Uma campanha de comunicação contratada pelo governo de Israel nos Estados Unidos está na origem de US$ 136 mil pagos à EyesOver, empresa de tecnologia que Fernando Cerimedo, marqueteiro argentino aliado do clã Bolsonaro, anunciou que representaria na América Latina.
As três transferências partiram da Clock Tower X, de Brad Parscale, ex-chefe digital de Donald Trump, e aparecem em documentos entregues ao Departamento de Justiça americano. Um dos pagamentos, de US$ 18 mil, foi realizado em 5 de fevereiro de 2026, apenas cinco dias antes de Eduardo Bolsonaro premiar Cerimedo em Mar-a-Lago, onde o argentino agradeceu a Parscale por lhe fornecer sua tecnologia.
O caminho dos US$ 136 mil
A empresa que fez as transferências é a Clock Tower X, de Parscale. Seu registro tem o número 7649 na FARA, lei que obriga representantes de interesses estrangeiros a informar ao Departamento de Justiça dos EUA quem os contratou e como o dinheiro foi gasto.
No relatório de 18 de maio de 2026, a empresa informa que trabalha para a agência de publicidade Havas, “contratada pelo Estado de Israel”. O serviço era uma campanha nos EUA “contra o antissemitismo”, feita só pela internet, com sites, vídeos e redes sociais. Segundo o documento, a Clock Tower X recebeu US$ 15 milhões (R$ 75 milhões) entre outubro de 2025 e março de 2026.
A lista de pagamentos do relatório traz a Eyesover LLC três vezes, sempre por “Sentiment Analytics”:
US$ 100 mil (R$ 500 mil) em 29 de outubro de 2025;
US$ 18 mil (R$ 90 mil) em 5 de fevereiro de 2026;
US$ 18 mil em 11 de março de 2026.
Total: US$ 136 mil (R$ 680 mil).
Os valores estão nas páginas 43 a 45 do relatório FARA 7649 da Clock Tower X, de 18/05/2026. Os dois pagamentos de US$ 18 mil foram mostrados primeiro pelo site argentino DataClave.
Os pagamentos são descritos como “Sentiment Analytics”, análise de sentimento. A tecnologia examina publicações nas redes para medir a reação a pessoas, governos e temas — informação útil a campanhas de comunicação.
Cinco dias depois, o prêmio de Eduardo
Na noite de 10 de fevereiro, Eduardo entregou a Cerimedo o prêmio de “consultor político hispânico do ano”. “Obrigado, Brad Parscale, por acreditar em mim o tempo todo e por me dar sua tecnologia”, declarou o marqueteiro.
A festa, a Hispanic Prosperity Gala, era divulgada no site “Latinos for Trump”, mantido por um comitê eleitoral americano cujo tesoureiro organizou o evento. Nas semanas anteriores, o comitê gastou US$ 130 mil (R$ 651 mil) com som, luz, transporte e segurança de evento, como mostra a Fórum em Mar-a-Lago: comitê pró-Trump gastou US$ 130 mil antes de prêmio de Eduardo a Cerimedo.
A ex-companheira de Cerimedo, Nadia Beller, afirma que ele trabalha para a campanha de Flávio Bolsonaro (PL). Segundo ela, a equipe dele agiu com a Meta para diminuir o alcance de Lula nas redes. A Meta disse ao TSE, o Tribunal Superior Eleitoral, que houve falhas técnicas e negou favorecer qualquer lado.
Nas prestações de contas analisadas pela Fórum, a campanha de Flávio não declarou pagamentos a Cerimedo, à EyesOver ou à Campaign Nucleus.
Cerimedo e a tecnologia de Parscale
Cerimedo ganhou projeção com a live “Brazil Was Stolen” (“o Brasil foi roubado”), que difundiu a mentira de fraude nas urnas em 2022 e foi retirada do ar por ordem do TSE. Em 2023, comandou a comunicação digital de Javier Milei na Argentina.
Em março de 2025, Cerimedo anunciou que representaria na América Latina duas empresas de um projeto liderado por Parscale. São a plataforma de campanha Campaign Nucleus e a EyesOver, segundo o canal argentino C5N.
No mesmo discurso em Mar-a-Lago, Cerimedo também agradeceu ao texano Tim Dunn. Em inglês, disse: “and Tim Dunn, for fighting in Latin America against socialism” (“e Tim Dunn, por lutar na América Latina contra o socialismo”), segundo as transcrições do The Real News Network e do Le Grand Continent. Dunn é bilionário do petróleo e um dos maiores financiadores da direita no Texas. Em 2023, ele pagou US$ 5 milhões (R$ 25 milhões) por 40,6% da AiAdvertising, como revelou a revista Texas Monthly. A empresa faz publicidade com inteligência artificial e tinha Parscale como consultor.
Desde 18 de agosto, Cerimedo está em prisão preventiva, a prisão antes do julgamento, na Bolívia. Ele é acusado de tentativa de feminicídio contra Beller. Num segundo caso, por enriquecimento ilícito, a Justiça boliviana decretou outra prisão preventiva. Ele declarou às autoridades ter ganhado cerca de US$ 1 milhão (R$ 5 milhões) com atividades fora da Bolívia. Depois, numa entrevista, disse que era por ano, não por mês.
O limite dos registros americanos
A campanha declarada nos Estados Unidos tinha como público os americanos. O relatório não menciona o Brasil. A Clock Tower X identificou o Estado de Israel como cliente, por meio da agência Havas Media Germany.
Os registros permitem seguir o dinheiro até a EyesOver, ferramenta que Cerimedo anunciou que levaria à América Latina. Não informam se ela foi utilizada na campanha brasileira nem mostram transferência desses recursos ao marqueteiro ou a Flávio.
A Lei das Eleições proíbe que candidatos recebam ajuda de entidades ou governos estrangeiros, inclusive na forma de serviços. A existência desses pagamentos nos EUA, isoladamente, não demonstra recebimento de recursos pela campanha brasileira.
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