Pastores pressionam Mendonça pelo acúmulo de cargo no STF com ministério pastoral

Pastores pressionam Mendonça pelo acúmulo de cargo no STF com ministério pastoral
- O ministro André Mendonça pregando na Igreja Presbiteriana: Foto: Reprodução Youtube @ippinheiros

Um grupo de pastores, pastoras e lideranças presbiterianas e evangélicas decidiu cobrar publicamente explicações do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e pastor presbiteriano André Mendonça sobre a acumulação das funções de magistrado e dirigente religioso.
A cobrança está formalizada em uma Interpelação de Interesse Público, assinada por pastores, presbíteros, diáconos e outras lideranças reformadas e evangélicas. O documento, datado de 14 de setembro de 2026, questiona se a permanência de Mendonça no exercício pastoral é compatível com sua atuação como ministro da Suprema Corte.
Os autores sustentam que a questão não envolve a fé pessoal de Mendonça nem o direito de um cristão ocupar um cargo público. O argumento central é outro: a separação entre as atribuições da Igreja e do Estado, prevista tanto na tradição reformada quanto na legislação brasileira.
Para fundamentar a interpelação, os signatários recorrem à Confissão de Fé de Westminster, documento adotado pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Eles destacam o capítulo 23, item 3, que afirma que os magistrados civis não devem assumir a administração da Palavra e dos Sacramentos, o poder das “chaves do Reino do Céu” ou interferir em matéria de fé.
Na interpretação apresentada pelos autores, a norma não seria apenas uma recomendação, mas uma definição dos limites entre as duas esferas de autoridade. O documento também cita os capítulos 23 e 30 da Confissão e os artigos 30 e 31 da Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil para sustentar que o governo eclesiástico possui natureza distinta da magistratura civil.
Pastor e ministro do STF
A interpelação chama atenção para o fato de Mendonça ter assumido, em 9 de março de 2025, a função de pastor adjunto da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo, permanecendo simultaneamente no exercício da magistratura no STF.
Os autores lembram que, na ocasião, o ministro teria afirmado que a pregação da Palavra representava um desafio maior do que julgar um processo ou decidir uma causa.
Para os signatários, porém, a questão ganhou uma dimensão ainda mais delicada durante a atual crise institucional envolvendo o Supremo.
O documento cita especificamente um vídeo divulgado por Mendonça em 4 de setembro de 2026, no qual o ministro se dirige a “irmãos e irmãs”, lideranças evangélicas e apoiadores para agradecer pelas orações e mensagens de carinho recebidas em razão de atos praticados por ele na relatoria de processos no STF.
A interpelação questiona o uso dessa relação pastoral em uma situação relacionada diretamente à atuação do ministro como magistrado. Segundo os autores, a manifestação teria transformado uma comunidade religiosa em uma espécie de base pública de apoio à atuação judicial de Mendonça. O documento afirma ainda que o vídeo foi difundido por parlamentares e candidatos durante o processo eleitoral de 2026.
Em um dos trechos mais contundentes do documento, os signatários afirmam que o pastorado não deve ser utilizado como “título honorífico” ou “plataforma”. A crítica se torna mais direta quando o documento afirma ser ainda mais grave “instrumentalizar e ostentar a condição de pastor para referendar posturas políticas” ou legitimar posições assumidas na conjuntura do STF.
Perguntas a André Mendonça
Ao todo, o documento apresenta seis perguntas diretamente ao ministro.
Entre elas, está a cobrança para que Mendonça explique como concilia a judicatura no STF com a pregação, a administração dos sacramentos e o governo eclesiástico diante das normas da Confissão de Fé de Westminster. As perguntas seguintes giram em torno do uso da fé como legitimação do magistrado e a liberdade de consciência dos membros em relação à autoridade judicial do pastor/ministro.
Mas o ponto mais concreto da interpelação está na quinta pergunta: os signatários querem saber se Mendonça levará o assunto ao seu Presbitério para obter um pronunciamento sobre a compatibilidade entre as duas funções ou se solicitará disponibilidade do exercício pastoral enquanto permanecer no STF.
Na última pergunta, os autores pedem que o ministro explique por que utilizou uma manifestação de caráter pastoral (o agradecimento pelas orações dos fiéis) em relação a uma situação vivenciada por ele na condição de magistrado. Também questionam se essa conduta seria reprovável diante do uso eleitoral que, segundo o documento, era previsível e efetivamente ocorreu.
Pedido de resposta pública
Ao final, os pastores deixam claro que não pretendem discutir a fé de André Mendonça nem negar a possibilidade de cristãos exercerem funções no Estado.
A preocupação apresentada é com a separação entre as duas esferas de autoridade. Para os signatários, a distinção seria necessária tanto para preservar a liberdade da Igreja quanto para garantir que o Estado permaneça como espaço comum a cidadãos de diferentes convicções religiosas.
A interpelação termina com uma cobrança objetiva ao ministro: “Aguardamos resposta pública de Vossa Excelência.”

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