O presidente Lula, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), é, atualmente, a maior liderança do campo político da esquerda brasileira — uma esquerda com características democráticas e reformistas.
O partido do presidente, nascido em 1980, foi fruto de uma demanda do movimento sindical dos metalúrgicos e trabalhadores fabris do ABC, pelo qual Lula lutou (e foi preso) no final do século 20.
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A experiência petista no poder foi marcada pela combinação entre políticas de redução da desigualdade, programas sociais e maior atuação do Estado com a manutenção de uma economia de mercado, responsabilidade fiscal, negociação com o setor empresarial e alianças com partidos de diferentes posições ideológicas.
Em abril de 2024, o ex-ministro da Casa Civil e aliado de Lula, José Dirceu, chegou a afirmar que o governo do presidente está posicionado na “centro-direita”: essa seria “a exigência do momento histórico e político que nós vivemos”, afirmou Dirceu.
Ele apontava, nessa fala, para a obrigação de traçar acordos e articular-se politicamente com a base congressista mais à direita para conseguir governar; em seguida à declaração, soltou uma nota oficial afirmando que o governo não se guia por princípios da centro-direita, mas é apoiado inclusive por partidos desse espectro político.
O diálogo com a direita vem da necessidade de maioria para aprovar pautas no Congresso e fazer avançar projetos como o da Reforma Tributária, que desonerou pessoas de rendas médias e aumentou os impostos sobre grandes fortunas.
A crença no papel do Estado para a redução das desigualdades e a regulação da economia é associada amplamente ao campo da esquerda, enquanto a direita tende a conferir maior peso à liberdade de mercado e à preservação da ordem e das hierarquias sociais.
No caso do PT, a identificação histórica com a esquerda vem desde a fundação do partido, num contexto de reorganização sindical e de mobilização social durante a transição da ditadura militar para a democracia, do qual Lula foi uma das principais lideranças.
O estatuto do PT estabelece como objetivo a construção do “socialismo democrático” e associa a atuação partidária à redução da exploração, da dominação, da opressão, da desigualdade, da injustiça e da miséria.
Ele se apresenta, além disso, como herdeiro das lutas da classe trabalhadora e defensor de políticas sociais universais, como a proteção do trabalho e a redução das desigualdades, por meio de reformas estruturais.
No entanto, o PT passou a admitir coalizões eleitorais mais amplas a partir da campanha presidencial de 2002, a fim de ampliar alianças com forças fora do campo da esquerda.
Desde sua primeira eleição presidencial, em 2002, Lula adotou uma estratégia diferente daquela defendida por setores mais radicais do PT, como a manutenção de políticas de redução da pobreza e inclusão social, mas também de projetos de desenvolvimento econômico e manutenção de determinadas instituições e compromissos do capitalismo brasileiro.
A estrutura do sistema político brasileiro, considerado presidencialismo de coalizão porque o presidente não costuma dispor, sozinho, de maioria parlamentar suficiente para aprovar todas as suas propostas, ajuda a explicar por que os governos petistas precisaram recorrer a partidos de diferentes posições ideológicas.
De acordo com um estudo publicado na revista Latin American Research Review, o PT tinha menos de 20% das cadeiras do Congresso durante boa parte de sua gestão e precisava construir alianças que ultrapassavam o campo da esquerda para obter maiorias legislativas.
Em 2023, por exemplo, o governo incorporou o PP e o Republicanos à sua base ministerial, com André Fufuca assumindo o Ministério do Esporte e Silvio Costa Filho, o Ministério de Portos e Aeroportos. O então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, descreveu a estratégia como a consolidação de uma “frente ampla” de apoio na Câmara.
Se a composição parlamentar torna o governo mais heterogêneo, a agenda social tem elementos mais claramente associados à tradição da esquerda democrática e da social-democracia, como políticas de redução da pobreza e estímulo a condições de emprego e renda, destoantes de uma doutrina liberal que prega a não intervenção do Estado na composição da economia.
No terceiro e atual mandato de Lula, a agenda econômica foi mais fortemente influenciada pelos avanços no emprego. Em 2024, a taxa média anual de desemprego no Brasil ficou em 6,6%, a menor da série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012, e a população ocupada média alcançou 103,3 milhões de pessoas, também recorde da série.
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O rendimento real habitual médio chegou a R$ 3.225, alta de 3,7% em relação a 2023, enquanto a massa de rendimento real habitual atingiu R$ 328,9 bilhões, também recorde da série.
Na saúde, o governo também ampliou a oferta de procedimentos pelo Sistema Único de Saúde. Em 2024, foram realizadas mais de 14 milhões de cirurgias eletivas pelo SUS, segundo o Ministério da Saúde, o maior número da história do sistema.
O SUS foi criado pela Constituição de 1988 e é uma importante política de Estado.
Outra dimensão que aproxima o terceiro governo Lula de uma agenda tradicionalmente associada à centro-esquerda é sua política ambiental. O governo retomou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm) e reforçou ações de fiscalização e monitoramento.
Segundo o Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a área desmatada na Amazônia Legal no período de agosto de 2023 a julho de 2024 foi estimada em 6.288 km², queda de 30,63% em relação ao período anterior.
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O posicionamento internacional do governo em relação a temas de política externa deixa entrever uma tradição diplomática em defesa do multilateralismo e do fortalecimento de relações com países emergentes e em desenvolvimento, com ampliação da autonomia e da soberania nacionais.
O Ministério das Relações Exteriores define, entre as prioridades da atual gestão petista, a defesa da reforma das instituições internacionais e de uma ordem mundial considerada mais representativa. O Brasil se posiciona a favor da expansão do Conselho de Segurança da ONU para incluir participação permanente de países da América Latina, África e outras regiões atualmente sub-representadas.
Essa orientação também aparece na tentativa de fortalecer mecanismos de cooperação entre países do chamado Sul Global, como o BRICS, a aproximação com países africanos e árabes e a retomada de iniciativas de integração sul-americana.
Além disso, o Brasil adota uma posição histórica de oposição ao embargo econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba, baseado numa série de medidas econômicas unilaterais de pressão política.
Em 2024, o chanceler Mauro Vieira reiterou essa posição durante a Cúpula do BRICS e afirmou que o Brasil é, por princípio, contrário a sanções coercitivas, que impõem dificuldades econômicas, energéticas, alimentares e sanitárias de longo prazo à população cubana.
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De forma geral, Lula construiu, no seu terceiro mandato, uma frente política progressista e voltada à defesa dos valores centrais da política de esquerda, mas ainda sujeita às dificuldades da maioria legislativa e à necessidade de buscar alianças multipartidárias.
A negociação com o mercado financeiro, principalmente na política de juros, ainda suscita críticas da ala mais expressiva da esquerda radical; apesar disso, a aproximação do governo a uma centro-esquerda mais moderada foi construída ao longo de anos de pragmatismo dos governos petistas.
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