Master e CNN mantinham uma relação publicitária de R$ 10 milhões por ano, enquanto executivos do Banco Master, de Daniel Vorcaro, tentavam interferir no conteúdo do canal CNN Money. Mensagens reveladas neste domingo (18) pelo ICL Notícias mostram que a direção do banco queria combinar previamente todas as perguntas de uma entrevista sobre a venda de parte da instituição ao Banco de Brasília (BRB).
As conversas foram reveladas pelos jornalistas Juliana Dal Piva e Flávio VM Costa, do ICL Notícias. Horas antes, a Revista Fórum havia publicado que o Master era um dos seis cotistas-fundadores da CNN Money, lançada em novembro de 2024, ao lado de Itaú Personnalité, Banco Inter, Qualcomm, Claro e Ambipar.
Após a publicação da Fórum, a CNN encaminhou uma nota à reportagem, que foi acrescentada ao texto. A emissora confirmou a relação comercial com o Master, mas negou que Vorcaro tenha sido seu sócio e afirmou que anunciantes não interferem na programação jornalística.
Master e CNN: mensagens revelam tentativa de combinar perguntas sobre o BRB
Em 3 de abril de 2025, seis dias depois do anúncio da compra de 58% do Master pelo BRB, Vorcaro discutiu com Ana Matos, responsável pelo marketing do banco, a possibilidade de conceder uma entrevista para defender o negócio.
O banqueiro havia conversado com João Camargo, então presidente executivo do Conselho da CNN Brasil, que ofereceu espaço na programação às 18h.
Ana concordou com a entrevista, mas afirmou que as perguntas do jornalista Fernando Nakagawa deveriam ser previamente acertadas com o banco. Na conversa, insistiu que fossem combinadas todas, antes da transmissão, e resumiu a orientação: “Tudo combinado. 100%”.
Vorcaro decidiu não aparecer pessoalmente, alegando que seu nome estava muito exposto. Em seu lugar, enviou Paulo Gala, economista-chefe do Master, que havia passado por treinamento para entrevistas.
Gala participou ao vivo da CNN Money naquele dia, às 18h, e defendeu a operação com o BRB. A entrevista foi conduzida por Nakagawa e posteriormente publicada no site da emissora, com o título Venda para BRB beneficia ambas as partes, diz economista-chefe do Master.
Procurado pelo ICL, Nakagawa negou ter recebido imposições. Segundo o jornalista, a entrevista incluiu perguntas sobre os CDBs do Master que pagavam 140% do CDI, a necessidade de buscar um sócio e as críticas ao uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
As mensagens divulgadas não registram um acordo efetivo sobre as perguntas. Revelam a tentativa do banco de interferir na preparação da entrevista.
Em outra conversa, de 14 de abril de 2025, Ana relatou a Vorcaro que havia conseguido uma nova participação de Gala na programação da CNN. Segundo ela, o economista seguiu as orientações recebidas e defendeu o uso do FGC, assunto de interesse do Master.
Vorcaro queria participar das decisões editoriais
As negociações entre o Master e a CNN Money começaram em 2024, antes do lançamento do canal.
Em 18 de setembro daquele ano, Vorcaro contou a Ana Matos que negociava sua entrada na CNN com Rubens Menin, controlador da emissora. Disse ainda que pretendia integrar o conselho e participar das decisões sobre a programação.
O banqueiro afirmou que o conteúdo seria escolhido por eles e que Ana poderia participar do conselho editorial.
Oito dias depois, a executiva informou que a CNN havia solicitado R$ 12 milhões por um contrato de 12 meses para a entrada do Master como patrocinador-fundador da CNN Money.
Ana sugeriu aproveitar os R$ 10 milhões anuais que o banco já destinava à CNN Brasil, direcionando o dinheiro ao novo canal. Também propôs impedir a entrada de determinados patrocinadores concorrentes e indicar alguém para acompanhar o conteúdo editorial conforme os interesses do Master.
Vorcaro concordou com as propostas.
Em outubro, Ana mencionou uma conversa com Cris Moreira, então vice-presidente da CNN, sobre um primeiro aporte como acionistas. As mensagens, porém, não esclarecem se houve efetiva aquisição de participação societária.
A presença do Master como cotista-fundador da CNN Money foi divulgada por publicações especializadas na época do lançamento do canal. A condição de patrocinador-fundador não significa, necessariamente, participação no capital da emissora.
Pedido de R$ 4 milhões para evento da CNN
As conversas também mostram negociações para o patrocínio do CNN Talks, plataforma de eventos da emissora.
Em agosto de 2024, João Camargo pediu R$ 4 milhões para um patrocínio. Vorcaro considerou o valor elevado e orientou Ana a negociar. Posteriormente, a executiva informou que havia fechado o contrato por R$ 1 milhão.
Em setembro, Ana reclamou ao banqueiro dos pedidos recorrentes de dinheiro feitos por executivos da CNN. No mês seguinte, voltou a mencionar que não pretendia acrescentar recursos ao orçamento publicitário do Master, mas transferir para a CNN Money os R$ 10 milhões já destinados anualmente à emissora.
CNN nega sociedade com Vorcaro e interferência editorial
Na manifestação encaminhada anteriormente à Revista Fórum, a CNN Brasil negou que Daniel Vorcaro tenha sido sócio da CNN Brasil ou da CNN Money, formal ou informalmente. Segundo a empresa, Rubens Menin é seu único controlador.
A emissora confirmou que o Banco Master contratou publicidade nos intervalos comerciais e nas plataformas digitais, mas não informou os valores dos contratos. Alegou que esses dados estão protegidos por cláusulas de confidencialidade aplicadas a todos os anunciantes.
A CNN afirmou também que Vorcaro nunca concedeu entrevista à programação jornalística da CNN Brasil ou da CNN Money fora dos eventos CNN Talks. Segundo a empresa, esses eventos são produtos comerciais organizados pelo departamento comercial, com painéis preparados em conjunto com as marcas patrocinadoras e identificados ao público como conteúdo patrocinado.
A emissora acrescentou que sua redação não participa da concepção desses eventos, atuando apenas na cobertura jornalística.
Na nota, a CNN informou ainda que os executivos responsáveis pela emissora e pela área comercial durante o período em que o Master foi anunciante deixaram a empresa em agosto de 2025, antes da prisão de Vorcaro e da liquidação do banco.
A empresa sustentou que a atual administração mantém a separação entre as áreas comercial e editorial. Segundo a CNN, “anunciantes não interferem nas decisões editoriais da CNN Brasil”.
A emissora afirmou, por fim, que mantém cobertura jornalística contínua do caso Master desde a liquidação do banco, em novembro de 2025, e reiterou seu compromisso com a independência editorial, a transparência e os princípios éticos do jornalismo.
Master e CNN: R$ 10 milhões por ano e plano para combinar perguntas
💬 Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar!