Pentágono emprestou US$ 620 milhões a fábrica ligada a Trump Jr.; parceira mira minério da Bahia

Pentágono emprestou US$ 620 milhões a fábrica ligada a Trump Jr.; parceira mira minério da Bahia
Trump JR e Pentagono - Fotomontagem: Gage Skidmore. CC BY-SA 4.0 e ohn Wright/Departamento de Defesa dos EUA.

Uma fabricante americana de ímãs que recebeu investimento de um fundo ligado a Donald Trump Jr. conseguiu um empréstimo de US$ 620 milhões do Pentágono e firmou um acordo preliminar com uma mineradora que pretende explorar terras raras no sul da Bahia.
A Vulcan Elements, beneficiada por uma operação que chegou ao governo americano por iniciativa de um assessor da Casa Branca, assinou o memorando com a Energy Fuels, companhia que controla quase 17 mil hectares de áreas minerárias próximas a Abrolhos. O projeto brasileiro ainda depende de licenciamento, e o fornecimento inicial previsto no acordo utiliza minério dos Estados Unidos.
A mina que ainda não saiu do papel
A Energy Fuels, companhia negociada na bolsa americana, controla 19 processos na Agência Nacional de Mineração (ANM). Juntos, abrangem 16.970 hectares no extremo sul da Bahia.
O solo da região contém monazita, mineral rico em terras raras, usadas em celulares, carros elétricos e armamentos. Segundo a empresa, a areia pode conter urânio. O Brasil tem a segunda maior reserva desses metais no planeta; a participação americana na mina de Goiás está detalhada em Terras raras: o minério que Trump quer do Brasil e Flávio oferece aos EUA.
A área fica entre Prado, Alcobaça, Caravelas e Nova Viçosa. Ali há vilas de pescadores, praias de areia escura e a terra indígena Pataxó Comexatibá. Em frente fica o mar de Abrolhos, um dos principais berçários de baleias jubarte do Atlântico Sul.
O projeto está no começo. O órgão ambiental da Bahia não deu licença, e ambientalistas apontam que os Pataxó não foram consultados, segundo o jornal Correio, de Salvador. A Energy Fuels anunciou a compra do projeto em 2022, por US$ 27,5 milhões (R$ 137 milhões), e a concluiu em 2023. Em agosto de 2025, a empresa virou sócia da Associação Comercial da Bahia.
Segundo o relatório entregue à SEC, minas da empresa fora dos EUA, como a da Bahia, devem fornecer monazita à usina White Mesa, em Utah. Lá, o minério vira óxido de terras raras. Tudo depende de licenças.
Da mineradora à casa de apostas
O memorando de 26 de agosto de 2025 prevê que a Energy Fuels forneça à Vulcan, para testes, óxidos de terras raras produzidos inicialmente com minério dos Estados Unidos, da Flórida e da Geórgia. É um acordo preliminar, ainda sem obrigação de compra. O aproveitamento da monazita baiana depende de licenças e de novos contratos.
Duas semanas antes, a Vulcan tinha recebido um novo investidor: o fundo 1789 Capital, que tem Donald Trump Jr. como sócio. O valor investido não foi divulgado.
No mesmo dia do memorando, o fundo 1789 anunciou outro investimento, na Polymarket, segundo a Reuters. Trump Jr. entrou no conselho consultivo da casa de apostas. Um ano depois, foi da Polymarket que saiu a “notícia” de que Flávio estava “na frente” da eleição brasileira.
A Polymarket é bloqueada no Brasil. O post dela com a “chance recorde” de Flávio, publicado em 20 de setembro, trazia um código de rastreamento escondido no link de apostas, e perfis estrangeiros com selo de propaganda paga repetiram a “notícia” em 25 horas, como a Fórum mostrou em Polymarket, um código no link e perfis pagos: o post que pôs Flávio “na frente”.
Em março de 2026, Flávio falou num evento conservador nos EUA. Ele disse que o Brasil é “a solução para os Estados Unidos quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”.
Um plano de 22 páginas com a marca da campanha oferece aos EUA um sistema de fornecimento de terras raras, como revelou o site Amado Mundo e detalhou a Fórum. O autor do plano, André Marinho, diz que fez o material por conta própria.
US$ 620 milhões do Pentágono após a indicação da Casa Branca
Em novembro de 2025, a Vulcan e a ReElement anunciaram um pacote de aproximadamente US$ 1,4 bilhão (R$ 7 bilhões) em recursos públicos e privados. O núcleo era o empréstimo de US$ 620 milhões do Pentágono à Vulcan. O Departamento de Comércio entrou com mais US$ 50 milhões (R$ 250 milhões) e adquiriu participação na empresa.
Em maio de 2026, a agência de jornalismo americana ProPublica revelou que o pedido do empréstimo partiu da Casa Branca, por meio de Peter Navarro. Ele é assessor de Trump e amigo de Trump Jr.
Segundo a ProPublica, entre dezenas de empresas avaliadas, a Vulcan foi a única cujo pedido veio de um assessor presidencial. O negócio fechou em semanas, quando o normal são meses. Segundo a Bloomberg, citada pela ProPublica, o valor da Vulcan saltou de cerca de US$ 200 milhões (R$ 1 bilhão) para cerca de US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões).
O fundo 1789 diz que não teve papel nem sabia do negócio. Trump Jr. diz não ter conhecimento de como ele foi feito.
As cobranças no Congresso americano
O fornecimento inicial previsto no memorando é americano. A Bahia aparece nos planos futuros da Energy Fuels, sem relação comercial comprovada com a campanha de Flávio. Os documentos ligam os investimentos e seus protagonistas, não mostram um contrato eleitoral.
No Congresso americano, os deputados Jared Huffman e Robert Garcia cobraram documentos da Vulcan.
A ONG CREW pediu que o inspetor-geral, o controle interno do Pentágono, investigue o empréstimo. O deputado Jamie Raskin cobrou explicações dos sócios do fundo 1789.
O 1789 Capital liga as duas pontas: investe na Vulcan e na Polymarket, que divulgou a “chance recorde” de Flávio. O cruzamento está na reportagem Fundo do filho de Trump na casa de apostas e na corrida pelo “ouro” do Brasil.

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