Lula defendeu aumento de auxílio de Bolsonaro antes da eleição de 2022, veja

Lula defendeu aumento de auxílio de Bolsonaro antes da eleição de 2022, veja
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Mateus Bonomi / Anadolu via AFP

Um tuíte publicado por Lula em 20 de outubro de 2021, quando o então presidente Jair Bolsonaro se preparava para disputar a reeleição no ano seguinte, ajuda a colocar em perspectiva a ofensiva de Flávio Bolsonaro (PL) e de seus aliados contra o reajuste de 15,04% do Bolsa Família anunciado pelo governo nesta quinta-feira (17).
Na época, Bolsonaro anunciava que pretendia elevar para R$ 400 o valor do Auxílio Brasil, programa que substituíra o Bolsa Família. A medida já era criticada como uma tentativa de conquistar apoio eleitoral para 2022. Lula, porém, rejeitou o argumento de que a possibilidade de ganho político deveria impedir o aumento do benefício e foi além: defendeu que Bolsonaro pagasse R$ 600.
“Tô vendo o Bolsonaro dizer agora que vai dar R$ 400 de auxílio. Tem gente dizendo que é auxílio eleitoral, que não podemos aceitar. Não penso assim. O PT defende um auxílio de R$ 600 desde o ano passado. O povo precisa. Ele tem que dar. Se vai tirar proveito disso, problema dele.”
Veja a publicação, que ainda consta no perfil do presidente:
https://x.com/LulaOficial/status/1450788416870879232
Lula afirmou ainda, naquela ocasião, que a população não deveria ser penalizada pela proximidade das eleições. “Não podemos querer que o povo continue na miséria por causa das eleições de 2022”, declarou em entrevista à Rádio A Tarde, de Salvador.
Flávio agora chama reajuste de “ilegal” e “desespero”
Quase cinco anos depois, o comportamento de Flávio Bolsonaro diante de uma situação semelhante é diferente. O candidato do PL à Presidência classificou o reajuste do Bolsa Família anunciado por Lula a 17 dias do primeiro turno como “ilegal” e um “ato de desespero”.
Durante ato de campanha em Vitória da Conquista (BA), Flávio acusou Lula de tentar conquistar votos com o benefício.
“Você acha que vai comprar o voto do pobre? Dando 90 reais a mais pro pobre?”
Apesar das críticas, horas depois Flávio afirmou que, caso seja eleito, manterá o reajuste de 15,04% anunciado por Lula. “Comigo tá garantido o Bolsa Família. Vou manter esse reajuste”, declarou.
Outros integrantes do campo bolsonarista também atacaram a medida. Nikolas Ferreira (PL-MG) atribuiu o anúncio ao “desespero” eleitoral; Jorge Seif (PL-SC) acusou o governo de usar dinheiro público para “comprar voto”; Rogério Marinho (PL-RN) afirmou que o reajuste teria finalidade eleitoral. Já o deputado Zé Trovão (PL-SC) recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar suspender a medida.
O pedido de Zé Trovão foi arquivado pelo ministro André Mendonça porque o parlamentar não tinha legitimidade para propor a ação contra um candidato de outra circunscrição eleitoral. Mendonça não analisou o mérito da legalidade do reajuste.
O que Bolsonaro fez em 2022
O paralelo político, entretanto, não significa que as duas medidas sejam iguais do ponto de vista fiscal.
Em julho de 2022, a menos de três meses das eleições, o governo Jair Bolsonaro conseguiu aprovar a Emenda Constitucional 123, que ficou conhecida como “PEC Kamikaze”.
A medida reconheceu um estado de emergência e autorizou uma série de gastos extraordinários. No caso do Auxílio Brasil, estabeleceu um adicional de R$ 200, elevando o piso de R$ 400 para R$ 600, mas somente durante cinco meses, de agosto a dezembro de 2022.
A própria emenda determinou que essas despesas fossem financiadas por crédito extraordinário, ficassem fora da meta de resultado primário e não fossem computadas no então vigente teto de gastos. Posteriormente, foi aberto um crédito extraordinário de R$ 27,09 bilhões para custear o Auxílio Brasil, o Auxílio Gás e outras despesas.
Ou seja: o aumento promovido por Bolsonaro era extraordinário e temporário, com término previsto para dezembro daquele ano.
O que muda no reajuste de Lula
O reajuste anunciado agora pelo governo Lula tem outra estrutura. O piso do Bolsa Família passa de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio estimado sobe de R$ 675 para R$ 777. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, os 15,04% correspondem à variação acumulada do INPC entre março de 2023 e agosto de 2026.
O decreto não cria um novo programa, não estabelece uma parcela extraordinária com prazo para acabar e não muda os critérios de acesso ao Bolsa Família. Segundo a Advocacia-Geral da União, trata-se da atualização dos valores de um programa já existente e executado no Orçamento desde 2023.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também afirmou que os R$ 5,8 bilhões adicionais previstos para 2026 serão absorvidos dentro do Orçamento, sem mudança nas regras fiscais ou impacto sobre a meta fiscal. Para 2027, o custo adicional estimado é de cerca de R$ 22 bilhões.
O tuíte de Lula de 2021 registra, portanto, uma diferença clara de postura política diante de aumentos de programas sociais em períodos pré-eleitorais: quando era adversário de Bolsonaro, o petista afirmou que o eventual benefício eleitoral do então presidente era “problema dele” e defendeu um auxílio ainda maior.
Cinco anos depois, Flávio Bolsonaro acusa Lula de agir eleitoralmente — ao mesmo tempo em que promete manter o próprio reajuste caso chegue ao Palácio do Planalto.

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