O deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL-PB) comparou o avanço da direita nas eleições brasileiras ao contexto que antecedeu a ascensão do nazismo na Alemanha, em entrevista à Rádio Arapuan, em João Pessoa, na última segunda-feira (5). O parlamentar bolsonarista usou a narrativa de “humilhação” para justificar o fortalecimento de seu campo político e defender o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, afirmando que “a justiça é cassar o ministro Xandão”. Historiadores e estudiosos rebateram as declarações nas redes sociais, apontando imprecisões factuais e o risco de simplificação de um dos processos históricos mais complexos e violentos do século XX.
Paralelo entre bolsonarismo e nazismo
Em entrevista à Rádio Arapuan, Cabo Gilberto recorreu ao período posterior à Primeira Guerra Mundial para explicar o desempenho eleitoral da direita. Segundo o deputado, as punições impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes teriam alimentado o ressentimento popular e contribuído para o fortalecimento de Adolf Hitler, e um processo análogo estaria ocorrendo no Brasil por conta das decisões do STF contra apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Eu gosto muito de história e, no final da Primeira Guerra Mundial, Winston Churchill e os vencedores humilharam a Alemanha nazista, antes de ser Alemanha nazista. Então, a Suprema Corte vem humilhando o povo brasileiro, a liberdade do povo brasileiro, junto, nesse conluio com o PT”, afirmou o parlamentar na entrevista.
A partir desse raciocínio, Cabo Gilberto defendeu abertamente o impeachment do ministro Alexandre de Moraes: “A gente quer fazer justiça, e a justiça é cassar o ministro Xandão, para ele pagar pelos seus crimes.” Questionado pelo jornalista Luís Torres se estaria comparando Jair Bolsonaro a Hitler, o deputado negou. “Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Nada, zero. É só um fato histórico que ocorreu”, respondeu, insistindo que a referência servia apenas como “exemplo histórico” de como situações de ressentimento social podem produzir reações políticas nas urnas.
Veja vídeo:
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Historiadores rebatem e alertam para distorção histórica
A interpretação de Cabo Gilberto não resistiu ao escrutínio de especialistas. Nas redes sociais, estudiosos e historiadores rebateram as declarações do deputado, com muitos apontando tanto a distorção histórica quanto o risco de apologia ao nazismo embutido na narrativa.
O professor Emilio Figueiredo (@emiliohistoriador), mestre em Ensino de História, foi um dos que responderam de forma mais detalhada. Segundo ele, a ascensão de Hitler não pode ser reduzida à ideia de “humilhação” imposta pelo Tratado de Versalhes. “O Tratado de Versalhes e suas consequências tiveram importância, mas o nazismo resultou de um processo muito mais complexo: crise econômica, instabilidade política, crescimento do ultranacionalismo, antissemitismo, violência política, propaganda e enfraquecimento das instituições democráticas”, afirmou Figueiredo.
A fala do deputado contém ainda uma imprecisão factual elementar: Cabo Gilberto atribuiu a Winston Churchill papel central nas negociações do Tratado de Versalhes, concluído em 1919. Churchill, porém, não era primeiro-ministro britânico naquele momento, cargo que só ocuparia em 1940, já durante a Segunda Guerra Mundial.
Repercussão
As declarações repercutiram nas redes sociais e reacenderam o debate sobre o uso de analogias históricas sensíveis no discurso político da extrema direita brasileira. A narrativa de “humilhação” e a defesa do impeachment de Alexandre de Moraes não são novidade no campo bolsonarista: integram um padrão recorrente de ataques ao STF e às instituições democráticas, que ganhou novo fôlego após as condenações relacionadas ao 8 de Janeiro e ao processo que resultou na prisão de Jair Bolsonaro.
O que a fala de Cabo Gilberto expõe com clareza é a estratégia de usar interpretações históricas simplificadas para construir um discurso de vitimização e deslegitimar adversários. Ao invocar o nazismo como “exemplo” sem assumir a comparação direta, o deputado busca normalizar a narrativa de que punições legais equivalem a perseguição política, enquanto enquadra o STF como agente de opressão.
O parlamentar é o deputado federal mais votado da Paraíba, com 267.142 votos. O resultado contrasta com o cenário presidencial no estado: nas eleições, Lula (PT) obteve 61,31% dos votos para presidente na Paraíba, contra 33,07% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Bolsonarista Cabo Gilberto diz que avanço da extrema direita no Brasil foi como ascensão do nazismo na Alemanha
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