”
Cezinha respondeu: “Despachei sim / Ontem”.
Dias depois, Valéria voltou a cobrar informações sobre o andamento. Em 23 de junho, ela escreveu que o assunto havia sido “reforçado” e que alguém havia “ligado e falado direto”. No dia seguinte, informou que a reclamação de Beberibe estava conclusa para o ministro Nunes Marques.
O episódio é usado pela investigação para sustentar a hipótese de que a atuação de Cezinha não se limitava ao encaminhamento de documentos.
“Vou pedi a ele”: Cezinha relata contato com Kassio
Em outro diálogo, Mariângela encaminha a Cezinha memoriais relacionados a processos no STF. O deputado afirma que seria recebido às 16h. Questionado se estaria com o ministro Kassio Nunes Marques, Cezinha responde que aquele era o assunto e afirma: “Já falei ontem com Andre e Antonio Carlos sobre esse tema.”
Na sequência, diz que havia pedido para ser recebido e que o ministro havia marcado uma conversa por vídeo. Cezinha acrescenta que iria “pedir” ao ministro e que havia avisado “aquela pessoa” que tinha um tema para tratar com ele, faltando apenas enviar o número de telefone.
É justamente esse trecho que ganha peso na decisão. Para Dino, as expressões usadas indicam, em análise preliminar, que Cezinha não estaria apenas entregando memoriais, mas se comprometendo a fazer um pedido pessoal e direto ao julgador.
A mensagem sobre “aquela pessoa” também chamou a atenção dos investigadores. A decisão afirma que a identidade desse terceiro dependeria do acesso aos dispositivos eletrônicos do parlamentar.
De Nunes Marques a Mendonça e Gilmar: o mesmo caso levado a vários ministros
A investigação encontrou ainda três memoriais relativos à Rcl 76.831 nominalmente destinados a ministros diferentes do STF.
Em 18 de junho de 2025, Mariângela enviou a Cezinha arquivos intitulados “Memorial Rcl 76831 – Min. Nunes Marques.pdf”, “Memorial Rcl 76831 – Min. André Mendonça.pdf” e “Memorial Rcl 76831 – Min. Gilmar Mendes.pdf”. Na mesma conversa, ela ainda faz referência a Fachin.
O conjunto dos diálogos levou a PF a descrever uma divisão de funções. Segundo a investigação, Mariângela encaminhava as peças e cobrava resultados; Cezinha dizia que havia “falado”, “despachado” ou “pedido” e comunicava quando seria recebido por ministros; enquanto os contratos de honorários estabeleciam pagamentos condicionados ao êxito das ações.
A decisão de Dino reproduz essa conclusão da Polícia Federal ao afirmar que os diálogos indicariam uma parceria entre Mariângela e Valéria para obter decisões favoráveis em processos no STF, contando com o auxílio de Cezinha.
R$ 3 milhões por uma decisão favorável
Um dos casos mais sensíveis envolve a Rcl 81.608, relatada por Nunes Marques. Em 16 de julho de 2025, Mariângela encaminhou a Valéria um contrato de cessão de crédito relacionado ao processo. O documento previa que a sociedade de advocacia da mulher de Cezinha receberia R$ 1 milhão dos honorários em caso de êxito.
No mesmo dia, outro contrato estabeleceu mais R$ 2 milhões em honorários de êxito, sendo considerado “sucesso” a concessão da liberdade ao cliente, ainda que acompanhada de medidas cautelares. O pagamento deveria ocorrer em até dez dias após o resultado.
O cliente era Denis de Souza Macedo, ex-secretário de Educação de Belford Roxo (RJ), preso em investigação da PF que apurava desvios superiores a R$ 112 milhões em recursos do Fundeb e do PNAE. A soma dos dois instrumentos chega a R$ 3 milhões.
A decisão, no entanto, não afirma que os R$ 3 milhões tenham sido efetivamente pagos, nem que o dinheiro tenha sido comprovadamente entregue para influenciar um ministro do STF. O que existe são contratos com remuneração condicionada ao êxito e mensagens que a investigação interpreta como indícios de atuação de Cezinha junto ao Supremo.
“Tu vais fazer mais um”: a conversa sobre a composição do STF
Em 16 de outubro de 2025, Mariângela encaminhou a Cezinha uma notícia sobre uma reunião que ele havia mantido com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o então advogado-geral da União, tratado no contexto da conversa como futuro indicado a uma vaga no Supremo.
A resposta de Mariângela foi: “Tu vais fazer mais um!”
A frase foi interpretada por Flávio Dino como um indício de que os envolvidos poderiam enxergar Cezinha como alguém com capacidade de influenciar a própria composição do STF.
A decisão não comprova que Cezinha tenha influenciado a nomeação de qualquer ministro do STF. Trata-se da interpretação feita pela investigação a partir do contexto dos diálogos.
O episódio, contudo, ganha relevância porque aparece na mesma investigação que reúne mensagens sobre contatos de Cezinha com ministros, memoriais destinados a diferentes integrantes da Corte e contratos com honorários condicionados ao resultado de processos.
PF busca descobrir até onde ia a rede de Cezinha
Para Dino, a apreensão dos dispositivos eletrônicos do deputado poderá esclarecer o alcance dessa atuação. Entre os pontos que a investigação pretende identificar estão quem era “aquela pessoa” mencionada por Cezinha, quais foram as conversas com “Andre e Antonio Carlos”, o conteúdo da conversa por vídeo com Nunes Marques e outros eventuais casos em que o parlamentar teria intermediado contatos com ministros.
A investigação também procura documentos, contratos, movimentações financeiras e mensagens apagadas que possam esclarecer se os episódios identificados nos celulares de Mariângela representam casos isolados ou parte de uma atuação mais ampla.
A decisão ressalta, entretanto, que os ministros citados nos diálogos não são investigados neste procedimento e que não havia, naquele momento, elementos demonstrando que integrantes do Judiciário tenham solicitado, recebido ou aceitado vantagem indevida.
O alvo da investigação é a suposta atuação de pessoas que apresentariam ou negociariam sua capacidade de acesso e influência perante integrantes dos tribunais superiores.
Leia a decisão de Flávio Dino na íntegra
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