Lembre viradas históricas de candidatos que perderam o primeiro turno e venceram o segundo

Lembre viradas históricas de candidatos que perderam o primeiro turno e venceram o segundo
- Paulo Maluf/Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A máxima política de que “o segundo turno é uma nova eleição” encontra respaldo prático na história recente das disputas para os governos estaduais no Brasil. Embora terminar a primeira fase na liderança seja uma vantagem estatística considerável, o histórico do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que o favoritismo inicial pode ruir diante de novas alianças e do contexto macroeconômico.
Duas disputas na década de 1990 — em São Paulo (1990) e Minas Gerais (1994) — tornaram-se os exemplos mais emblemáticos de como aberturas de urnas avassaladoras no primeiro turno não garantem a posse no Palácio do Governo.
São Paulo, 1990: a frente ampla antimalufista consagra Fleury
Na primeira eleição direta para governador após a redemocratização, o cenário paulista parecia desenhado para a consagração de Paulo Maluf. Figura central da política nacional e dotado de forte apelo popular fundamentado em grandes obras, Maluf liderou o primeiro turno com folga, abrindo uma vantagem de 15,3 pontos percentuais sobre o segundo colocado.
No entanto, o avanço para a etapa final estreitou radicalmente as opções do eleitorado. A forte rejeição que acompanhava a figura de Maluf impulsionou a rápida articulação de uma frente ampla de oposição. Luiz Antônio Fleury Filho, ex-promotor e secretário de Segurança Pública que pontuava discretamente no início da campanha, transformou-se no canalizador desses votos.
Ao herdar o apoio em bloco de partidos de esquerda, centro e de frentes antimalufistas convictas, Fleury operou uma virada histórica. O favoritismo de Maluf desidratou diante de uma estratégia focada no isolamento político do candidato do PDS, levando Fleury à vitória nas urnas e ao comando do estado de São Paulo entre 1991 e 1995.
Minas Gerais, 1994: a onda do Plano Real elege Azeredo
Se em São Paulo o motor da virada foi a rejeição partidária, em Minas Gerais o combustível foi a economia. Em 1994, o jornalista e político Hélio Costa despontava como o favorito absoluto para assumir o Palácio da Liberdade. A apuração do primeiro turno confirmou as expectativas: Costa terminou a primeira fase com uma esmagadora vantagem de 21,1 pontos em relação ao adversário.
Do outro lado estava Eduardo Azeredo, candidato pelo PSDB. O que parecia uma distância irreversível começou a ruir no intervalo de poucas semanas, impulsionado pelo cenário nacional. 1994 foi o ano de lançamento e consolidação do Plano Real, que controlou a hiperinflação e devolveu o poder de compra à população brasileira.
Aproveitando a imensa popularidade do novo padrão monetário e a associação direta de seu partido ao sucesso econômico, Azeredo viu sua campanha decolar de forma meteórica no segundo turno. A estabilização econômica eclipsou o favoritismo inicial de Hélio Costa, fazendo com que Azeredo virasse o jogo e vencesse a eleição com folga, consolidando uma das reversões mais impressionantes da história eleitoral mineira.
A pequena diferença nesta eleição
Nas eleições presidenciais, desde 1989, nunca aconteceu uma virada. O candidato que venceu o primeiro turno sempre venceu no segundo. A diferença, no entanto, nunca foi tão pequena. Com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto o atual presidente teve 45,16%, uma distância de 1,87 ponto percentual, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Nas eleições de 2022, Lula obteve 48,43% dos votos válidos e Jair Bolsonaro (PL), 43,2%, uma distância de 5,23 pontos percentuais. Essa tinha sido, até então, a menor diferença entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno.
A diferença foi tão pequena desta vez que uma vantagem de Lula no segundo turno não daria nem pra chamar de virada. Resta saber o que poderá impulsionar isto.

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