Caso Richarlison x Flávio Bolsonaro: coletivo de juristas pede investigação do MPF

Caso Richarlison x Flávio Bolsonaro: coletivo de juristas pede investigação do MPF
- Richarlison e Flávio Bolsonaro. Foto: Foto por PEDRO MARTINS / AGIF / AGIF VIA AFP e Edilson Rodrigues/Agência...

A transferência do direito de ocupação de uma propriedade de luxo no litoral do Rio de Janeiro para o senador Flávio Bolsonaro (PL) entrou na mira do Ministério Público Federal. O coletivo Derrubando Muros pediu a abertura de uma investigação para esclarecer se houve favorecimento ao parlamentar na regularização do imóvel, que antes era ocupado pelo atacante Richarlison, do Tottenham.
O grupo questiona principalmente as circunstâncias em que o direito de ocupação passou ao senador, depois de uma disputa que envolveu o jogador, seus sócios, uma empresa privada e pessoas ligadas ao parlamentar. Como o terreno pertence à União, a representação defende que o caso não seja tratado apenas como um conflito patrimonial entre particulares.
A suspeita levantada é de possível advocacia administrativa, quando alguém utiliza a posição ou a influência na administração pública para defender interesses privados. O pedido foi assinado, entre outros, pelo jurista Miguel Reale Jr. e pelo professor Conrado Hübner Mendes, colunista da Folha de S.Paulo.
“Não é uma mera disputa entre entes privados. Trata-se de patrimônio da União. É de todos os brasileiros”, afirmou à Folha José Cesar Martins, coordenador do Derrubando Muros.
A iniciativa, segundo o coletivo, não busca devolver o imóvel a Richarlison nem favorecer qualquer um dos envolvidos. O objetivo é verificar se os procedimentos que resultaram na concessão do direito de ocupação a Flávio Bolsonaro respeitaram as regras aplicáveis ao patrimônio federal.
Negociação de R$ 10 milhões terminou em disputa
Richarlison afirma que investiu cerca de R$ 10 milhões, junto com parceiros, para adquirir os direitos de ocupação da propriedade. O local abriga um casarão de luxo com cachoeira particular e fica em uma área costeira do estado do Rio de Janeiro.
A negociação, iniciada em 2020, sofreu uma reviravolta em 2022, quando o jogador e seus sócios foram alvo de um pedido de reintegração de posse apresentado pela empresa M Locadora. A companhia era representada por um advogado associado a Willer Tomaz, profissional que mantém amizade com Flávio Bolsonaro.
Na versão apresentada pelo atleta, depois que ele recusou uma proposta para vender o imóvel, seus direitos foram retirados por meio de medidas judiciais. Em publicação nas redes sociais neste sábado (17), Richarlison acusou os envolvidos de terem se aproveitado da disputa para tomar a propriedade.
“Como eu não quis vender, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça”, escreveu.
O jogador também atribui a Flávio e a Willer Tomaz uma iniciativa para obter diretamente da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) a regularização da área em nome do senador. Segundo o relato de Richarlison, a solicitação foi aceita, e ele perdeu o direito de ocupação.
Antes disso, a situação do atleta estaria pendente de uma decisão administrativa da SPU. Para o coordenador do Derrubando Muros, a demora habitual do órgão na análise de processos desse tipo torna necessário esclarecer por que o pedido relacionado ao senador teria avançado rapidamente.
O terreno, vale ressaltar, é federal. A negociação envolveu o direito de ocupá-lo, e não a compra da propriedade da União.
Processo judicial foi arquivado
A disputa também passou pela Justiça fluminense. Em outubro de 2025, uma sentença extinguiu o processo sem analisar o mérito, após a renúncia de uma das partes. Em janeiro de 2026, depois do trânsito em julgado, os autos foram arquivados.
O desfecho judicial não esclarece, por si só, as questões administrativas levantadas pelo coletivo. É justamente esse ponto que a representação encaminhada ao MPF pretende submeter à análise das autoridades.
Flávio Bolsonaro já negou qualquer atuação irregular no episódio. O senador afirmou que sua relação com Willer Tomaz é de amizade. O empresário envolvido no negócio, por sua vez, declarou ter adquirido legalmente os direitos sobre o terreno e pago R$ 5 milhões para quitar pendências fiscais relacionadas ao imóvel. Ele classificou os antigos ocupantes como invasores.
Willer Tomaz também é citado em investigação sobre vazamento
O advogado aparece em outra frente de apuração da Polícia Federal. De acordo com reportagem do UOL publicada neste sábado (17), investigadores identificaram indícios de que Tomaz recebia antecipadamente minutas de decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e de manifestações do Ministério Público Federal, antes de sua publicação oficial.
O advogado também é investigado por suspeitas de fraudes contra a Previdência. As informações sobre esse caso ampliam o contexto em que sua atuação na disputa pelo imóvel passou a ser questionada.
A representação do Derrubando Muros pede que o MPF examine as circunstâncias da regularização do terreno e apure se houve uso indevido da estrutura pública para beneficiar Flávio Bolsonaro.

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