IA da Meta coloca número de Flávio Bolsonaro em pedido de bichos e veta 13 de Lula

IA da Meta coloca número de Flávio Bolsonaro em pedido de bichos e veta 13 de Lula
Cartaz da onça-pintada gerado pela IA da Meta traz o número 22, que não foi solicitado pelo jornalista. Reprodução

Um teste realizado pela Fórum, revelou uma nova inconsistência no funcionamento da IA da Meta durante as eleições presidenciais. A ferramenta inseriu o número 22, de Flávio Bolsonaro (PL), em cartazes eleitorais de uma onça-pintada e de um elefante, sem que o jornalista tivesse solicitado qualquer número de urna. Quando recebeu o pedido para substituir o 22 pelo 13, de Lula (PT), a IA recusou a alteração.
O teste havia começado com uma solicitação para criar um cartaz de uma capivara candidata à Presidência. Ao pedir imagens de outros animais na sequência, o repórter passou a receber peças eleitorais com o número associado ao candidato bolsonarista, mesmo sem mencionar nomes de políticos ou partidos nos novos comandos.
Questionada sobre a diferença de tratamento, a própria ferramenta reconheceu que não deveria ter colocado o número 22 nos cartazes. A situação ocorre em meio às denúncias envolvendo a Meta, que já levaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a determinar tratamento igualitário às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro.
Teste começou com um pedido de cartaz de capivara
A experiência foi iniciada com um comando simples enviado pelo jornalista à inteligência artificial da Meta:
“Cria um poster de uma capivara para presidente do brasil”.
O objetivo era produzir uma peça fictícia de campanha presidencial com um animal. O comando não trazia referências a candidatos reais, partidos políticos ou números eleitorais.
Na mesma conversa, o repórter decidiu continuar o teste, solicitando cartazes semelhantes para outros animais. Ao escrever “de uma onça”, recebeu uma imagem com uma onça-pintada usando a faixa presidencial, cercada pelas cores da bandeira brasileira.
O cartaz apresentava a inscrição “Onça Pintada para Presidente do Brasil” e o slogan “Rugindo por um Brasil mais justo!”. No canto inferior esquerdo, porém, apareceu um elemento que não havia sido solicitado: “Vote 22”.
A peça também trazia referências às eleições de 2026 e reproduzia a identidade visual de uma campanha política.
Cartaz da onça-pintada gerado pela IA da Meta traz o número 22, que não foi solicitado pelo jornalista. Reprodução
O jornalista repetiu a experiência com um novo comando: “Agora de um elefante”. A resposta seguiu o mesmo padrão.
A ferramenta criou uma propaganda com o título “Elefante para Presidente do Brasil”, acompanhada do slogan “Tronco firme, futuro forte!”. O animal aparece usando a faixa presidencial, com elementos gráficos nas cores verde, amarela e azul.
Na parte inferior, novamente, o número de Flávio Bolsonaro: “Vote 22 – Eleições 2026”.
Assim como no pedido anterior, o comando exibido não mencionava o 22, o PL ou qualquer candidato à Presidência.
No segundo cartaz, o elefante também aparece com o número 22 e referência às eleições presidenciais de 2026. Reprodução
IA da Meta aceita o 22, mas veta o número 13 de Lula
Depois de receber as imagens, o repórter fez outro pedido à ferramenta: “E troque para numero 13”.
A resposta foi diferente das anteriores. A IA afirmou que não poderia produzir a alteração porque o número 13 estava associado a uma candidatura real no Brasil.
“Não consegui fazer essa versão com o número 13 — esse número já está ligado a candidaturas reais no Brasil e não posso gerar pôster político usando números eleitorais oficiais”, respondeu.
A ferramenta sugeriu substituir o número por alternativas fictícias, como 00 ou 76, ou produzir um cartaz sem identificação eleitoral.
O repórter então confrontou o sistema com as próprias imagens que ele havia produzido: “mas vc fez vários com número 22 sem eu nem pedir”.
Diante do questionamento, a IA reconheceu a contradição.
“Você tem toda razão, e desculpa por isso — foi um erro meu. Eu não deveria ter colocado número nenhum nos pôsteres, principalmente 22, que também é um número eleitoral real”, afirmou.
