Piloto profissional de avião e, agora, candidato a deputado federal pelo PSB em São Paulo, Mauro Mattosinho fez inúmeras revelações importantes, em entrevista ao Fórum Onze e Meia desta sexta-feira (18), sobre esquemas suspeitos envolvendo o crime organizado e nomes de peso da política nacional.
Ele relatou em detalhes, por exemplo, o episódio em que Jair Bolsonaro presenteou Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, com um berrante autografado pelo cantor sertanejo Sérgio Reis.
Beto Louco é apontado em investigações como uma das lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC). Mauro contou a história desde seu início. O site Folha Democrata já havia abordado o caso.
“Eu era piloto do avião daquela dupla de empresários: o Beto Louco e o Mohamad Hussein Mourad, que são empresários do setor de combustível, que faziam esquema de lavagem de dinheiro do PCC na Faria Lima”, começou o piloto.
“Quando eu descubro que essas pessoas são quem são, através de uma matéria no ‘Fantástico’, iniciei um trabalho, ainda individualmente, montando uma espécie de dossiê, registrando os horários, com quem eles se encontravam em Brasília, o que transportavam. Comprei um daqueles óculos com câmera na haste para poder armazenar documento, fazer foto, gravação de vídeo quando possível”, disse.
Mauro afirmou que, embora a mídia hegemônica o tenha entrevistado, inclusive com acesso a documentos, houve pouco interesse em perseguir o caso.
“Eu considero muito relevante, principalmente porque, a essa altura do campeonato, a gente já tem investigações, tanto na Operação Carbono Oculto quando na Compliance Zero, que completam essa história”, afirmou.
Mauro relembrou o que ocorreu em novembro de 2024. “Fiz um voo de São Paulo para Brasília, como era rotineiro do Beto Louco. Nesse voo estava a bordo, além do Beto e dos executivos da empresa, o Fabio Wajngarten (ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social de Jair Bolsonaro)”.
O piloto destacou que “quando a gente chegou a Brasília, a turma desembarcou e ficaram a bordo apenas o Beto e o Fabio. Eu estava na cabine, encerrando meu trabalho e, paralelamente, prestando atenção no que estava acontecendo. O Fabio Wajngarten entregou para o Beto, em mãos, o que ele dizia ser um presente em agradecimento em nome do Jair Bolsonaro. Esse presente era um berrante autografado pelo Sérgio Reis, além do que, para mim, pareceu uma medalha do imbrochável”.
Naquele momento, Mauro achou muito estranho Bolsonaro enviar um presente de agradecimento, com os cumprimentos do presidente, através de um portador: Fabio Wajngarten.
“Segundo a Polícia Federal (PF), Beto Louco é liderança no esquema de lavagem de dinheiro do PCC no mercado financeiro, principalmente através de um fundo de investimentos chamado Reag. Isso é muito importante, porque o Reag é um dos grandes fundos da Faria Lima, com patrimônio de quase R$ 200 bilhões. Em 2018, esse patrimônio girava na casa dos R$ 3 bilhões. A empresa multiplicou entre 60 e 70 vezes a gestão de patrimônio ao longo desses quatro anos, de 2018 a 2022-23”.
O piloto avançou nas relações perigosas. “Esse fundo Reag tinha ligação com o BK Bank, chamado Banco do PCC, uma daquelas fintechs que foi desmontada durante os desdobramentos da Operação Carbono Oculto. Esse BK Bank, inclusive, pagava meu salário, o que comprova a ligação do dono do avião com o banco”.
A história escala: “Esse mesmo banco fez uma transferência para a Entre Investimentos, empresa que mandou dinheiro aos Estados Unidos para o filme Dark Horse. Esse valor, pelo que consta, está perto de R$ 40 milhões. Não é pouco dinheiro. A gente está falando de um terço do que ele teria levantado com o Vorcaro”.
Diante desses fatos, Mauro acredita que a história do berrante assume novas perspectivas. “Por que será que o Bolsonaro estaria agradecendo? O Fabio Wajngarten, acho que poderia ajudar a esclarecer isso”, avaliou.
Antonio Rueda
Questionado sobre outros envolvimentos do esquema de Beto Louco com partidos políticos de direita e extrema direita, Mauro mencionou o nome de Antonio Rueda, que foi presidente do União Brasil e é candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro.
