Deputado eleito em SP é investigado por elo com PCC e pode ter vaga na Câmara vetada pelo TSE

Deputado eleito em SP é investigado por elo com PCC e pode ter vaga na Câmara vetada pelo TSE
É público e notório que o crime organizado conseguiu se infiltrar em algumas legendas partidárias, em geral ligadas...

O ex-prefeito de Embu das Artes (SP) Ney Santos, do Republicanos, foi eleito deputado federal no último domingo (4) com 118.566 votos, apesar de ser réu por organização criminosa e lavagem de dinheiro e de responder a acusações de suposto envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Sua candidatura foi autorizada pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) por apenas três votos a dois, e o Ministério Público Eleitoral (MPE) recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde o caso aguarda julgamento. Se o TSE acolher o pedido, o registro será indeferido de forma retroativa e Ney Santos perderá o mandato antes mesmo de tomá-lo na Câmara dos Deputados.
Ney Santos governou Embu das Artes por dois mandatos, entre 2017 e 2024, e construiu uma base eleitoral sólida na Grande São Paulo. Nas eleições de outubro de 2026, converteu esse capital político em 118.566 votos para a Câmara dos Deputados, resultado suficiente para garantir uma cadeira pelo Republicanos. No entanto, ele é réu por organização criminosa e lavagem de dinheiro, e o Ministério Público Eleitoral o acusa de suposto envolvimento com o PCC, a maior facção criminosa do país.
O histórico judicial de Ney Santos antecede as acusações atuais. Ele já cumpriu pena por abuso de poder econômico, foi condenado em primeira instância por porte de arma de fogo com numeração raspada e teve condenação por formação de quadrilha, além de ter ficado preso por roubo a banco. Segundo o MPE, o passado não ficou para trás. Após sua saída do sistema prisional, os órgãos policiais e o Ministério Público continuaram a receber recorrentemente informações e notícias de que Claudinei Alves dos Santos [Ney Santos] é membro do PCC e que sua fortuna é constituída essencialmente de dinheiro proveniente do tráfico de drogas.
TRE-SP e o recurso ao TSE
A candidatura de Ney Santos não passou sem contestação. O Ministério Público Eleitoral pediu a impugnação do registro antes mesmo do pleito, argumentando que a Justiça Eleitoral tem respaldo jurisprudencial para barrar candidaturas de pessoas apontadas como vinculadas a facções criminosas, ainda que não haja sentença penal condenatória transitada em julgado. O TRE-SP, no entanto, autorizou a candidatura em 15 de setembro de 2026, por três votos a dois. A relatora, desembargadora Danyelle Galvão, votou a favor do deferimento e destacou dois pontos: a inelegibilidade decorrente da condenação por abuso de poder econômico havia expirado em 2024, e a acusação por organização criminosa ainda estava em fase de instrução. Os desembargadores Mairan Maia Júnior e Roberto Maia ficaram vencidos.
A decisão apertada do TRE-SP não encerrou o caso. O MPE recorreu ao TSE, protocolando o recurso em 23 de setembro de 2026, e o processo foi distribuído ao ministro Floriano de Azevedo Marques, que atua como relator. No pedido ao TSE, a promotoria vai além das acusações penais em curso: cita enriquecimento ilícito e outros indícios de irregularidades, e afirma, segundo documentos do processo, que “fica patente a sua ingerência na vida marginal e o seu envolvimento com a criminalidade organizada, lastreando-se, portanto, as indicações de seu envolvimento com o PCC.” A tese do MPE coloca em disputa um ponto central do direito eleitoral brasileiro: até onde a Justiça pode ir para barrar candidatos com vínculos suspeitos com o crime organizado quando ainda não há condenação definitiva.
O futuro político de Ney Santos
A decisão do TSE terá consequências diretas e imediatas. Se o tribunal acolher o recurso do MPE, o registro de Ney Santos será indeferido de forma retroativa, o que significa que sua vitória nas urnas perderá validade e ele estará impedido de assumir a cadeira na Câmara dos Deputados. Não se trata de uma cassação futura de mandato, mas do apagamento jurídico da própria eleição. A representação de São Paulo na Câmara Federal ficaria, portanto, sujeita a uma recomposição.
O peso político do caso vai além do próprio Ney Santos. Ele é considerado uma das figuras de maior influência na Grande São Paulo: mesmo durante o período em que esteve inelegível, articulou a eleição do prefeito Hugo Prado (Republicanos) em Embu das Artes, em 2024, com 88 mil votos, e colocou sua irmã, Ely Santos (Republicanos), como primeira suplente de deputada federal em 2022. Ely assumiu uma cadeira na Câmara em 2024 e, em 2026, conquistou vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo. É uma rede política construída ao longo de anos, que sobreviveu a condenações, prisões e períodos de inelegibilidade. Após o resultado das urnas, Ney Santos celebrou nas redes sociais com uma frase que resume sua trajetória: “Deus é especialista em milagres e cumpre o que promete.”

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