Bolsonaristas estão usando uma fake news com vídeo de Xuxa para acusar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de pedofilia na reta final do primeiro turno. A montagem mistura uma gravação feita pela apresentadora em 2022, quando ela reagiu à declaração de Jair Bolsonaro de que teria “pintado um clima” ao encontrar adolescentes venezuelanas, com trechos recentes de Lula falando sobre exames médicos e prevenção ao câncer.
A edição cria uma cena que nunca existiu. Xuxa aparece indignada, fala sobre abuso sexual de crianças e pede que as pessoas não votem em determinado candidato. Em seguida, entram imagens e frases de Lula. A impressão passada ao espectador é de que a apresentadora teria gravado o vídeo agora, revoltada com o presidente. Não foi isso que aconteceu.
A gravação de Xuxa é de outubro de 2022 e tinha Jair Bolsonaro como alvo. A fala recente de Lula, por sua vez, ocorreu durante um discurso em Belém, no Pará, no qual ele tratava de câncer, cirurgia robótica, exame de próstata e da resistência masculina aos cuidados preventivos de saúde. Horas antes, Lula havia visitado o complexo hospitalar da Beneficente Portuguesa do Pará, onde acompanhou a estrutura destinada à primeira cirurgia robótica realizada pelo SUS na Região Amazônica.
A desinformação não está restrita a uma publicação isolada. A checagem do site Aos Fatos encontrou versões da montagem com pelo menos 210 mil visualizações no TikTok e 6,5 mil interações nas plataformas da Meta. Outra apuração, focada na disseminação da fala do toque, identificou uma estrutura de grupos no WhatsApp com alcance potencial estimado em 810 mil pessoas.
Fake news com vídeo de Xuxa usa gravação feita contra Bolsonaro
O vídeo original de Xuxa tem cerca de 13 minutos e foi publicado em 19 de outubro de 2022, durante a campanha presidencial daquele ano. Na gravação, a apresentadora comenta as declarações de Bolsonaro sobre adolescentes venezuelanas que ele havia encontrado em São Sebastião, no Distrito Federal.
Bolsonaro havia contado que viu meninas de 14 e 15 anos “arrumadinhas” e afirmou que “pintou um clima”. O episódio provocou forte repercussão durante aquela eleição. Xuxa então gravou um vídeo no qual falou de sua própria experiência como vítima de abuso sexual na infância, criticou Bolsonaro e declarou que não votaria nele.
Quatro anos depois, a gravação foi reaproveitada. Os conteúdos enganosos utilizam cerca de 42 segundos dos 13 minutos do vídeo original e eliminam justamente trechos em que Xuxa cita Bolsonaro nominalmente. No lugar deles, foram inseridas falas de Lula.
A apresentadora desmentiu a manipulação. Ao comentar a circulação do conteúdo, afirmou que o vídeo de 2022 havia sido gravado para manifestar indignação com as declarações de Bolsonaro e disse que quem acreditou que ela estivesse falando de Lula não a conhece de verdade.
O que Lula disse sobre o “toque”
O outro elemento usado na montagem também foi retirado do contexto em que foi dito. Lula discursava em Belém na noite de 28 de setembro. Antes de falar sobre o toque, havia comentado a realização de uma cirurgia robótica de próstata, falado sobre câncer e lembrado que sua mãe morreu vítima de câncer de útero. A transmissão completa do comício permanece disponível no YouTube.
Foi nesse contexto que afirmou:
“O homem não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas. O homem não, ele é cheio de trejeito. Ele não sabe que, quando ele tiver câncer de próstata, vão dar muito toque nele.”
Na sequência, Lula continuou falando sobre câncer de próstata, exames e cirurgias. Não houve no discurso referência a abuso sexual de crianças.
A formulação usada pelo presidente provocou discussões sobre a forma adequada de descrever o acompanhamento médico de meninas. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) informa que o acompanhamento pode começar na puberdade, mas o exame inicial é externo e sem instrumentos. Contudo, isso é diferente de afirmar que Lula estivesse falando de abuso sexual. O contexto completo registrado em vídeo é o de saúde pública.
Articulação da rede e chegada ao WhatsApp
A montagem com Xuxa surgiu depois que a associação da fala de Lula à pedofilia já havia sido impulsionada nas redes sociais. Como a Fórum mostrou mais cedo, um levantamento do site Aos Fatos reconstruiu a evolução da narrativa a partir do monitoramento de 1.819 publicações feitas no X entre os dias 28 e 29 de setembro.
Uma das primeiras postagens de grande alcance com o recorte apareceu às 23h59 do dia 28. Minutos depois, já havia mensagens chamando Lula de pedófilo e incentivando a disseminação. Dos posts analisados, 43% traziam acusação direta ou estimulavam sua propagação. Horas depois, o deputado Nikolas Ferreira entrou na corrente ao compartilhar um dos recortes. A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou em decisão liminar a remoção da postagem por descontextualização.
A circulação avançou para ambientes fechados de mensagens. A fala descontextualizada sobre o toque foi identificada em cerca de 900 grupos de WhatsApp da plataforma Direita Já, ligada ao PL e à campanha de Flávio Bolsonaro. Com cerca de 900 integrantes em cada grupo, a estimativa é de um alcance potencial de aproximadamente 810 mil pessoas, a poucas horas do primeiro turno das eleições.
A capilaridade do material também gerou reflexos em conversas privadas. A Fórum recebeu relatos de leitores que viram o vídeo chegar a mães e familiares mais velhos, evidenciando o avanço da desinformação em redes de troca de mensagens familiares.
Bolsonaristas usam fake news com vídeo de Xuxa pra acusar Lula de pedofilia
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