Vorcaro diz não lembrar se mensagens eram destinadas a Moraes em depoimento à PF

Vorcaro diz não lembrar se mensagens eram destinadas a Moraes em depoimento à PF
- Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes - Foto: Mateus Bonomi /Folhapress

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, prestou depoimento à Polícia Federal em 28 de agosto e declarou não se lembrar do destinatário de mensagens que, segundo relatório da corporação divulgado pelo ministro André Mendonça, teriam sido enviadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A oitiva faz parte da investigação sobre a suposta articulação de Vorcaro com ex-diretores do Banco Central (BC) para impedir a liquidação do banco, decretada em novembro de 2025.
O depoimento ocorre em meio a uma disputa no plenário do STF sobre a validade do próprio documento que identifica Moraes como interlocutor do banqueiro.
Vorcaro diz não lembrar destinatário das mensagens
Sentado diante do delegado Albert Paulo Sérvio de Moura, Vorcaro foi confrontado com anotações encontradas em seu celular e atribuídas pela PF ao ministro Alexandre de Moraes.
A resposta do banqueiro se repetiu ao longo da oitiva: ele disse que não se recordava para quem havia enviado as mensagens e que, sem essa informação, preferia não especular sobre o conteúdo.
“Eu, de novo, notas assim eu não lembro quem é a pessoa. É muita interação, não me lembro qual é o contexto”, declarou.
Quando o delegado insistiu e perguntou quem eram as pessoas citadas nas anotações, Vorcaro condicionou qualquer resposta à identificação do destinatário.
“Eu teria que me recordar para quem foram as mensagens para eu saber se quem… Eu não quero fazer aqui inferência sem ter certeza. Eu posso depois responder oportunamente quando eu tiver certeza para não cometer erros”, afirmou.
Questionado mais uma vez, já com a observação de que as notas tinham formato de mensagem, o banqueiro voltou a dizer que não se lembrava.
“Não. Inclusive, se eu me recordar eu vou entender o contexto e o conteúdo de maneira mais efetiva.”
O depoimento foi a primeira vez que Vorcaro prestou oitiva formal à PF desde que voltou a ser preso, em março.
Durante a mesma sessão, sua defesa sinalizou interesse em negociar um acordo de colaboração premiada, indicando que eventuais relatos sobre outras pessoas envolvidas poderiam ocorrer nesse contexto.
Era a terceira tentativa da defesa de fechar esse tipo de acordo. As duas propostas anteriores foram rejeitadas pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que consideraram insuficientes os elementos apresentados.
https://x.com/GloboNews/status/2099578085783859231
Relatório reúne 52 anotações do celular de Vorcaro
O relatório que colocou o nome de Alexandre de Moraes no centro do caso reúne 52 anotações encontradas no celular de Vorcaro.
A partir da análise do conteúdo e da identificação dos interlocutores, os investigadores concluíram que Moraes era o destinatário de parte dos diálogos.
O documento foi tornado público pelo ministro André Mendonça e passou a ser um dos principais pontos da crise institucional instalada no STF.
Entre as anotações, uma datada de 30 de outubro de 2025 chama atenção pelo nível de detalhe. Ela menciona uma alteração de viagem para que Vorcaro pudesse encontrar Alexandre de Moraes e faz referência a apurações do Banco Central sobre o Banco Master.
A anotação também menciona informações informais e confidenciais obtidas de dentro do BC e o avanço de investigações da PF e do Ministério Público Federal.
Outras mensagens citam “G”, identificado pelos investigadores como Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, além de “Andrei” e “Paulo”, apontados no relatório como referências ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Sobre a letra “G”, Vorcaro chegou a admitir durante o depoimento que “provavelmente é Galípolo, o presidente”, mas manteve a versão de que não se lembrava do destinatário principal das mensagens.
“Eu estava falando com muitas pessoas sobre essa transação do banco, pessoas próximas a mim. Então isso aí, sem dúvidas, era referente à transação que tava para ser feita do banco com aquelas empresas que eu mencionei.”
Ao longo do depoimento, Vorcaro reconheceu, portanto, o tema geral das conversas, mas não confirmou com quem, especificamente, elas foram travadas.
Relatório provoca disputa dentro do STF
O depoimento de Vorcaro integra uma investigação que apura a suposta articulação do banqueiro com ex-diretores do Banco Central para tentar impedir a liquidação do Banco Master, decretada em novembro de 2025.
A hipótese investigada inclui o recebimento de informações privilegiadas de dentro do BC e o uso dessas informações para influenciar decisões regulatórias que afetavam diretamente o banco.
A divulgação do relatório da PF por André Mendonça, porém, abriu uma segunda frente de conflito, desta vez dentro do próprio Supremo.
O plenário passou a discutir a validade do documento. Uma das principais controvérsias é se Mendonça poderia ter determinado sozinho a elaboração de um relatório que envolve outro ministro da Corte.
A PGR entrou no debate defendendo a nulidade do documento. Caso o plenário acolha esse entendimento, a peça que sustenta a identificação de Moraes como destinatário das mensagens perderá validade formal.
O depoimento de Vorcaro, marcado pela repetição de que não se lembrava do destinatário das mensagens, não esclareceu esse ponto central da investigação.
 

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