“Eu fiz alguns apontamentos muito importantes. O primeiro que tomou maior proporção na época foi a sacola de dinheiro que eu transportei de São Paulo para Brasília, que foi levada pelo Beto Louco, pessoalmente, para um encontro com o senador Ciro Nogueira. Essa história já consta em relatório da Polícia Federal na Operação Compliance Zero. Suspeita-se da possibilidade de o Beto Louco estar, inclusive, fazendo pagamento de mesada. Está tudo no relatório da PF”, denunciou.
Alguns meses depois que Mauro ingressou na empresa, o dono, que também é piloto de avião e voava junto com ele em boa parte das vezes, contava muitos detalhes da operação.
“E, na época, como eu já estava fazendo essa montagem do dossiê, perguntava muita coisa para ele, que se vangloriava muito dos negócios, então me contava. E ele deixou explícito que o Rueda teria muito dinheiro que ele precisava gastar”, relatou.
“Eu achei, assim, precisar gastar o dinheiro um sinal muito forte de que aquilo era estranho. E ele começou a adquirir uma frota de jatos particulares. Uma frota que, se somado a todos esses aviões, passa a dar centenas de milhões com tranquilidade. Novamente, a gente não está falando de pouco dinheiro. Ele estava fazendo essa aquisição de meia dúzia de aviões e, inclusive, o dono da empresa ia aos Estados Unidos para procurar aviões no mercado, porque no Brasil sequer havia disponibilidade de aviões na velocidade que precisava ser adquirido”, detalhou Mauro.
“Eu fiz, algumas vezes, perguntas relacionadas ao escândalo do INSS. Por quê? Porque a aquisição dos aviões começa logo em seguida do estouro na mídia do caso do INSS. E um dos sócios do Rueda nesse negócio é um indivíduo chamado Danilo Trento. Ele ficou famoso na CPI da Covid, por ter sido um dos articuladores daquela fraude da vacina. E, posteriormente, ele foi ouvido, também, na CPI do INSS como suspeito. Então, eu acho que é muito importante a polícia chegar na origem desse dinheiro”, disse o piloto.
Mauro explicou que “quando a gente vai ver quem são os donos dos aviões do Rueda, são fundos. Não existe uma pessoa física. É um fundo que é dono de outro fundo, que é dono de outro fundo. E, quando chega numa ponta lá, tem um único dono, pessoa física, que não pode ser identificado”.
Davi Alcolumbre
“A partir daí, vamos para outra figura: o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, que também recebeu o Beto Louco para reuniões, inclusive uma que eu relato, que aconteceu de madrugada. Ele não recebia o Beto em horário comercial, em horário de funcionamento normal do Congresso”, revelou Mauro.
“Então, no dia 20 de agosto de 2024, eu levo o Beto para uma reunião com Alcolumbre, que se passa entre a meia-noite e uma hora da manhã, horário que a gente volta para São Paulo. É importante a gente ver essas datas, porque a primeira matéria que sai a respeito do Beto, que é inclusive quando eu fico sabendo do negócio deles, foi mais ou menos em maio de 2024. Se eu não me engano, era a Operação Cassiopeia da Polícia Federal”, apontou.
“A partir daí é que se iniciam os voos frequentes a Brasília, porque nesse momento em que a Polícia Federal começa a avançar, a licença de funcionamento da principal refinaria do grupo, que se chamava COPAPE, é caçada. E o interesse do Beto era a indicação de um dos diretores da ANP, Agência Nacional do Petróleo, através dessa articulação com o Ciro Nogueira. Isso ele falava abertamente que o Ciro Nogueira estaria indicando um diretor para atender aos interesses, veja bem, os interesses do PCC dentro da ANP”, denunciou.
Dias Toffoli
Mauro declarou, ainda, que foi a primeira pessoa a abordar na mídia, abertamente, sobre o resort Tayayá. “Eu também levei o Dias Toffoli dentro do avião deste indivíduo, Beto Louco, para Ourinhos (SP), que era de onde ele pegava um helicóptero e ia para o resort.
Veja outras revelações na íntegra da entrevista de Mauro Mattosinho
Bolsonaro mandou berrante de presente para Beto Louco, líder do PCC, denuncia piloto
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