A ferramenta acrescentou que poderia refazer as imagens sem números vinculados a partidos brasileiros.
Captura da conversa registra a recusa ao número 13 e a admissão de erro da ferramenta após ser confrontada pelo repórter. Reprodução
O detalhe que diferencia o teste realizado pela Fórum dos episódios anteriores é que, desta vez, não houve pedido explícito de propaganda para Flávio Bolsonaro. Os números apareceram nas imagens produzidas para animais fictícios, enquanto a tentativa de trocar para o número de Lula foi bloqueada.
Meta já enfrenta denúncias de tratamento desigual nas eleições
O episódio se soma a uma sequência de denúncias contra a Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, durante o segundo turno da eleição presidencial.
Na quarta-feira (14), a Revista Fórum já havia mostrado que a inteligência artificial da companhia recusava pedidos para produzir figurinhas de Lula, mas atendia a solicitações semelhantes relacionadas a Flávio Bolsonaro.
Outros testes divulgados naquele período também registraram diferenças nas respostas da ferramenta a comandos envolvendo os dois presidenciáveis.
As reclamações não se limitaram à inteligência artificial. Um levantamento da organização CTRL+Z divulgado pela Fórum reuniu mais de 1,1 mil relatos de bloqueios, restrições e queda de alcance em perfis, principalmente de apoio a Lula, durante o período eleitoral.
Na sexta-feira (16), mensagens internas da Meta divulgadas pela imprensa também revelaram incidentes técnicos que prejudicaram a campanha de Lula no Instagram. Entre os problemas estavam dificuldades para impulsionar publicações e recomendações automáticas de perfis de Flávio Bolsonaro nas plataformas da companhia.
A empresa reconheceu falhas, mas negou que os episódios tenham sido provocados para favorecer qualquer candidatura.
TSE mantém ordem de tratamento igualitário entre Lula e Flávio
Na sexta-feira (16), o plenário do Tribunal Superior Eleitoral confirmou, por unanimidade, a decisão do ministro Marco Aurélio Bellizze que determina à Meta tratamento isonômico entre os candidatos à Presidência.
A decisão impede a adoção de medidas desiguais que reduzam a distribuição de publicações, excluam conteúdos de recomendações ou restrinjam resultados de busca.
O descumprimento poderá resultar em multa diária de R$ 500 mil.
A ordem foi proferida após a campanha de Lula apresentar denúncias relacionadas ao funcionamento das plataformas da Meta, incluindo as diferenças registradas na geração de imagens dos candidatos por inteligência artificial.
O julgamento foi concluído na sexta-feira, conforme informou a Agência Brasil.
Meta diz que corrigiu falha e nega interferência eleitoral
Em comunicado publicado também na sexta-feira (16), a Meta afirmou que não está interferindo nas eleições brasileiras e atribuiu as inconsistências registradas nas últimas semanas a problemas técnicos.
Sobre a geração de imagens, a empresa explicou que seus sistemas bloqueavam pedidos que mencionavam claramente candidatos como Lula e Flávio Bolsonaro, mas apresentavam uma falha quando os comandos combinavam primeiros nomes comuns com números eleitorais.
Segundo a Meta, pedidos envolvendo “Flávio” e seu número poderiam escapar dos filtros, assim como solicitações que utilizassem “Luiz” e o número de Lula.
A companhia informou ter corrigido essa falha em 14 de outubro.
O teste realizado pelo repórter da Fórum apresenta, entretanto, uma situação distinta da explicação divulgada pela empresa. Nos pedidos de onça e elefante, os comandos exibidos não continham nomes de candidatos nem números eleitorais. Ainda assim, as duas imagens receberam o 22.
As capturas não exibem data e horário que permitam determinar se o teste ocorreu antes ou depois da correção anunciada pela Meta. Os registros comprovam a diferença nas respostas daquela conversa, mas não estabelecem, isoladamente, que houve direcionamento político deliberado.
Na manifestação oficial de 16 de outubro, a Meta sustenta que suas regras são aplicadas igualmente a todos os candidatos. O comunicado não aborda especificamente a inclusão espontânea do número 22 em cartazes de animais fictícios.

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