A fundação americana responsável pelo Visegrád24, perfil internacional que entrevistou Flávio Bolsonaro (PL) e divulgou cotações de apostas sobre sua candidatura, recebeu US$ 175 mil de um fundo conservador que preserva a identidade de seus doadores. O dinheiro foi repassado pela DonorsTrust em 2024, com a finalidade declarada de apoiar o perfil.
No mesmo ano, a The Intermarium Foundation informou ao fisco americano que não pagou salários, mas desembolsou US$ 365 mil com consultores e subcontratados cujos nomes não aparecem na declaração.
Os doadores ocultos por trás do Visegrád24
Stefan e Alexandra Tompson dirigem a The Intermarium Foundation. É no Form 990, a prestação de contas obrigatória para esse tipo de entidade nos EUA, que aparecem os valores.
O formulário de 2024 foi entregue em novembro de 2025. Segundo o Form 990 de 2024, publicado no ProPublica, a fundação registrou:
US$ 852 mil (R$ 4,3 milhões) de receita em um ano, quase tudo em doações;
zero pago em salários, inclusive aos diretores;
US$ 365 mil (R$ 1,8 milhão) pagos a “consultores” e “subcontratados”, sem o nome de nenhum deles, segundo a Parte IX do formulário;
patrimônio que subiu de cerca de US$ 30 mil (R$ 150 mil) para US$ 436 mil (R$ 2,2 milhões) em doze meses.
O documento registra os serviços, mas não identifica quem recebeu os US$ 365 mil. Tampouco mostra quem escreve as publicações do perfil ou decide seu conteúdo.
A DonorsTrust funciona como intermediária de doações: repassa recursos sem expor a identidade dos doadores originais. Em 2024, destinou US$ 175 mil (R$ 875 mil) à Intermarium Foundation com uma finalidade escrita no próprio formulário: “para apoiar o Visegrád24”.
Da entrevista à onda de apostas
Com 1,4 milhão de seguidores no X, segundo a Columbia Journalism Review, o Visegrád24 publica notícias internacionais em linguagem de impacto. Elon Musk já compartilhou suas postagens.
Em 4 de fevereiro de 2026, o Visegrád24 publicou uma entrevista com o senador. A publicação saiu dias depois de uma viagem de Flávio a Israel.
https://x.com/visegrad24/status/2019175704827400483
O perfil beneficiado pelo repasse à fundação entrevistou Flávio em fevereiro e, em setembro, reproduziu a cotação eleitoral que a Polymarket apresentava como “chance” de vitória.
A casa de apostas é a Polymarket, bloqueada no Brasil. O post oficial dela com a “chance recorde” de Flávio trazia um código de rastreamento escondido no link, como a Fórum mostrou em Polymarket, um código no link e perfis pagos: o post que pôs Flávio “na frente”.
O Visegrád24 é um dos cinco perfis citados numa representação do Partido Missão contra o X Brasil no TSE, o Tribunal Superior Eleitoral, por posts pagos sobre Flávio. A ação, relatada pelo ministro André Mendonça, trata de posts do Visegrád24, do ex-deputado americano Matt Gaetz, do perfil Geiger Capital, de Eric Daugherty (@EricLDaugh) e da rede UHN Plus, segundo o NC News.
Viagens a Israel e empresas na Polônia
Segundo o jornal francês Le Monde, a Maccabee Task Force pagou viagens a Israel de Stefan Tompson, dirigente do Visegrád24. A Maccabee Task Force é uma entidade americana pró-Israel. Tompson disse ao jornal que a entidade não pagou conteúdo.
A mesma fundação opera outro perfil, o Middle East 24. A equipe dele fica principalmente em Dubai, segundo a revista Columbia Journalism Review.
Stefan Tompson e Dominik Andrzejczuk, ligados ao perfil, são sócios de uma consultoria na Polônia, segundo o consórcio europeu de jornalismo VSquare. A empresa se chama Black Horse Advisors e hoje está inativa. Outra empresa de Tompson, a Bracia Tompson, faturou com uma campanha do governo polonês em 2022, segundo o mesmo VSquare.
Em 2025, a Fórum mostrou como o perfil ajudava a espalhar a pauta do clã Bolsonaro no exterior.
O que os documentos não revelam
As contas não identificam os prestadores pagos pela fundação nem as pessoas que originalmente financiaram o repasse feito pela DonorsTrust. Isso, por si só, não mostra quem financiou publicações eleitorais.
A Lei das Eleições proíbe ajuda de entidade ou governo estrangeiro a candidatos, inclusive por publicidade. Entrevistas jornalísticas não se confundem com propaganda eleitoral paga; a autoria e o financiamento de cada publicação exigem apuração específica.
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