O pastor e psicólogo Aluizio Vidal Flor, de 58 anos, foi preso preventivamente em setembro, em Porto Velho (RO), após denúncias de violência sexual. Em apenas dois meses, 12 mulheres procuraram as autoridades para relatar possíveis abusos atribuídos ao religioso.
A sequência de denúncias começou com Mirian Rios, que havia procurado Flor em busca de ajuda para salvar seu casamento. Segundo reportagem publicada pelo g1 nesta quinta-feira (15), Mirian afirma que o pastor ultrapassou os limites profissionais e pessoais durante uma sessão de terapia.
Depois de tentar resolver a situação dentro da própria igreja, ela procurou o Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit), do Ministério Público de Rondônia (MP-RO). Sua decisão encorajou outras 11 mulheres a denunciarem situações semelhantes.
A denúncia de Mirian Rios e o efeito cascata
Mirian confiava em Aluizio Vidal Flor por sua dupla autoridade: psicólogo e pastor. Estava emocionalmente fragilizada e buscava orientação para enfrentar uma crise conjugal.
Foi nesse contexto que, segundo seu depoimento, o religioso teria se aproveitado da relação de confiança estabelecida durante os atendimentos.
“Mal sabia que, naquele momento, começava a batalha mais injusta da minha vida”, relatou.
Antes de procurar o Ministério Público, Mirian levou as acusações à Igreja Presbiteriana do Brasil. A experiência, segundo ela, foi marcada por humilhações e pela tentativa de desacreditar sua palavra.
Após seu relato ao Navit, outras sete mulheres apresentaram denúncias, dando origem ao primeiro inquérito policial. Posteriormente, outras quatro procuraram a polícia, provocando a abertura de uma segunda investigação.
Ao todo, 12 mulheres denunciaram o pastor e psicólogo em um intervalo de dois meses.
Pastor e psicólogo: denúncias apontam abusos durante duas décadas
Segundo o Ministério Público de Rondônia, Aluizio Vidal Flor teria utilizado suas posições de psicólogo e líder religioso para se aproximar de mulheres em situação de vulnerabilidade.
Entre as denunciantes estão mulheres que enfrentavam perdas gestacionais, traumas familiares e dificuldades conjugais. Elas procuravam acolhimento psicológico ou aconselhamento espiritual.
Os relatos descrevem episódios ocorridos principalmente no consultório psicológico e em ambientes ligados à igreja. Algumas mulheres afirmam que os abusos teriam acontecido durante sessões de terapia.
Conforme a investigação, o psicólogo também teria utilizado exercícios de hipnose ou relaxamento durante os atendimentos em que os crimes são apontados.
As denúncias abrangem episódios que teriam ocorrido ao longo de aproximadamente 20 anos.
Aluizio foi preso preventivamente em 15 de setembro de 2026. O Ministério Público apresentou denúncia criminal à Justiça com base no primeiro inquérito, que reuniu relatos de oito mulheres.
A acusação formal abrange crimes contra quatro delas: dois casos de estupro e outros dois de violação sexual.
Em relação às demais situações analisadas nesse inquérito, o MP-RO solicitou arquivamento parcial por prescrição de determinados fatos ou por ausência de tipificação penal específica na época em que teriam ocorrido.
O processo tramita sob sigilo judicial.
Julgamento na igreja terminou com punição por “falas impróprias”
Antes de recorrer às autoridades, Mirian Rios tentou obter uma resposta dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil.
O julgamento religioso foi conduzido por um grupo formado por 13 homens, entre presbíteros e representantes da instituição. Ao final, as acusações mais graves foram consideradas não comprovadas.
O pastor recebeu punição por “falas impróprias”, após admitir que havia feito comentários sobre o corpo de Mirian e declarado que qualquer homem gostaria de vê-la, inclusive ele.
Outras condutas relatadas pela mulher, incluindo contatos físicos e uma tentativa de beijo, não foram consideradas comprovadas pelo tribunal religioso.
Mirian afirma que, depois do procedimento interno, passou a sofrer ataques à sua reputação.
“Para explicar minha denúncia, passaram a dizer que eu era bipolar, instável, depressiva e mal-amada. Disseram que eu havia me apaixonado por ele, que tinha confundido as coisas.”
Segundo seu relato, as acusações contra ela chegaram ao ponto de espalharem que trabalhava como garota de programa.
“De vítima, fui transformada em prostituta e vilã”, afirmou.
A situação reacende o debate sobre os mecanismos de proteção às vítimas dentro das instituições religiosas. A Revista Fórum já noticiou outro caso de pastor acusado de abusar sexualmente de fiéis, envolvendo denúncias relacionadas a supostos atendimentos terapêuticos.
“Escolhi não continuar em silêncio”
A decisão de procurar o Ministério Público veio depois da experiência no julgamento interno da igreja.
Mirian afirma que o medo de não ser acreditada e a possibilidade de existirem outras mulheres na mesma situação foram determinantes para sua decisão de denunciar.
“Dói lembrar do consultório, do julgamento, das humilhações, da solidão e do medo de não acreditarem em mim. Mas hoje eu sei que a vergonha nunca deveria ter sido minha. Quando compreendi que poderia haver outras mulheres, escolhi não continuar em silêncio.”
O depoimento encontrou eco entre mulheres que afirmam ter vivido experiências semelhantes, mas que até então não haviam procurado as autoridades.
Para as denunciantes, a relação com o religioso envolvia confiança construída durante anos de aconselhamento psicológico e espiritual.
O Ministério Público investiga justamente a suspeita de que essa posição de autoridade tenha sido utilizada para facilitar os abusos relatados.
O que dizem a defesa e a Igreja Presbiteriana
Após a prisão, a defesa de Aluizio Vidal Flor afirmou ao g1 que acreditava que as investigações comprovariam a inocência do pastor.
Procurado novamente quando o Ministério Público apresentou a denúncia criminal, o advogado optou por não se manifestar, segundo a reportagem.
Os responsáveis pela Igreja Presbiteriana do Brasil também foram procurados pelo g1 e não se pronunciaram sobre o caso.
Como denunciar violência sexual em Rondônia
O Núcleo de Atendimento às Vítimas do Ministério Público de Rondônia oferece acolhimento, orientação e encaminhamento para pessoas que sofreram violência.
O serviço atende vítimas e familiares, com atenção especial às situações de vulnerabilidade. Informações sobre o atendimento estão disponíveis no portal do Conselho Nacional do Ministério Público.
Em Porto Velho, o Navit atende pelo WhatsApp (69) 99906-6411. Também é possível procurar a Polícia Civil pelo número 197 ou a Central de Atendimento à Mulher, pelo 180, que funciona gratuitamente, 24 horas por dia.
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