O ambiente no Supremo Tribunal Federal degringolou de vez. O que deveria ser um movimento articulado da ala conservadora da Corte para pulverizar o ministro Alexandre de Moraes converteu-se numa crise de desconfiança mútua e rupturas pessoais. No centro do terremoto está a relação entre os dois indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o STF: Kassio Nunes Marques e André Mendonça. A Fórum apurou que Kassio está profundamente furioso com o colega e que sua abrupta declaração de suspeição na sessão do Plenário nesta tarde (15) funcionou como uma reação calculada, e devastadora, de “troco”.
A movimentação de Kassio pegou o tribunal e o mundo político de surpresa. Aliado de primeira hora e peça considerada fundamental na estratégia traçada por Mendonça, Kassio havia votado em escassos minutos na Segunda Turma para respaldar as investidas contra Moraes. Contudo, ao chegar ao Plenário, o cenário mudou radicalmente. Apresentando um semblante visivelmente irritado e abatido, o ministro anunciou seu impedimento formal, sob a justificativa de presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e “sentir-se desconfortável” com a pauta, levantou-se e deixou a Corte imediatamente, sem acompanhar um minuto sequer do restante da deliberação.
O gesto desfalcou frontalmente o chamado “time Mendonça” no momento em que o ministro mais necessitava de sustentação política e votos no colegiado.
Desgaste com o escândalo Vorcaro e o foro íntimo
A origem da fúria de Kassio, apurou a Fórum, repousa no vazamento dos desdobramentos da investigação sobre o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro. Ao levantar os sigilos dos autos para estruturar a investida jurídica, a manobra acabou arrastando o próprio nome de Kassio para o centro dos holofotes e expôs seu núcleo familiar a constrangimentos severos.
Entre os elementos que vieram à tona nas apurações, o caso mais delicado envolve seu filho, Kevin Marques, citado em supostos repasses de mesadas de R$ 500 mil vinculados ao ex-banqueiro. Além disso, o vazamento trouxe à superfície um episódio de foro estritamente privado: a alegação de que o ministro teria tido uma viagem a Viena e um envolvimento com uma garota de programa de luxo, serviço que teria custado R$ 10 mil, que teria sido custeado pelo próprio Vorcaro. O vazamento provocou um enorme desgaste pessoal para o magistrado, gerando severos problemas em sua vida familiar e expondo sua imagem publicamente.
Sensação de traição nos bastidores
Nos corredores da Corte, a informação apurada é de que Kassio convenceu-se de que foi induzido a um erro estratégico por Mendonça. O magistrado teria aceitado alinhar-se ao plano sob a premissa de que a operação miraria exclusivamente o enfraquecimento de Alexandre de Moraes. No entanto, ao perceber que seu próprio nome já constava nos relatórios e que o impacto da manobra fatalmente o atingiria, Kassio concluiu que o “amigo” bolsonarista sabia dos riscos e omitiu os fatos para viabilizar a jogada.
Ao constatar que havia se prejudicado gravissimamente no processo enquanto tentava prestar socorro à empreitada de Mendonça, a reação de Kassio no Plenário adquiriu contornos de uma verdadeira “revanche” ou “vingança” institucional. A saída de cena repentina não apenas retirou um voto decisivo para as pretensões do grupo, mas escancarou o isolamento de Mendonça e expôs a fragilidade de um bloco que, ao tentar emparedar a Corte, acabou implodindo a própria aliança interna.
Kassio estaria furioso com Mendonça e declaração de suspeição pode ter sido ‘vingança’
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