Um eletricista de 64 anos afirmou que teve o nome usado durante sete anos como tesoureiro-geral do Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG comandada por Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, sem jamais ter exercido a função. As informações são do Intercept Brasil.
Jacio de Medeiros Dantas aparece em atas da entidade como tesoureiro entre 2014 e 2021, período em que o instituto recebeu recursos públicos e acumulou contratos com governos. Segundo o eletricista, porém, ele nunca participou da administração financeira da ONG, não assinou cheques e sequer tinha tempo para atuar na entidade.
Os documentos levantam dúvidas sobre quem de fato controlava as finanças do ICB. O instituto está no centro de investigações policiais e auditorias sobre recursos públicos e mantém um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo.
Eletricista nega ter atuado como tesoureiro do ICB
Jacio de Medeiros Dantas não conhece balanços financeiros, não assinou cheques nem presidiu reuniões da entidade. Eletricista autônomo, afirmou que permitiu que seu nome fosse colocado no Instituto Conhecer Brasil a pedido da mãe de Karina Gama.
Segundo Dantas, ela perguntou se ele poderia “ajudar” a empresária quando Karina montava uma ONG para um projeto de dança.
“Eu coloquei meu nome lá porque eu conhecia ela, mas faz tempo que eu não tenho contato com ela. Eu lembro que ela tinha que constituir a ONG e em cada função tinha que ter um nome. Aí ela pediu para colocar o meu nome para constar, eu acho que era tesoureiro, se não me engano”, disse Dantas à reportagem.
Nas atas do ICB, porém, o nome de Dantas aparece como tesoureiro-geral eleito em gestões consecutivas entre 2014 e 2021, além de secretário de assembleias.
Ao ser questionado, ele negou ter exercido a função.
“Não, nunca atuei como tesoureiro do ICB. Até porque eu tenho outro trabalho. Eu sou autônomo, trabalho na área elétrica. Eu não tinha tempo para fazer nada.”
Segundo documentos obtidos pelo Intercept Brasil, as assinaturas atribuídas a Dantas nas atas divergem entre si e também de outros registros públicos que não envolvem o instituto, o que levanta suspeitas sobre a autenticidade dos documentos.
O nome do eletricista também consta em listas de presença de assembleias das quais ele afirma não ter participado.
A função que Dantas diz nunca ter exercido é uma das mais sensíveis de uma entidade do terceiro setor. O tesoureiro-geral responde pelo controle do caixa, pagamentos, recebimentos e gestão dos recursos financeiros da organização.
O fato de o cargo ter sido formalmente ocupado por alguém que afirma desconhecer as operações da entidade levanta dúvidas sobre quem efetivamente controlava as finanças do ICB durante o período.
ICB acumula investigações e contratos milionários
Enquanto Dantas figurava como tesoureiro nos documentos, o ICB crescia e firmava contratos com o poder público.
Em 2024, a ONG fechou um acordo de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, na gestão de Ricardo Nunes (MDB), para a instalação de Wi-Fi público na capital, conforme revelou o Intercept Brasil.
O contrato é investigado pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de irregularidades.
A Polícia Federal também abriu investigação para apurar o desvio de recursos de emendas parlamentares destinadas ao ICB, incluindo R$ 2 milhões enviados pelo deputado federal Mario Frias (PL).
Paralelamente, uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU), também noticiada pelo Intercept Brasil, concluiu que o instituto desviou recursos do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (CN-Sesi) em sete estados e no Distrito Federal.
De um total de R$ 11 milhões recebidos pelo ICB, ao menos R$ 2,4 milhões foram superfaturados, segundo a CGU.
As apurações envolvem contratos e recursos distintos e tramitam em diferentes instâncias.
ONG tem conexões com produção de filme de Bolsonaro
Karina Ferreira da Gama comanda o ICB desde 2014, mesmo ano em que Dantas passou a figurar como tesoureiro nas atas da entidade.
Ela também é dona da produtora responsável por Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Outra ligação entre a ONG e o projeto cinematográfico envolve Mario Frias. O deputado federal, que destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao ICB, é roteirista e produtor-executivo do filme.
O período em que Dantas aparece como tesoureiro do instituto, entre 2014 e 2021, também coincide com o intervalo em que a CGU identificou desvios de recursos do Sesi pelo ICB.
Assim, durante os anos em que a ONG tinha formalmente como responsável financeiro um homem que afirma jamais ter exercido a função, o instituto recebeu recursos públicos e, segundo a auditoria federal, registrou irregularidades na aplicação de parte desses valores.
As circunstâncias envolvendo a administração do ICB, seus contratos públicos e as conexões de seus dirigentes permanecem sob apuração.
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