Flávio Bolsonaro mente e distorce 16 vezes em debate contra Lula na Band

Flávio Bolsonaro mente e distorce 16 vezes em debate contra Lula na Band
Flavio Bolsonaro - Flávio Bolsonaro (Mateus Bonomi / Anadolu via AFP)

Flávio Bolsonaro (PL) fez três afirmações falsas e outras 13 imprecisas durante o primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado neste domingo (18), na Band. O candidato utilizou informações incorretas sobre criminalidade, armamento, economia e relações internacionais para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O resultado faz parte de uma checagem do Ranking dos Políticos, que examinou 76 declarações dos dois candidatos. Das 29 afirmações verificáveis de Flávio, 16 apresentaram problemas: três foram classificadas como falsas, 13 como imprecisas e outras 13 como verdadeiras.
As verificações da Agência Lupa e do Aos Fatos também identificaram mentiras e informações enganosas que circularam durante o confronto, incluindo acusações envolvendo Daniel Vorcaro, os gastos de Lula e Janja e supostos recordes negativos da economia brasileira.
Flávio Bolsonaro no debate da Band: as três afirmações falsas
1. Recorde de criminalidade no governo Lula
Flávio voltou a afirmar que o Brasil vive um recorde de criminalidade. A declaração contraria os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que apontou, em 2025, a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica, em 2012.
O país continua enfrentando índices elevados de violência e registrou recorde de feminicídios, mas esses dados não sustentam a afirmação generalizada de que houve um recorde de criminalidade no governo Lula.
2. Negação dos números de armas e munições do governo Bolsonaro
Ao rebater Lula, Flávio afirmou que os números de armas e munições liberadas durante a gestão de Jair Bolsonaro não existiam e acusou o presidente de mentir.
Os dados, entretanto, existem. O arsenal registrado de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs) ultrapassou a marca de 1 milhão de armas. Levantamento do Instituto Sou da Paz também contabilizou aproximadamente 994 milhões de munições comercializadas no período.
3. Governo Lula não teria enviado ninguém aos Estados Unidos contra o tarifaço
Flávio afirmou que o governo brasileiro não enviou representantes aos Estados Unidos para defender as empresas prejudicadas pelas tarifas impostas por Donald Trump.
A declaração é falsa. O vice-presidente Geraldo Alckmin participou das negociações comerciais com autoridades norte-americanas, enquanto o chanceler Mauro Vieira esteve em Washington para encontros diplomáticos. Uma comitiva de senadores brasileiros também viajou aos Estados Unidos.
As outras 13 falas imprecisas de Flávio
Além das três afirmações falsas, o Ranking dos Políticos classificou outras 13 declarações do senador como imprecisas. São falas que contêm algum elemento verdadeiro, mas apresentam números equivocados, deixam de considerar informações relevantes ou oferecem interpretações incompatíveis com os dados completos.
4. Prisão de até 80 anos para chefes de facções. Flávio afirmou que líderes de organizações criminosas poderão ficar até 80 anos presos. A Lei Antifacção, proposta pelo governo Lula e sancionada em março de 2026, permite penas elevadas, mas o Código Penal estabelece, como regra, o limite de 40 anos para o cumprimento efetivo das penas privativas de liberdade.
5. Porto de Santos como segundo maior exportador de cocaína. O senador apresentou Santos como o segundo porto que mais exporta cocaína no mundo e atribuiu essa condição ao governo Lula. Relatórios internacionais identificam Santos como uma rota importante do tráfico, mas não estabelecem essa colocação em um ranking mundial. O problema também é anterior à atual gestão.
6. Queda dos juros após sua passagem ao segundo turno. Flávio afirmou que sua classificação para a etapa final da eleição provocou uma redução de 2% nos juros futuros. Houve recuo em contratos de juros, mas em magnitude inferior à anunciada. A atribuição exclusiva desse movimento à candidatura também não foi demonstrada.
7. Recorde negativo da dívida pública. Flávio citou uma dívida de aproximadamente R$ 11 trilhões, valor compatível com os dados do Banco Central. O problema foi apresentá-la como recorde absoluto sem considerar a relação com o PIB. Nesse indicador, o pico de 87,6% ocorreu em 2020, durante o governo Jair Bolsonaro.
8. Bolsonaro teria garantido Bolsa Família de R$ 600. Flávio atribuiu ao pai a elevação do benefício ao valor mínimo de R$ 600. O pagamento ocorreu em 2022, mas tinha caráter temporário, com término previsto para dezembro daquele ano. Sua continuidade foi viabilizada pela PEC da Transição.
9. Supostos pagamentos do Careca do INSS a Lulinha. O candidato associou diretamente o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, a pagamentos de Antônio Carlos Camilo Antunes. A Polícia Federal apura suspeitas citadas em depoimentos, mas a investigação não havia identificado pagamentos diretos na análise mencionada pela checagem. Não existe conclusão definitiva sobre a acusação.
10. Frei Chico e o escândalo do INSS. Flávio acusou um sindicato ligado ao irmão de Lula de roubar aposentados. José Ferreira da Silva, o Frei Chico, é vice-presidente do Sindnapi, entidade investigada, mas não é alvo direto da apuração e não há condenação que permita atribuir a ele os crimes investigados.
11. Responsabilidade do PT por mudanças no controle do INSS. O senador responsabilizou a bancada petista por alterações em uma medida provisória do governo Bolsonaro relacionada aos descontos associativos. A emenda que flexibilizou a revalidação teve autoria de um parlamentar do PSB, com apoio petista. Bolsonaro também sancionou, em 2022, legislação que eliminou a exigência de revalidação.
12. PT teria governado 20 dos últimos 24 anos. Flávio apresentou uma contagem superior ao tempo efetivo de governos petistas. Considerados os mandatos de Lula e Dilma Rousseff desde 2003, o PT esteve na Presidência por aproximadamente 17 dos últimos 24 anos.
13. Condenações de Lula por corrupção. Flávio voltou a lembrar que o presidente foi condenado e preso. O senador deixou de considerar que as condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021, razão pela qual elas não permanecem juridicamente válidas.
14. Votos de presidiários em Lula. O candidato afirmou que 73% dos presidiários votaram no petista. Nas seções instaladas em unidades prisionais, Lula obteve aproximadamente 79,8% dos votos em 2022. A generalização é enganosa porque apenas presos provisórios, sem condenação definitiva, podem votar. Foram cerca de 4,9 mil votos nessa condição.
15. Supostas condenações de Lula por fake news. Flávio afirmou que Lula já foi condenado diversas vezes pelo TSE por desinformação. Houve decisões contra peças da campanha petista, incluindo concessão de direito de resposta, mas não há registro que sustente a alegação de várias condenações pessoais do presidente.
16. Negação de responsabilidade pelo tarifaço. Flávio afirmou que ninguém trabalhou para impor tarifas contra empresas brasileiras. A declaração desconsidera a atuação política de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e o fato de Trump ter relacionado medidas comerciais ao processo judicial contra Jair Bolsonaro. Não há, entretanto, comprovação de que Eduardo tenha solicitado especificamente a tarifa, motivo pelo qual a fala foi classificada como imprecisa.
Vorcaro, viagens de Janja e outras mentiras no debate
As verificações feitas pelo Aos Fatos e pela Agência Lupa encontraram outras alegações falsas ou sem comprovação. Como os levantamentos adotam seleções e classificações diferentes, essas declarações não integram necessariamente as 16 ocorrências do Ranking dos Políticos.
Um dos episódios mais graves envolve Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Flávio repetiu que um suposto áudio do banqueiro revelaria um pagamento clandestino de R$ 30 milhões ao Instituto Lula para financiar um documentário sobre o presidente.
A Lupa classificou a acusação como insustentável. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República negaram a existência do depoimento atribuído a Vorcaro, e não foram apresentados comprovantes dos supostos pagamentos. O material mencionado também não aparece nas propostas formais de delação examinadas pela imprensa.
A circulação de acusações envolvendo o banqueiro e a família Bolsonaro já havia sido abordada pela Revista Fórum em reportagem sobre a denúncia de um suposto vazamento de material contra Lula.
Flávio também afirmou que Lula e a primeira-dama Janja gastaram R$ 7 bilhões em viagens. O Aos Fatos classificou a declaração como falsa. O montante divulgado em publicações nas redes sociais corresponde a despesas de viagens de diferentes órgãos federais, e não a gastos pessoais do presidente e de sua esposa.
Outra informação desmentida foi a de que o governo Lula teria estabelecido um recorde de empresas fechadas. A checagem apontou que os dados não sustentam a afirmação nos termos apresentados pelo candidato.
Na segurança pública, Flávio também alegou que o atual governo coloca criminosos perigosos nas ruas simplesmente por falta de vagas nas prisões. A Agência Lupa classificou a declaração como falsa. A legislação não determina soltura automática de condenados pela falta de vagas; eventuais mudanças no regime de cumprimento da pena dependem de decisão judicial e de requisitos específicos.
Lula cobrou abertura de sigilos durante o confronto
Um dos momentos de maior tensão do debate ocorreu quando Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir os sigilos bancários e telefônicos dos dois candidatos e de seus familiares antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Flávio respondeu que não tinha nada a esconder, mas não confirmou que aceitaria a proposta apresentada pelo presidente. Em seguida, voltou a fazer acusações envolvendo o Instituto Lula e supostos recursos movimentados fora de contas bancárias.
O Ranking dos Políticos também encontrou erros nas declarações do presidente: das 47 falas de Lula analisadas, nove foram consideradas falsas, 23 imprecisas e 15 verdadeiras. A contagem se restringe às afirmações factuais selecionadas, sem incluir opiniões, promessas ou perguntas.
Ao final da noite, a disputa deixou um conjunto de afirmações documentadas e submetidas a checagem pública. No caso de Flávio, 16 das 29 declarações examinadas pelo Ranking dos Políticos não passaram integralmente pelo confronto com os fatos.

Ver mais

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!