A derrocada do Banco Master, classificada pelos bastidores do mercado financeiro como um dos maiores episódios de colapso e fraude bancária da história do país, ganhou novos e perturbadores contornos. Diálogos inéditos obtidos e veiculados pela Revista Piauí lançam luz sobre os bastidores da crise, expondo uma complexa teia que mistura articulações financeiras de bastidor, promiscuidade no ambiente de poder, rivalidades familiares e a tentativa deliberada de ocultação de fortunas em jurisdições internacionais.
No centro da revelação está Fabiano Zettel, operador financeiro e cunhado de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira. Pastor da Igreja Batista da Lagoinha e casado com a irmã do banqueiro, Zettel manteve um relacionamento extraconjugal com uma mulher, cuja identidade real não foi revelada pelo veículo, entre os primeiros meses de 2023 e março do ano seguinte, momento em que acabou preso pelas autoridades federais. Foi justamente no ambiente restrito dessas conversas privadas que o operador acabou por confessar práticas até então mantidas sob absoluto sigilo.
Cofre no exterior e a paralisia financeira
Em um dos trechos mais contundentes das gravações reveladas pela Revista Piauí, ocorrido no início de dezembro de 2024, logo após a revogação da prisão preventiva de Vorcaro pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Zettel desabafou sobre a real dimensão do patrimônio acumulado pelo ex-banqueiro fora das fronteiras brasileiras. Segundo o relato feito à amante, Vorcaro teria conseguido ocultar uma quantia estratosférica fora do alcance do sistema financeiro nacional.
“Ele guardou 20 bi no exterior e não consegue ir lá, não consegue gastar, não consegue pegar. Porque se pegar, é preso de novo”, confidenciou o operador, ponderando em seguida sobre o alcance limitado dessa estratégia diante do cerco policial e judicial. “Então, não adianta nada juntar dinheiro fora. Se ferra do mesmo jeito. Não sei até onde o Daniel tem essa consciência. Eu acho que ele é meio inconsequente.”
A declaração diverge amplamente dos valores formalmente bloqueados pelas autoridades até o momento, que somam cerca de R$ 2 bilhões em ativos patrimoniais e imobiliários destinados a ressarcir o contingente de credores lesados pela liquidação extrajudicial da casa bancária. As apurações no exterior, contudo, já esbarraram em estruturas esvaziadas, como a holding Titan Capital, nas Ilhas Cayman, que acumulava passivos bilionários sem qualquer saldo remanescente. Por outro lado, frentes investigativas indicam a existência de estruturas paralelas e fundos não declarados que circularam por intermediários e delatores, mantendo valores de grande porte sob monitoramento.
Rivotril, pânico e a operação no aeroporto
As mensagens revelam passo a passo a tensão vertiginosa que tomou conta do núcleo gestor nos dias que antecederam o encerramento das atividades do Banco Master, decretado pelo Banco Central em 18 de novembro. Zettel detalhou à amante a viagem secreta que fizera semanas antes fora do país com a intenção expressa de criar uma blindagem patrimonial de emergência para seu próprio provento.
O operador confidenciou ter ocultado recursos no exterior caso a totalidade de seus bens no Brasil fosse alvo de constrição judicial. “Lá eu não podia falar isso por telefone”, explicou após retornar ao território nacional.
Na véspera do colapso definitivo, enquanto Vorcaro tentava sem sucesso emplacar um plano de reestruturação do banco perante o Banco Central, e acabou detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos tentando embarcar para Dubai, Zettel tentava se manter distante do choque iminente. Para enfrentar o estresse acumulado, tomou fortes dosagens de tranquilizantes e acabou não presenciando a chegada dos advogados em sua residência durante a madrugada.
Ao acordar na manhã seguinte com dezenas de chamadas não atendidas, encontrou o cenário consumado: o banco sob liquidação, ordens de prisão decretadas e bens congelados. Em áudio, relatou que mantinha um aparelho celular oculto num compartimento secreto de seu automóvel para continuar se comunicando longe do alcance das apreensões policiais, enquanto providenciava mantimentos e pertences pessoais para serem entregues na sede da Polícia Federal onde o cunhado se encontrava custodiado.
Relatório de tensões, bajulação e subordinação
Embora nos diálogos com a interlocutora costumasse desdenhar da capacidade intelectual de Vorcaro, referindo-se a ele por vezes de forma sarcástica como “príncipe” e criticando sua maturidade emocional, o material apreendido pela Polícia Federal aponta que a dinâmica direta entre ambos era pautada por extrema servilidade por parte de Zettel. O operador dependia das ordens diretas do banqueiro até mesmo para o cumprimento de rotinas operacionais básicas, atuando como um executor de tarefas pessoais que iam do gerenciamento da manutenção do apartamento do ex-banqueiro à compra de medicamentos controlados.
Conforme exposto pela reportagem da Piauí, Zettel figurava na ponta de repasses estratégicos e operava empresas e fundos de investimento que aparecem no radar dos investigadores como condutos de movimentação financeira. Entre as estruturas sob seu controle estava a Moriah Investimentos e o fundo Leal, articuladores de participações imobiliárias e de negócios de alto padrão que arrastaram figuras do meio político e do Judiciário para a órbita do escândalo.
Apesar de tentar arquitetar uma estratégia de descolamento de sua imagem em relação às ilícitos do Banco Master, a proximidade com o ex-banqueiro e o fluxo de ordens registrado em aplicativos de mensagem inviabilizaram a tese de autonomia defensiva. A derrocada culminou com a nova decretação de prisão de Daniel Vorcaro em março passado, momento em que o próprio Fabiano Zettel também foi recolhido ao cárcere pelas forças de segurança. Ambos permanecem sob o crivo das investigações judiciais, enquanto a busca pelas ramificações financeiras no exterior prossegue.
Durante caso Master, Zettel disse à amante que Vorcaro “guardou R$ 20 bi no exterior”, mostra revista
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