É possível Lula virar? Veja 2 exemplos de eleições presidenciais que dizem “sim”

É possível Lula virar? Veja 2 exemplos de eleições presidenciais que dizem “sim”
- Bandeira do PT. Foto: Divulgação/PT

O encerramento da apuração do primeiro turno das eleições de 2026 desenhou um cenário de intensa apreensão para a militância e para os estrategistas do Partido dos Trabalhadores. A liderança alcançada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que somou 56,1 milhões de votos (47,03% dos válidos), ante os 53,8 milhões (45,16%) obtidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), colocou o governo diante de um quadro desfavorável, registrando a menor diferença da história política recente entre o primeiro e o segundo colocados. Diante desse revés parcial e da desvantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos, surge a indagação incontornável no debate público: é viável para o petista operar uma virada em 25 de outubro?
Para além do pessimismo imediato gerado pelas urnas, o histórico das campanhas presidenciais brasileiras sob a Nova República oferece respostas afirmativas. O próprio PT traz em sua trajetória recente episódios em que a engrenagem eleitoral da legenda foi capaz de buscar alianças, recuperar abstenções e expandir de maneira vertiginosa seu eleitorado na fase decisiva. Relembrar a dinâmica das eleições de 2006 e de 2014 ajuda a compreender como a máquina petista já operou verdadeiros “milagres” na captura de novos contingentes de votos no segundo turno, inclusive em contextos de forte adversidade política.
O “milagre” de 2006: A desidratação histórica do adversário
A eleição presidencial de 2006 desenhou-se sob o impacto direto dos desdobramentos políticos do chamado escândalo do Mensalão. No primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva ficou a poucos passos de encerrar a disputa, obtendo 46,6 milhões de votos válidos (48,61%). Seu principal oponente, Geraldo Alckmin (então no PSDB), acumulou 39,9 milhões de votos (41,64%), abrindo uma margem razoável de oposição, enquanto candidaturas como as de Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) somavam mais de 9,1 milhões de votos.
A perspectiva de um segundo turno um pouco mais acirrado não se confirmou nas urnas de 29 de outubro daquele ano. Em uma performance sem precedentes na política brasileira, Lula capturou nada menos que 11,63 milhões de novos votos no segundo turno, saltando para 58,2 milhões de votos válidos (60,83%).
Mais impressionante que a expansão de Lula foi o fenômeno ocorrido com a candidatura de oposição. Incapaz de dialogar com os eleitores dos candidatos derrotados e perdendo tração em redutos chave do Sudeste e do Sul, Alckmin sofreu um encolhimento surpreendente: caiu de 39,9 milhões de votos no primeiro turno para 37,5 milhões no segundo, uma perda líquida de mais de 2,4 milhões de eleitores entre uma fase e outra do pleito. Lula absorveu a quase totalidade dos votos que estavam em disputa fora do bloco tucano e reduziu o adversário a uma votação menor do que a obtida no início da corrida.
O “milagre” de 2014: A caça aos votos fora do mapa tradicional
Se em 2006 o PT contava com larga vantagem e acabou por massacrar a oposição no segundo turno, o pleito de 2014 apresentou contornos de altíssima tensão, com dinâmicas muito mais próximas das vividas em 2026. A então presidente Dilma Rousseff encerrou o primeiro turno na liderança com 43,2 milhões de votos (41,59%), seguida por Aécio Neves (PSDB), que somara 34,8 milhões de votos (33,55%). O grande divisor daquele pleito, contudo, fora a candidatura de Marina Silva (PSB), que amealhara 22,1 milhões de votos (21,32%).
No início da propaganda de segundo turno, a maior parte do capital político de Marina parecia inclinar-se diretamente para Aécio Neves. O candidato tucano contou com o apoio formal de Marina e iniciou a etapa final drenando a maior fatia daquele eleitorado de terceira via. As pesquisas indicavam uma forte tendência de virada a favor da oposição, que conseguiu somar assustadores 16,1 milhões de novos votos entre o primeiro e o segundo turno, fazendo Aécio saltar para 51,0 milhões de votos (48,36%).
A virada de Aécio, no entanto, foi contida pela capacidade de mobilização da candidatura petista. Em um esforço concentrado no Nordeste, no meio rural e nas periferias dos grandes centros urbanos, a campanha de Dilma não se limitou a disputar as sobras dos votos de Marina Silva. A petista operou uma busca ativa por eleitores abstencionistas, recuperou votos brancos e nulos e promoveu uma engajamento de militância que lhe rendeu mais 11,23 milhões de votos no segundo turno. A petista alcançou 54,5 milhões de votos válidos (51,64%) e garantiu a reeleição em uma das disputas mais apertadas e dramáticas da história do país, superando Aécio por uma margem de 3,4 milhões de votos.
2026: O desafio da nova virada
Os precedentes de 2006 e 2014 demonstram que o Partido dos Trabalhadores tem um histórico consolidado de expansão de votação na etapa final das eleições presidenciais. Em ambas as oportunidades, a candidatura petista provou ser capaz de incorporar mais de 11 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno.
Para que Lula consiga reverter a vantagem atual de Flávio Bolsonaro, a estratégia da campanha governista precisará articular dois movimentos simultâneos. O primeiro é atrair a votação dispersa do segundo pelotão de candidatos, como os votos obtidos por Augusto Cury (2,89%), Renan Santos (2,24%) e Ronaldo Caiado (2,18%), além de combater os índices de abstenção nas regiões onde o governo mantém histórico de votação mais expressiva, a exemplo do Nordeste. O segundo é conter a capacidade do adversário de ampliar sua votação no Sul e no Sudeste.
O primeiro turno das eleições de 2026 confirmou a força e a consolidação do eleitorado conservador. No entanto, a trajetória eleitoral do PT atesta que cenários desfavoráveis e contagens apertadas no primeiro turno não representam uma sentença definitiva. A batalha pelo Palácio do Planalto segue aberta, e os precedentes históricos indicam que o segundo turno é um terreno onde viradas e grandes recomposições de votos já se provaram perfeitamente possíveis.

Ver mais

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!